Eucléctico

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Sempre me considerei uma pessoa ecléctica.

 

Tão depressa me dá para ler Dan Brown como para estudar Platão. Num instante, ou na mesma lista de músicas, passo do hard rock para a maior lamechice do Michael Bublé. Numa semana apetece-me tirar fotografias e, na semana seguinte, não tirar nada. Há dias em que me apetece passar uma hora ou duas a destruir demónios enquanto o ecrã se enche de sangue e noutros andar aos saltos no mundo colorido do Super Mario. Tenho alturas em que me deixo assoberbar pela nostalgia, e outras em que o futuro não me dá descanso.

Outras coisas há que nunca mudam.

 

Todos os dias penso na minha família – na que está perto e longe e na que já não está. Dia sim, dia sim, amo a minha mulher e os meus filhos, num crescendo constante que muitas vezes leva o meu ritmo cardíaco a valores impróprios para corações moles. Sempre fui um coração mole.

Estou SEMPRE a pensar. A minha cabeça NUNCA pára. É uma constante que me define desde que lembro de ter independência intelectual, desde os primeiros laivos de responsabilidade. Escusado será dizer que, por vezes, a cabeça rebenta. Não no sentido literal, mas quase.

Dia sim, dia não, tenho pensamentos que me definem como uma pessoa positiva e optimista e a noção de que sou um pessimista inveterado e um fazedor de poesias tristes. Não há um dia que passe sem me passar esta confusão. Sou um tipo mal-humorado e bem-disposto.

O roupão sempre foi a minha peça de vestuário favorita.

 

Se me dessem a escolher entre o campo e o mar, escolheria, sem qualquer tipo de hesitação, os dois.

A divisão é uma constante do meu pensamento, ainda que tenha a noção de que multiplicar é mais divertido. E proveitoso, também.

Não há um dia que chegue ao fim sem eu fazer sempre a mesma pergunta:

Que raio andamos cá a fazer?

Passo por fases em que me apetece escrever, e por fases em que não.

Esta última frase justifica a minha ausência das últimas cinco semanas. Podia ter feito muita coisa durante este tempo, incluindo manter-vos a par, a vocês que me orgulham com o tempo que me dispensam, do motivo deste hiato sem precedentes. Contudo, ainda que o meu suposto eclectismo não justifique uma ausência tão prolongada num blogue que supostamente é semanal, a vida sim.

Digamos que tenho andado a braços com a ela (a vida, entenda-se), encarquilhado numa espécie de limbo onde as palavras simplesmente não se encaixam. Com diversidade ou não, há outra coisa que nunca fiz: planear um texto ou forçar um parágrafo. Sempre e quando não me apetece escrever, não o faço. É tão simples como a vontade do vosso dedo que, numa boa parte dos casos, vai passar esta parte do texto à frente e, neste momento, já está a ler o “até para a semana” do costume.

 Sei que estou errado.

 

Desde muito cedo habituei-me a ouvir a frase “escreves tão bem” e toda uma parafernália de variantes que acabam por dizer o mesmo. Demorei muitos anos a tirar as palavras da gaveta, e apenas aos trinta e um anos publiquei o meu primeiro livro. Agora, que já estou a chegar a jovem, vou escrevendo neste blogue que, caso não tenham percebido, ainda não sei por que razão o criei.

Ou talvez saiba, mas não me apetece dizer.

O meu erro reside no facto de saber que nada se faz sem trabalho. De entre tantas coisas que já li na minha vida, uma das frases que se gravou na minha memória reza que “se os escritores vivessem da inspiração, as prateleiras das bibliotecas estariam vazias”. Não consigo precisar quem terá dito isto, mas as aspas salvaguardam a minha falha de memória.

Portanto, e como agora também ando numa de filósofo, serve esta lenga-lenga toda para dizer que, apesar de não poder encarar o blogue como um trabalho (pois isto custa-me dinheiro, e não o contrário), vou tentar manter a regularidade dos textos. Não sei se o vou conseguir, e talvez até venha a descobrir que, afinal, não é isto que me apetece fazer. Mas o não saber, juntamente com o ser difícil, sempre foram das minhas condições favoritas.

Entretanto, e depois de mais de um ano de existência, também me apercebi que ainda não me tinha apresentado em condições. Sendo isto um blogue pessoal, julgo que esta será uma falha grave, ainda que compreensível – nem que seja por eu não gostar muito de falar sobre mim.

