Nervosismos

“But I’m a creep, I’m a weirdo

What the hell am I doing here?

I don’t belong here.”

Radiohead – Creep

 

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Às vezes o arco-íris não chega.

A amálgama de cores torna-se numa visão insatisfatória quando adoptamos uma atitude a preto e branco sobre a vida. A questão é que tanto o preto como o branco são cores, e fortes! Como resolver esta encruzilhada?

É fácil viver no caleidoscópio colorido, fazer de conta que não vemos o cinzento primário que demasiadas vezes nos tolhe a razão. Ignorar a complexidade do mundo é cobardia. Ou será inteligência?

Dizem que a ignorância é felicidade, ou algo parecido.

Talvez tenham razão.

Às vezes não pensar não é solução.

Temos que nos agarrar a qualquer coisa, na bolina que nos leva a seu bel-prazer por mares desconhecidos, ansiosamente. Torna-se imperativo tomar uma decisão, mas o que fazer perante o mar? Como se responde à insofismável majestosidade do oceano dos nossos desesperos?

Como navegar por incertezas e lonjuras?

Como viver sem dar importância, sem querer saber?

Como não ansiar por algo melhor?

Dizem que dos fracos não reza a história, mas… o que significa ser forte?

Será, porventura, a ânsia de viver uma fraqueza? Será que os sentimentos nos tornam débeis? E essa debilidade é inconsequente, injustificada ou evitável? Será o coração apenas um músculo a bombear o sangue que irriga o nosso corpo? E a mente, o que fazemos com ela? Como a irrigamos? E a alma, será que existe? Será que o self que tantos filósofos debateram é uma entidade independente do nosso corpo, qual marionetista a puxar os cordelinhos das nossas emoções?

O que dizer de si, o que fazer de mim, o que será de nós?

Será que existem pontos de interrogação suficientes?

Numa sociedade cada vez mais escrutinadora e implacável, onde somos muitas vezes ostracizados apenas por sermos quem somos, qual é o nosso papel? É assustadora, a velocidade a que a vida decorre nos dias de hoje. Os dias começam de noite e acabam de noite. Há cada vez menos contacto humano e cada vez mais (des)socialização cibernética. Temos a comunicação cada vez mais facilitada e a única coisa que singra é o isolamento. Temos regras para seguir, horários para cumprir, roupas para impressionar, barbas para fazer, unhas para pintar. Temos relógios com horas cada vez mais curtas, temos o mesmo tempo que sempre tivemos e, contudo, andamos sempre sem tempo. Queremos dar tempo ao tempo, respirar, parar para observar. Mas não podemos. O tempo não deixa.

É mais um email, mais um projecto e mais um despacho para despachar. São só mais uns minutos na hora extra que ninguém nos paga no trabalho. É só mais esta vez a lamber as botas ao chefe. Depois desta, nunca mais!

São só mais dez minutos na cama. Não, espera aí. Não temos tempo para esses dez minutos. Mais vale pôr o despertador para mais cedo e fingir que preguiçámos mais um pouco.

É só mais uma licenciatura, mais uma pós-graduação e mais um mestrado. É só mais uma tese, mais uma oficina de marketing digital e um curso de Linkedin. É só mais um diploma e meia dúzia de certificados. É só mais uma resma de burocracia. É só mais um licenciado em sociologia a trabalhar na caixa de um supermercado.

É só mais um copo de gim com paneleirices, porque gim tónico não serve. É só mais um carro e uma moto para o fim-de-semana. É só mais uma camisa e uns sapatos com berloques. São só mais uns óculos de sol com aros de madeira e só mais um bafo no cigarro a vapor. São só mais vinte minutinhos a fazer de conta e, não tarda, siga de fumar cigarros a sério na varanda, onde ninguém vê.

É só mais uma série de flexões e dois minutos de prancha. Há que abater os quilos a mais, pois é senso comum que as calças esguias não ficam bem aos anafados. Hoje o treino correu bem, vamos lá almoçar um Big Mac para compensar a perda de calorias – isto não pode ser só dietas!

É só mais uma vista de olhos pelas redes sociais enquanto os nossos filhos brincam sozinhos. É só cuscar mais quatro ou cinco publicações e vá de dormir descansado, a pensar no (muitas vezes falso) sucesso dos outros. Afinal é mais uma hora de Facebook, pois o João Pestana nem vê-lo. Incrédula insónia depois de mais um dia esgotante. Inacreditável e insaciável curiosidade sobre o que anda a debicar a galinha da vizinha.

E por falar na galinha da vizinha… Não.

 

Que se foda a galinha da vizinha!

