Dói-dóis, puns e urgências

brown and white bear plush toy
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O sábado passado começou como tantos outros sábados: muita gritaria, regabofe e boa-disposição, no início das quarenta e oito horas favoritas dos pequenotes. Às nove e meia da manhã, hora em que finalmente consegui respirar e parar um pouco para pensar em formas de entreter o meu gaiato, estava longe de imaginar a parafernália de inacreditáveis eventos que iriam ter lugar nas horas seguintes.

Tudo o que passo a relatar em seguida é rigorosamente verdade, com excepção das partes que não são.

O relógio marcava as dez e quarenta e cinco quando saí de casa com o meu filhote. Tínhamos viagem marcada em classe executiva – leia-se carro do papá – para um hospital privado, com o objectivo de lá passar cerca de dez minutos, para mudar um penso.

Para colocar a coisa em perspectiva (mau português aqui, ando a ver séries a mais), o Isaac havia feito, na quinta-feira anterior, um valente dói-dói no dedo mindinho da mão esquerda. Até a mim me doeu, quando o levei, qual superpai sem capa, a voar para as urgências enquanto o pobre cachopo se esvaía em bravura.

Apesar da falta de carne que o quinto dedo apresentava, a ferida não era, aos olhos do enfermeiro Nuno (profissional e simpático como poucos), merecedora de sutura. Reconheço que fiquei aliviado de não ter de ver a minha fotocópia de quatro anos a ser cosida. Um pouco de soro para limpar e mercurocromo dos tempos modernos quanto-baste, guarnecido de uma redução de gaze aplicada com mestria, e o meu pimpolho foi para casa a sentir-se um herói de palmo e meio. Quem o conhece, sabe da falsidade desta afirmação, pois o Izzy Pop (nome artístico) nem um palmo tem. Mas enfim, pormenores.

Entretanto, poderia começar aqui a queixar-me e a indignar-me com a creche que, vá-se lá entender, tinha uma sala com uma janela rachada. Há coisas que não deviam acontecer, e esta é uma das que passa com distinção nessa categoria. Vidros e crianças não. Nunca.

Mas adiante.

Chegámos ao hospital às dez e quarenta e sete, já um pouco cansados da longa viagem que, com música e boa disposição, até se fez bem. Depois de cerca de dez minutos à procura de lugar para estacionar – pois quem construiu o edifício deve ter pensado que só os cámones o iriam utilizar – comecei a fazer o aquecimento para o que se avizinhava, com frases motivadoras do género “Quem é o valentão do papá, quem é?!”.

Mesmo à porta das urgências estava um senhor que, pouco depois, percebi ser estrangeiro. O homem estava ali em pé, como quem espera por algo, ou alguém, que não chega. Tinha muito mau aspecto, de pessoa doente, ou de quem já não quer saber. O meu companheiro de armas nem reparou no velho, mas foi ele que me alertou para o cheiro que estava dentro da sala de espera e que, não muito depois, se grudou nas minhas narinas: um insuportável aroma a mijo.

Enquanto esperava pela triagem e pelos erros no sistema informático que acontecem sempre que lá vou, reparei numa pequena piscina que se começara a formar debaixo do malcheiroso indivíduo. A pessoa normal que há em mim não demorou muito a perguntar à menina da recepção se sabia alguma coisa daquele homem, ou se, no mínimo, o senhor estava a ser acompanhado. A resposta que tive foi que o estrangeiro já tinha sido atendido e que estava à espera de táxi. Eu retorqui que seria apenas normal alguém ir ajudar o senhor. O “já não nos diz respeito” que recebi como resposta soube-me mal. Muito mal. Acabei por perguntar à rapariga se o sítio onde estávamos não era suposto ser um lugar seguro, um sítio onde se salvam vidas e se ajudam pessoas. Não me surpreendeu o “não posso fazer nada” e decidi ignorar. Estivesse eu sozinho e aquele número teria tido um desfecho diferente.

Depois de demasiado tempo a suster a respiração, passámos para a sala de espera das urgências pediátricas. Um autêntico país das (des)maravilhas, aquela sala, onde se confundem crianças de todas as idades e onde ninguém sabe qual é o critério da triagem. Afinal, é de conhecimento popular que uma criança com quatro anos tem o mesmo limiar de dor – e de paciência – que uma de nove. Desde que não haja sangue, está tudo bem.

Pelo menos já não cheirava mal.

Os minutos foram passando e começaram a tornar-se desconfortáveis – por serem muitos. Como era sábado, decidi recorrer às minhas reservas zen e apascentar o carneirinho diabólico que, dentro de mim, começava a balir. O meu primogénito portou-se muito bem, tirando a parte em que rejeitou umas bolachas de uma senhora simpatiquíssima que estava sentada ao nosso lado.

Lembrete parental: NUNCA saias de casa sem um lanche pró catraio, seu burro!