Todavia, e nesta fase de mudança em que me encontro, dei por mim a fazer coisas que não costumo fazer e, mais uma vez, a sair da minha zona de conforto. Recentemente, participei numa breve oficina de escrita criativa que, para além de ter sido muito proveitosa (e sobre a qual é provável que volte a falar neste blogue), me fez pensar em coisas nas quais normalmente não penso. Coisas que tinha como adquiridas, e até como fáceis. Coisas como, por exemplo, descrever a minha pessoa num auto-retrato.

A primeira coisa que tive de fazer naquela formação foi desenhar-me, sem olhar a qualidades de traço e sem necessariamente ter de desenhar a minha cara. A ideia era desenhar algo que me representasse. Não sei se os meus colegas tiveram a mesma dificuldade que eu, pois no tempo que me foi dado, embrenhei-me de tal forma que não consegui prestar atenção a mais nada. Uma coisa que soava tão simples, e eu a sentir-me completamente desamparado, sem saber o que rabiscar! É no mínimo curiosa a dificuldade que tive em auto-representar-me.

No final, acabei por escrever um par de pontos e um parêntese deitado:

🙂

Quando chegou a minha vez e tive de explicar o que tinha desenhado, apenas consegui descrever o sorriso que havia feito e justificar, dizendo que é uma coisa que tenho de fazer mais vezes: sorrir!

Podia ter pensado em tantas coisas, mas foi ali que fui parar. Escusado será dizer que não sei porquê, pois até acredito que estou a passar uma das melhores fases da minha vida. Mas enfim, e como dizia o outro: costumava ser indeciso, agora não tenho a certeza.

Nos meus quase quarenta anos, o meu olhar sobre o que me rodeia sempre se pautou pela incerteza. Sempre tive medo de voar, de sítios altos e de lugares escuros. Nunca gostei de velocidades. Por outras palavras, sempre fui um medricas.

No entanto, no que toca a sentimentos, sempre fui um verdadeiro Rambo. Ou pelo menos gosto de pensar que sim. Desde muito novo que o sonho rege grandes partes da minha vida, sendo esse sonho, claramente, a felicidade materializada: a minha e a dos que me são queridos. No meio do meu sonhar, por vezes esqueço-me de que, na maior parte das situações, a felicidade encontra-se nas pequenas coisas. Ultimamente tenho tentado, também, desfrutar um pouco mais desses pequenos prazeres, e não andar sempre preocupado com o dia de amanhã.

Edgar Allan Poe dizia que “os que sonham acordados têm conhecimento de mil coisas que escapam aos que só sonham adormecidos”.

Se por acaso passarem por mim na rua e não vos cumprimentar, já sabem, é porque vou a sonhar.

 

Até para a semana.

4 Replies to “Eucléctico”

  1. Não li todos os seus “desabafos escritos”, mas já li alguns e desses alguns identifico-me sempre com quase tudo o que escreve, incluindo a forma despretensiosa como escreve, as palavras que utiliza, sempre escritas num fluir naturalmente sentido da tecla.

    Lengalenga é uma das muitas palavras que também utilizo, após uma looooooonga dissertação sobre qualquer tema que se me assola no momento. Nada do que escrevo é pensado antecipadamente. Ou sai o que tiver de sair agora ou, então, nunca. Estou a “vê-lo” assim, também.

    Depois de ler este seu encantador, por ser tão sentido, texto/desabafo, também acho que sou uma eclética, sobretudo no que concerne sentimentos e emoções. Ser eclético(a) é, afinal, saborear o sal e a pimenta da vida.

    Não bastando isto, também sou tradutora.

    Pergunta: “what are the odds?” 😉

    Bem haja. :*

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  2. Rui, não sei se servirá de consolo, ou se vai sentir desilusão, mas devo dizer-te que não és raro, essa dualidade é comum a todos os mortais sensíveis, num mundo dominado pela razão e não pelos sentimentos. Não saberia escrever assim, mas revejo-me em grande parte dessas sentidas frases! Bem haja quem sonha acordado e com o sonho comanda a vida!
    Grata pela partilha. Beijinhos

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    1. A razão também pertence aos mortais, e os sensíveis são uma raridade. Portanto discordo (mas de forma razoável)! Obrigado pelas palavras, Ana. Beijinhos

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  3. Muito obrigada, por mais um vez, nos permitires ler os teus pensamentos e sentimentos. Sinto-me uma privilegiada!
    Apetece-me pedir-te para continuares e por muito tempo, mas seria egoísta da minha parte, porque não quero estar sempre a interromper-te. Bons sonhos… acordado 😉

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