Ser pai

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Fotografia por Rui Vivas

 

Meus filhos,

 

Já lá vão mais de quatro anos desde que começaram a moldar o meu carácter. Primeiro tu, Isaac, e mais tarde tu, Sebastião. Cada um à vossa maneira, e com as vossas peculiares formas de ser, foram, pouco a pouco, afinando a minha postura, o meu pensamento, o meu olhar sobre a vida.

E não foram poucas as mudanças.

Ser (vosso) pai tem sido um grande desafio. Todos os dias penso em como posso melhorar a minha abordagem a situações que aconteceram no dia anterior e que, por uma ou outra razão, não terei abordado da melhor forma.

A coisa não começou bem, para ser honesto.

Alguns meses depois de o Isaac ter chegado, dei por mim muitas vezes a questionar o que tinha acontecido. Para onde tinha ido o meu tempo livre? O que tinha acontecido à minha temperança, à minha calma natural? Por que raios deixei de ter a vida que tinha e que tantas vezes dei como garantida? Qual o motivo por detrás da mudança no olhar da vossa Mãe? Passei mesmo para segundo plano? O que aconteceu ao meu cabelo? Porque é que a minha barriga não pára de crescer?!

 

Os meses foram passando e, sem me dar conta, a minha forma de ver as coisas mudou. As perguntas deixaram de ter tanta relevância, e passaram para segundo plano. Ou pelo menos estas que, agora que as leio, me parecem mesmo pueris. Depois de tantas vezes ter suspirado com birras e choros, dou por mim a lamentar-me como tu, Isaac, quando recebes um rotundo “NÃO” àquela bolacha antes de jantar.

Já tu, Sebastião, no auge dos teus dez meses, começas a dar uns laivos do verdadeiro folião que vais ser. Não dormes, assim que ouves música os teus joelhos parecem as pernas do João Baião nos tempos do Big Show Sic, começaste a andar quase sem teres gatinhado e, sobretudo, estás constantemente a sorrir; tirando quando fazes as pausas para chorar porque tens cocó, ou ranho, ou dói-dói na testa dos constantes beijinhos que dás aos móveis cá de casa, ou simplesmente porque te manténs fiel à característica que será, porventura, comum a TODOS os bebés: o choro.

Levei bastante tempo a perceber que vocês, enquanto bebés, não têm muitas formas de comunicar, e o choro é, sem dúvida, a maneira mais rápida de chamar a atenção. Mas também não era preciso este exagero, não acham?!

Falava eu das alterações que o meu carácter foi sofrendo com o crescer da nossa relação de pai e filhos.

Hoje sou um homem mais tolerante. Sou um pai babado e emotivo, de lágrima fácil (isto não é uma mudança, mas antes uma característica minha, por vós potenciada). Tento, todos os dias, manter-me atento ao vosso comportamento e, sobretudo, estar presente durante as vossas dificuldades, sejam elas importantes, sejam elas fúteis. Brinco com vocês, e faço-o com gosto e, mais importante, sem nunca olhar para o relógio (levei também tempo a perceber que, para relógio, já chega a vossa Mãe). Tento pôr de parte a minha quase obsessão com as arrumações e deixar-me levar nos rios de baba criados pelo Sebastião, ou encontrar um porto-seguro nos teus castelos de almofadas, Isaac (este é ainda um trabalho em progresso. Não é defeito, é feitio). Procuro constantemente formas novas de interagir convosco.

Tento, também, controlar o tom da minha voz grave e que, tantas vezes, dispara sem eu querer. É difícil. Mas ser pai também é isso: tentar lidar, da melhor forma, com as dificuldades que o meu sistema nervoso me apresenta diariamente. Também é importante resistir ao vosso charme e saber dizer que não, mesmo quando o cansaço é muito, ou quando a paciência é pouca. Fazer os possíveis por não refilar, por não desesperar, por manter o sorriso e perceber que, afinal, a vida não volta atrás, e o tempo que passamos a refilar é tempo perdido.

Ser (vosso) pai é uma aprendizagem diária, durante a qual tropeço muitas vezes. Contudo, acredito que me tenho levantado sempre com a mesma vontade de melhorar, de perseverar, de levar a nossa família avante, no sentido da felicidade.

Ser (vosso) pai é querer ser um homem melhor, todos os dias.

Ser (vosso) pai foi a melhor coisa que me aconteceu, depois da vossa Mãe.

Ser (vosso) pai é como ser poeta.

 

É ser mais alto.

 

 

 

Até para a semana.

 

 

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