Afectos

boy and girl sitting on bench toy
Fotografia de June Intharoek

 

Há cerca de mês e meio comecei a fazer psicoterapia e, na última sessão, a minha psicóloga fez-me uma pergunta que me deixou melindrado e, claro, a matutar:

O Rui gosta muito de afectos, não gosta?

A minha resposta foi rápida, e julgo que óbvia:

Mas há alguém que não goste?

O tempo que restou da consulta foi passado a discutir a quantidade de mimo que cada pessoa precisa, sendo que nem eu, nem ela, conseguimos chegar a um valor satisfatório. Contudo, ambos concordámos em que o depósito de afectos de cada indivíduo é variável. É tipo a gasolina. Uns funcionam com gasóleo, outros com noventa e cinco. Há quem se governe com os pedais e até mesmo com as pernocas. Pessoas existem que têm depósitos de quarenta litros, mas outras haverá que precisem de um camião TIR para satisfazer as suas necessidades de festinhas. Há ainda quem se contente com um bidãozinho de cafuné semanal.

Escusado será dizer, ou mesmo tentar perceber, em qual destes casos é que eu me enquadro. Como sempre tive a mania que sou diferente, vou arriscar afirmar que serei uma espécie de SUV e que me assusto sempre que o ponteiro do combustível cai no tracinho da reserva, e a malparida luzinha da bomba de gasolina acende.

Falámos bastante sobre isto. Eu, na minha eterna infantilidade, tenho dificuldade em perceber as pessoas que não precisam, ou que parecem não precisar, de afecto. Como é possível? O ser humano é acarinhado, adorado e mimado desde o momento em que nasce – assumo aqui que os beijos e festas nas barrigas das grávidas não contam. Nos primeiros anos de vida, a nossa existência pauta-se, ou deveria pautar-se, por constantes demonstrações de carinho, por uma educação que nos ensina a sermos bondosos para o próximo, a sermos amigos, solidários, respeitadores e toda uma panóplia de sentimentos nobres.

Compreendo que haja muitas pessoas que precisem de pouco. Mas não posso acreditar que haja quem se oriente, nem que seja apenas quando neva no Algarve, sem mimos.

Uma festa no cabelo, um beijo na boca, uma trinca na orelha. Uma lembrança em forma de flor, uma mensagem de ânimo ou um cartão de aniversário. Um presente simbólico, um abraço apertado, uma palmadinha nas costas. Um dar de mãos, um piscar de olho, uma cedência de feitio. Um abrir a porta, um deixar passar, um “bom dia!” inesperado. Um colinho, um empurrão naquela subida, um sorrir de bondade. Um telefonema só para dizer olá, uma carta que já ninguém escreve, um postal a falar das férias.

Uma lista aparentemente interminável.

Existem tantas formas de demonstrar afecto, tantas maneiras diferentes de mimar alguém, ou de sermos mimados. Todavia, e não é a primeira vez digo isto, parece que estamos cada vez mais distantes, apesar da facilidade com que, hoje em dia, podemos comunicar com alguém que nos é querido.

O Rui acha que deveria haver mais pessoas que não têm medo dos sentimentos, que não hesitam em demonstrar carinho?

Acho!

As pessoas que, como eu, pendem mais para o lado da lamechice, são as que levam mais pancada durante a vida. No entanto, também são as que irrigam o coração com mais frequência e, não menos importante, com “sangue” de melhor qualidade.

Desde muito novo que as palavras “gentil” e “cavalheiro” me acompanham. É algo de que me orgulho, pois são duas palavras cujos significados terão sempre uma conotação positiva, apesar das inúmeras possibilidades de interpretação. Ser emotivo e amável não é algo que faça forçosamente, até porque se assim fosse, a magia perder-se-ia nas malhas da falsa intenção. Contudo, foram traços da minha personalidade que fui nutrindo com o passar dos anos.

Hoje, sou um romântico sem remédio e um cavalheiro sem portas para abrir, porque abrir portas tornou-se machismo e o romantismo perdeu-se algures na pressa constante em que todos vivemos.

Posto isto, pergunto: para quê tanta correria? Por que razão trabalhamos tanto? Para que servem a casa maior, o carro melhor, o estatuto social? Se não alimentamos o coração, que raio andamos cá a fazer?

Será o sentido da vida esta não ter sentido nenhum? Que sentido tem uma vida sem afectos?

A minha intenção não é iniciar uma nova revolução hippie e começarmos todos a fumar erva e a passear em pelota num qualquer descampado cheio de lama (se bem que a ideia até não me desagrada).

Sinceramente, nem sei bem qual é a minha intenção. Não acredito em resoluções de ano novo, mas não deixa de ser irónico o tema do primeiro texto do ano!

Portanto, nesta década que agora começa, fica a sugestão:

Afectem-se, e deixem-se afectar!

 

 

 

 

Até para a semana.

7 Replies to “Afectos”

  1. O título ‘piscou-me o olho’… é que ontem à noite vi o excelente programa na RTP2 ” Sociedade Civil” que falava de Emoções….. com intervenções de Excelência dos intervenientes!! E pronto, dei por mim a ler o texto e interligar tudo…. e adorei! Nota 20. Bji

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  2. Ao ler-te, apercebo-me o quão próximos estamos os dois um do outro nas nossas visões quase diametralmente opostas ao mundo. Há coisas que me arrepiam, coisas que de tão simples se complicam se as quiséssemos explicar ao mundo. Ainda que sinta e que saiba que sabes o quanto, não me apetece desistir de mandar os sacanas dos postais, das ginjas que maceram almas e dos gestos que ampliam amizades, ainda que de apenas e só delas mesmas dependa a continuidade.
    Grande Rui, a abrir feridas que tapamos por vergonha, pudor ou coisas inexplicáveis…
    Porra de texto!
    Não demores a cuspir mais que a malta está muito precisada de espelhos!
    Beijinhos bons para ti, para a Zaida e para os miúdos 😘

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    1. Minha querida, muito obrigado! Confesso que nunca esperei este impacto nas pessoas. Mas também nunca esperei a amizade que criámos e que te tu nutriste tão bem com o teu afecto em forma de bebidas boas e postais ternos! Bem hajas, grande beijinho

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