O regresso

O Bufas e o Palmadas, as melhores criações deste confinamento.

Dois meses depois, os miúdos voltaram à sua vida, e o silêncio voltou à minha. Não me queixo, pois preciso do silêncio para trabalhar, mas é sempre curioso constatar a diferença que certas coisas fazem na nossa vida. Uma coisa tão simples, como o silêncio. Quase tão simples como o som do riso de uma criança, ou de várias, enquanto brincam no recreio da escola.

Longe estava eu de pensar, ainda na semana passada – e apesar de já ter passado por isto nem há tanto tempo assim – que ia ter tantas saudades do barulho. É irónico, pois perdi a conta à quantidade de vezes que, nos últimos sessenta dias, levei as mãos à cabeça, em desespero, por não me conseguir concentrar. Sem apoios de ninguém, e com a grande parte de um ano inteiro quase sem rendimentos, confesso que vi a vidinha a andar para trás.

Hoje está tudo mais nivelado, e quem sabe o que o futuro trará em termos profissionais? De resto, a grande lição que tiro de tudo o que tem acontecido, é que os filhos, são de facto, o melhor que a vida tem. (Os clichés existem por uma razão).

Foram várias as vezes que brinquei com a abertura das creches. Tenho um gaiato na creche e outro na pré-escola. Tanto um como outro saíram hoje de casa, radiantes. E tanto um como outro sabiam ao que iam. Respiro de alívio, por dois motivos:

O primeiro, e mais importante, é o de eles voltarem à sua realidade fora de casa, às suas rotinas. Ainda que me faça confusão (principalmente o mais novo) que passem o dia a ver adultos de máscaras, é inegável e insubstituível o valor que tem a interação com os amigos e com as restantes crianças. Li por aí alguns artigos do “vai ficar tudo bem” que diziam que não havia problema: “As crianças estão com quem as ama, não precisam de mais nada”. O caraças!

O que as crianças não precisam é de adultos que passam o dia a tentar fazer outras coisas (sim, porque da última vez que vi, cuidar dos meus filhos não paga contas). Também não precisam de levar respostas tortas sem motivo (aconteceu demasiadas vezes). Também não têm de “fazer pouco barulho” o dia todo; precisam de espaço e tempo para correr, gritar, jogar, serem crianças. E isso, com os pais em casa a tentar trabalhar, cozinhar, arrumar, limpar, cuidar, é MUITO difícil, para não dizer impossível. Ou se faz uma coisa, ou outra. E não, passar o dia a olhar para ecrãs e depois fazer uma “atividade” para nos sentirmos menos mal não é solução. É hipocrisia (honesta).

O segundo, menos importante mas inevitável: posso trabalhar descansado, e voltar à produtividade possível.

Dito isto, e sabendo que a normalidade se quer e é uma coisa boa, mesmo que adaptada, por que raios passei a noite (quase) em claro? E a minha mulher que me diz que, depois das quatro da manhã, não dormiu mais? Afinal não devíamos estar extasiados, radiantes, contentes como eles?

É uma sensação estranhíssima, e muito difícil de explicar, esta que tenho hoje.

Curiosamente, e ao contrário do que foi verdade em grande parte dos últimos dois meses, a manhã correu lindamente.

Os miúdos acordaram os dois super-fofos – qualidade que, fisicamente, lhes é inerente, mas nem tanto em termos de feitio ao acordar, principalmente o mais velho. Não sujaram NADA ao pequeno-almoço, comeram tudo, não gritaram um com o outro nem connosco, não desarrumaram TUDO menos a zona de brincar. Vestiram-se sem problemas, lavaram os dentes sem alagar a casa de banho, tiveram até tempo para brincar um pouco, tal não foi a poupança de tempo que significou a ausência de brigas e de birras. Até tive direito a mimos do mais velho, que de mimoso tem muito pouco.

Passei a manhã toda a pensar nisto. Afinal, nada mudou até à hora de saída de casa. A única diferença para os últimos tempos foi a saída em si. Nada mais mudou. Porque correu tudo tão bem, então? Vou arriscar dizer que o motivo está directamente relacionado com o facto de eu, assim como a minha mulher, sabermos que hoje os nossos filhos vão estar bem, no sítio a que pertencem (enquanto seres em desenvolvimento e indivíduos que precisam de saber, e perceber, o que é o colectivo). Vão passar o dia com quem tem tempo para eles, com quem lhes dá a atenção de que precisam. Mais importante ainda, vão passar o dia rodeados de humanos do seu tamanho.

O facto de sabermos isso ter-nos-á deixado, com certeza, mais calmos e serenos pela manhã. Isso, e o facto de podermos estar mais descansados durante o dia. De não ter de trabalhar e, de repente, cheirar a cocó. De não levar com birras a cada dez minutos. De não ter de pensar no almoço, sabendo de antemão que, se não tiver esparguete ou arroz, não comem (sim, toda a gente sabe que os putos só comem brócolos, e sopa, na escola). De não passar o dia a tropeçar em caixas, rolos de papel higiénico, paus, pedras, papéis, cenas partidas e bocados de tudo e mais alguma coisa e um ou outro brinquedo (pois toda a gente também que sabe que eles raramente brincam com brinquedos). De não estar a tentar concentrar-me e ter o mais novo a chorar como se não houvesse amanhã porque o irmão lhe roubou o tapete da casa de banho com que estava a brincar. De não ter de almoçar ao meio-dia para não atrapalhar o horário da sesta do bebé. De não ter de chegar ao final do dia exausto, pelos motivos “errados”. A lista continua…

De resto, os fins-de-semana vão voltar a fazer sentido. Os miúdos vão estar menos ansiosos e menos zangados com tudo (será demasiado cedo para que isto seja verdade?). Nós estaremos cansados, mas não exaustos e, por conseguinte, mais predispostos para a brincadeira, para os momentos em família, para desfrutar da companhia uns dos outros, sem estarmos fartos uns dos outros!

Diria que tudo está bem quando acaba bem, mas isto ainda não acabou. Nós continuaremos a fazer a nossa parte e a ficar em casa (sempre que possível, a DORMIR!).

Entretanto, já são nove e meia e apercebi-me de que me esqueci de desligar a coluna que está a tocar o Panda e os Caricas desde as sete e um quarto da manhã.

O Panda manda pular ao pé-coxinho…

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