Joker

joker 3

 

“O Joker de Todd Phillips compraz-se na vitimização miserabilista e Joaquin Phoenix, deixado à solta, farta-se de cabotinar na personagem do vilão de Gotham.”

Eurico Barros (crítico de cinema) dixit.

Eu nunca ouvi falar do Eurico e, muito provavelmente, ele nunca ouviu falar de mim. Pouco importam estes pormenores, mas como não sabia por onde começar este texto, decido fazê-lo por baixo, pois a partir de aqui, será sempre a subir. Na minha opinião sobre o Joker, irei tentar não me tornar numa vítima miserável e, com mais força ainda, não cabotinar no meu próprio pensamento e, pasme-se (!), escrever algo que ninguém percebe.

Joker é uma obra-prima.

Levei algum tempo a perceber isto (cerca de cinco dias), mas acabei por perceber. A primeira qualidade que se atribui a uma obra-prima é, quer se goste ou não, a de ficar por um determinado período de tempo na nossa cabeça, a fazer-nos pensar e, sobretudo, perguntar: mas por que raios?! Um bom exemplo disso, e no qual já me apoiei várias vezes na construção de outros argumentos, é o Urinol de Duschamp. Eu já tive a sorte/azar de ver esta “obra-prima” ao vivo. Não me disse nada e, sinceramente, não era muito diferente dos urinóis da casa de banho do Tate Modern, museu de Londres onde a polémica obra do supracitado se encontra exposta.

Posto isto, eu já fui a Londres há muitos anos, e ainda hoje falo naquele sacana daquele mijadouro, avaliado em não sei quantos milhões. Como se avalia uma obra de arte? E uma obra-prima? Quem detém o ceptro do poder para decidir que uma escultura, um quadro, uma ópera, um livro ou um filme são obras-primas?

Para mim, é muito simples: é quem paga para ver essas obras.

A minha intenção não é, de todo, armar-me em chico-esperto e, assim de repente, começar a ser entendido em arte. Não sou. Mas se há coisa que sou, é um ávido consumidor de cinema, e, curiosamente, de banda desenhada também. Julgo, por isso, ter as condições intelectuais necessárias para dizer, com propriedade, que Joker é, de facto, o Urinol do cinema – vontades de lhe mijar em cima à parte, é uma obra de arte.

Quer se goste, quer não, é o filme sensação do momento. Isso, é indesmentível. Tem batido recordes de bilheteira em vários países (incluindo Portugal), e tudo graças à sua qualidade de conseguir que, ao sair da sala, não sejamos capazes de ficar indiferentes.

Isto acontece, a meu ver, pela mensagem que o filme tenta passar: a de que um vilão é criado pelas circunstâncias que o rodeiam. E não é verdade? Então e os heróis, não surgem pelos mesmos motivos? Será que se o Bruce Wayne tivesse tido a vida de Arthur Fleck (nome do Joker neste filme) se teria transformado na sentinela de Gotham?

Será que se os americanos fossem espertos o Trump teria sido eleito?

Será que os críticos de cinema conseguem dar cinco estrelas a um filme americano, ou só o que se faz na europa de leste é que é bom e profundo e poético?

Será que os ditos “filmes bê-dê” não podem ter a mesma densidade narrativa, a mesma força poética e fazer passar a mesma ideia ou mensagem dos “filmes a sério”? Ah, acreditem! Este Joker é um filme a sério! De bê-dê tem muito pouco. Talvez pertença a um novo género, o dos “filmes bê-dê a sério”. Mas… espera aí. Então o Nolan não tinha já criado esse género com a trilogia do Cavaleiro das Trevas?

Pois.

Curiosamente, ou não, o Todd Phillips não é o Christopher Nolan. Este último, um dos meus realizadores favoritos, há uns bons anos que goza do “estatuto Scorcese”: Tudo o que faz é bom. Isto é uma quase-verdade. Já Phillips é apenas conhecido pela trilogia da “Ressaca” que, a meu ver, poderia ter-se ficado pelo primeiro filme. No entanto, é certo e sabido que não é fácil fazer comédia (ou qualquer coisa que seja subjectiva). Fazer as pessoas rir será sempre, quanto a mim, a melhor qualidade de qualquer artista – tendo em conta a premissa de que rir, para além de ser o melhor remédio, é a sensação que mais se aproximará da felicidade.