Passados quarenta minutos, mais segundo menos segundo, e ao ver putos que chegaram depois a passar à frente, marimbei-me para as reservas zen e comecei a puxar o brilho à minha metralha-incompetentes. Peguei no miúdo ao colo e passei a porta com sinal proibido, com aquele sentimento pueril de quem acabou de gamar umas belas laranjas ao quintal do vizinho. E ali fiquei uns bons dez minutos, até que a enfermeira decidiu que tinha a conversa em dia, e veio ter connosco.

Mentiria, se dissesse que me surpreendeu quando fiquei a saber que, depois de mais um erro no sistema, o meu puto NÃO estava na lista da triagem e, assim, a interminável espera tinha, afinal, explicação.

“Espere só mais um pouco que vou tratar de tudo”, assegurou-me a enfermeira. Eu respondi que não, não ia esperar. Exigi que mudassem o penso ao meu filho, que já se encontrava há demasiado tempo à espera. A enfermeira olhou para mim com um ar que já se tornou comum nos dias de hoje: trabalha demais e recebe de menos. Na cegueira da minha impaciência, não consegui ver que a Andreia não tinha culpa nenhuma, pois era sábado de manhã e ela encontrava-se, SOZINHA, a dar vazão a maleitas alheias.

Respirei fundo.

Depois respirei um pouco mais fundo.

Nisto, o meu pequeno porquinho deu um pum: deixei de respirar fundo.

Finalmente, vi o meu infante sentado naquelas cadeiras enormes, com o bracinho estendido, à espera de que lhe tratassem o dói-dói. Longe estava eu de saber que a aventura ainda nem tinha começado.

Depois de lhe retirarem a obra de arte que o enfermeiro Nuno havia feito, as (agora duas) enfermeiras saíram disparadas, pois estava alguém a sentir-se mal na sala de espera. Sorte nossa, pois tratou-se de uma simples quebra de tensão de um miúdo pré-adolescente. Só tivemos de esperar mais vinte minutos, enquanto as enfermeiras se desdobravam em soluções que os médicos não tinham, pois estavam ocupados.

O meu garoto, sempre na sua, esperou com toda a calma, enquanto ia perguntando para que serviam todos os instrumentos que o rodeavam e que eu, como sou especialista em parafernália médica, não tive qualquer dificuldade em responder. Distraído, nem se apercebeu de que, entretanto, a enfermeira já lhe tinha tirado o penso e começado a limpar a ferida. Foi então que surgiu a gaze com o Betadine que, malvada, levou o meu superfilho a gritar “NÃO!” como eu nunca o tinha ouvido. A mim pouco me restava fazer senão segurá-lo e tentar amainar a dor que estava a sentir.

Como se não fosse suficiente, a gaze era uma valente merda e não colava! O meu rebento berrava que se desunhava, mas lá aguentou as constantes investidas da gaze contra a sua pele sensível e maltratada.

Como se estivessem a gozar connosco, a tesoura também não cortava! Inacreditável sequência de infortúnios. Incompreensível falta de qualidade de um serviço pago a peso de ouro! Impressionante a resiliência do meu meia-leca, que se aguentou a todas aquelas provações como um verdadeiro campeão.

No final, e já com suspiros de alívio, sentei o ISAAAAAAAAAAAAC! (nome que, tanto eu como a mãe, lhe chamamos quando a mostarda já cai a jorros pelos nossos narizes) na bancada da recepção, convencido de que o processo de pagamento dos oitenta cêntimos seria célere e sem (mais) complicações.

Mais uma vez, estava enganado.

Após vários suspiros e duas bufas do meu bacorinho mais lindo, a minha carótida começou novamente a pulsar. Como já tinha sido desagradável para a enfermeira, tentei aguentar ao máximo. Não fui capaz. Não sei quanto tempo passou, mas sei que foi demasiado. Virei-me prá menina da recepção – que, curiosamente, já não era a mesma – e informei-a de que, caso fosse demorar muito o processo de pagamento daquela fortuna, me iria embora. Aproveitei para me indignar com a paupérrima qualidade do serviço prestado por aquele hospital e, mais uma vez, recebi o olhar de quem trabalha muito e recebe pouco.

Eu também trabalho muito e recebo pouco. Tu, que estás a ler isto, ou estás desempregado ou trabalhas pouco e recebes muito! Pode ainda dar-se o caso de, simplesmente, estares de folga.

Não interessa.

O que interessa é que o meu filho não trabalha. E também não recebe. Mais importante ainda: não teve culpa de nada do que se passou.

Para a próxima, faço-lhe eu o penso, em casa.

Com tesouras que cortem e gazes que colem.

 

 

Até para a semana.

2 Replies to “Dói-dóis, puns e urgências”

  1. Como habitualmente faço, ia começar a escrever este comentário a elogiar a tua escrita extraordinária, que tem sempre o poder de me entreter e acalentar a alma, como muitos poucos livros ou mesmo atividades o fazem. Mas na verdade, o que me apetece é dizer palavrões e chamar esta gentinha toda à razão! Pobre criança e crianças deste nosso país tão cruel, nas situações onde mais necessitamos de compreensão, atenção e carinho.
    Deixaste-me furiosa e cheia de pena do pequeno Issac. Que valentão! Nós pais, sofremos.

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