 

Chegou a hora de parar de olhar por cima do muro para o jardim do lado, ou de espreitar a varanda alheia. A nossa vida tem de ser suficiente. A ninguém, senão a nós próprios, diz respeito a forma como nos fazemos valer ou como desbravamos os dias sem sol, numa luta constante por uma aceitação falsa e ignóbil. Malvada insensatez humana, que nos faz duvidar do nosso valor. Maldita sociedade que só regride em vez de progredir. Malfadadas gentes que trabalham de sol a sol, de cu pró ar, à espera de uma chuva que nunca mais chega.

Estamos no século vinte e um a homossexualidade ainda é um tema, a mudança de sexo ainda é tabu. O racismo e a xenofobia existem; o extremismo de direita tem cada vez mais expressão. O ódio fácil e gratuito nas redes sociais não pára de crescer. Somos cada vez mais os carrascos da diferença; guilhotinamos, sem sequer tentar perceber, algo ou alguém que nos diga que não: o mundo não é como nós achamos que ele deve ser. O pensar diferente costumava ser sinal de inteligência. Nos dias que correm, parece querer tornar-se numa espécie de expressão de anarquia.

Somos cada vez mais burros, nesta era da tecnologia.

Tão burros, que ainda vemos a ansiedade como uma “doença” dos fracos, dos que “não aguentam a pressão”, dos “coitadinhos”. Santa ignorância!

Finalmente, chegámos ao motivo do desabafo desta semana.

Há mais de dez anos que me debato com níveis de ansiedade elevados, sendo que tenho períodos bons e menos bons. No meu caso, a ansiedade manifesta-se sempre de forma diferente e com sintomas tão aleatórios que tenho dificuldade em perceber que, afinal, o meu “problema” se encontra nos nervos. No momento em que escrevo este texto encontro-me em fase de desmame, que acredito irá correr bem. No entanto, depois de terminado mais um processo, a ansiedade não vai desaparecer! Curiosamente, estou numa das melhores fases da minha vida, e sinto-me até realizado em quase todos os aspectos. Tenho uma família maravilhosa e o trabalho não falta. Os amigos são poucos, mas bons (como eu gosto). Apesar de um ligeiro excesso de peso, sinto-me bem fisicamente. Faço exercício com regularidade e estimo a minha massa cinzenta com assiduidade diária.

Ora, eu não sou psicólogo nem psiquiatra, e nem preciso de ser. A ansiedade é um sentimento de inquietação que não tem motivo aparente, sendo que se revela, muitas vezes, através de sintomas físicos. É diferente do medo, devido à subjectividade que implica. Quando temos medo, é de alguma coisa. Quando estamos ansiosos, na maior parte das vezes, não sabemos porquê. A ansiedade é também um mecanismo de defesa do nosso corpo. Todos temos ansiedade. Uns mais, outros menos. A ansiedade pode, e muitas vezes assim acontece, manifestar-se quando estamos em situações que nos são prazerosas ou de felicidade. A ansiedade pode surgir em situações tão simples como agora, que estou a ficar nervoso com a contagem da palavra ansiedade num só parágrafo.

Chalaças à parte…

A ansiedade é um problema premente, e não uma invenção dos novos tempos. É antes uma consequência da modernidade, que não a “inventou”, mas que a potencia. A ansiedade é bem real e já é uma “causa de morte” levada a sério em muitos países. Falta educar. Falta saber. Falta compreender.

Nos últimos dez anos, quantos ídolos já morreram de ansiedade? Ou acham que o Chris Cornell morreu por causa das drogas? E o Heath Ledger? E o Chester Bennington? E os jovens?!

Quem é feliz não se droga. Quem se sente realizado não se fecha dentro de si até à exaustão. Quem não sabe como lidar com vicissitudes, está tramado. Quem não vai todos os dias ao bar da moda para tomar uma cerveja de malte – a boa da mini não traz estatuto social, apenas satisfaz o palato – não pertence. Não tem nome. Não existe.

Lembro-me bem do meu primeiro encontro com a ansiedade. Recordo-me, ainda melhor, de falar sobre o que estava a sentir naquele momento, apesar dos tantos anos que já passaram. Nunca me esquecerei do que o meu melhor amigo me disse, com ar preocupado e com os olhos mais honestos que conheço:

“Quem me dera, meu amigo, que tivesses partido uma perna”.

A mim também, quem me dera!

 

 

Até para a semana.

4 Replies to “Nervosismos”

  1. No sentir existe muita orientação (e sabedoria), quando aprendemos a usar essa incrível bússola interna a nosso favor.
    Essa ansiedade tem o lado positivo de te estar a inspirar novos desejos, que duvido muito que sejam (ou que tenham sido) uma perna partida! Eh eh! 😀
    Torço para que te posiciones na jornada em direção a eles! 😉

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