Para além disso, contar uma boa história não é fácil. E contar uma boa história que tem como base a nossa realidade é ainda menos fácil! E contar uma boa história que tem como base a nossa realidade e ainda por cima num universo que muitas vezes se rotula como “infantil” é ainda menos fácil! Sim, porque no século vinte e um muita gente ainda acha que a bê-dê é para crianças. Experimentem pegar numa (qualquer) bê-dê do Frank Miller na livraria mais próxima e logo me dizem se querem que o vosso catraio a leia.

Assim, e para voltarmos ao que interessa, será normal a facilidade com que ignoramos a priori uma coisa que desconhecemos? Será que uma qualquer obra de arte, tenha ela a forma que tiver, pode ser considerada menos válida ou menos “artística” por pertencer a um nicho? Não me parece.

Segundo alguns “entendidos”, um dos grandes problemas deste filme foi ter sido comparado, logo à partida, com clássicos como Taxi Driver. E eu pergunto, qual é o problema? O De Niro e o Scorcese vivem nalguma espécie de redoma que, se os compararmos a outros, começam a tremer no seu altar de grandiosidade, que nem um Santo António prestes a deixar cair o menino? Por favor! O Joker é muito comparável ao menino dos olhos do Scorcese, e pelos melhores motivos: é cru, é sincero e visceral. É uma história que incomoda, que põe o dedo na ferida, é um retrato de uma sociedade que ostraciza os pequenos e protege os grandes. É uma obra de uma mestria técnica ímpar e com uma banda sonora arrebatadora, é uma obra onde o protagonista se vê a braços com a realidade, impotente e sem qualquer influência sobre a mesma, deixando-se lentamente enlouquecer e… não posso dizer mais sob pena de cair nos desagradáveis spoilers.

 

São ambos obras-primas.

 

Cheguei às mil palavras deste texto e nem sequer falei ainda do Joaquin Phoenix. Nem vou fazê-lo, sob pena de cair na redundância que já se tornou elogiar actores como ele. Há poucos, muito poucos. Arrisco-me até a dizer que talvez não haja nenhum. Um dia, caso os nossos caminhos se cruzem, vou agradecer-lhe os nervos que me fez sentir no Gladiador e a vontade que me deu de o abraçar por ter conseguido fazer aquilo que poucos se atreveriam a fazer: tentar superar a actuação de Heath Ledger. Fê-lo com distinção, qual comboio sem travões a desbravar os carris das artes performativas com a graciosidade de uma bailarina russa e a competência dum puto chinês que, aos quatro anos, já toca piano a fazer o pino. Com os pés.

Bolas, acabei por falar nele!

Falava eu há pouco nas pessoas que pagam para ver as obras. No momento em que escrevo este texto, o Joker mantém firme a sua pontuação de nove valores no maior site de cinema do mundo, o IMDB. Já conta com uns “escassos” duzentos mil votos. Estes votos são como os laiques do Facebook, mas para o cinema. O pessoal vai ver um filme e, no final, bota (ou não) um laique na página do filme, sendo que, neste caso, o sistema é uma escala de zero a dez.

Para terminar – porque tenho de fazê-lo e não porque me apeteça, pois na verdade estava capaz de fazer uma dissertação sobre esta película – não podia deixar de falar numa das minhas bê-dês favoritas. A Piada Mortal, escrita pelo genial Alan Moore, é para muitos fãs a melhor banda desenhada do Joker (sim, não é engano: o Joker é muitas vezes a personagem principal). E por muito boas razões. Não pretendo com isto que se tornem apreciadores de quadradinhos, caso não o sejam. Contudo, esta obra acabou por ser adaptada ao grande ecrã, num filme animado de Sam Liu que, apesar de ter o Mark Hamill na voz do arqui-inimigo de Batman, não teve muito sucesso.

No entanto, houve uma frase que me ficou na memória, e que talvez seja das mais citadas online, no mundo dos apreciadores de histórias escrito-desenhadas. O melhor vilão de todos os tempos está a ser perseguido pelo melhor homem-morcego de sempre. No já clássico jogo da apanhada entre os dois, o Joker diz o seguinte ao Batman: “Basta um dia mau para te tornares como eu”.

Por muito que me custe (e a vós também?), o mundo onde hoje vivemos é, eufemisticamente, uma palhaçada. A linha que separa a sanidade da loucura é muito ténue. Joker diz-nos isso da forma mais crua possível. Nesta sociedade sem sentido, por nós criada, este filme é uma lufada de realidade, qual chapada de luva branca na cara da hipocrisia.

 

Em terra de cegos, o Joker é quem ri melhor.

 

Perceberam a piada?

 

Até para semana.

4 Replies to “Joker”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s