O meu amigo Quentin

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Sempre fui fã do Quentin, desde a altura em que recitar versículos da Bíblia – ainda que adaptados para terem mais impacto – era cool. O Pulp Fiction não foi o seu primeiro filme, mas foi o primeiro que eu vi, e desde então nunca mais fui o mesmo. Sempre me fascinou a forma como alguém consegue escrever filmes que, de uma forma ou de outra, nos marcam. E não são muitos, os que o conseguem.

O Quentin, excepto o tiro no pé que foi o Os Oito Odiados (e que mesmo assim não é mau), já conseguiu fazer isso oito vezes. E o mais impressionante é que, a cada vez, reinventa a roda.

Ora, como sabem, o Quentin já realizou nove películas. Portanto, e como sei que estão a prestar atenção, sim: o Era Uma Vez em Hollywood é mais um “desses” filmes.

Eu não tenho pretensões de crítico de cinema. Já as tive, na altura em que a revista Premiere era publicada em Portugal, e em que o Nuno Markl e o Rui Pedro Tendinha falavam de cinema na Sic Radical. Confesso que sempre gostei mais do Markl, principalmente por nunca ter usado (pelo menos que eu saiba) a palavra pastiche. Foram várias as “críticas” de cinema que escrevi e enviei – por correio e em papel de verdade, daquele que cheira – para a revista, sempre na esperança de ver um texto meu publicado.

Mas enfim, eu não usava a palavra pastiche, e estou seguro de que foi essa a razão de nunca terem publicado uma “crítica” minha. Teria sido giro ter guardado aqueles textos, não tinha? Pois tinha! Mas não guardei.

 

Adiante com o Quentin.

 

Não fosse o Pulp Fiction a obra-prima indiscutível que é, e esta nova aventura cinematográfica do Quentin teria ascendido, com bastante facilidade, ao lugar de excelsa obra-mestra de alguém que, a meu ver, nos transporta para dentro da tela como ninguém. Não, não fumei nada. E também não tenho sono, estou bem acordado!

Acho sinceramente que a magia dos filmes do Quentin reside nisso mesmo: no transportar o espectador para dentro do filme. Não sei se são os planos, os longos diálogos ou a sempre fantástica banda sonora, mas há em TODOS os seus filmes algo que nos faz bater o pé, sorrir, virar a cara ou, simplesmente abrir a boca (sem ser para mordiscar mais uma mão cheia de pipocas). Se isso não é estar “dentro” do filme, “viver” o filme, então não sei o que será. Se isso não é cinema…

Na minha opinião, que vale o que vale, não foram muitos os realizadores que conseguiram esse feito. E tudo isto, atenção, sem (quase) nunca cair nos clichés da indústria americana, ao mesmo tempo que a critica subtilmente, e a elogia descaradamente! Afinal, todos temos qualidades e defeitos. E que deliciosa é, a forma acutilante e incisiva como o Quentin, há mais de vinte anos, desfaz e refaz todos os mitos de Hollywood. E ainda por cima fá-lo à SUA maneira, que acaba por ser a nossa.

O que quero dizer com isto é que na obra do Quentin não existe o meio-termo. Ou se gosta ou não se gosta. Não é tipo o Spielberg (para dar um exemplo universal), que tantos clássicos realizou, mas que também se deixou levar na onda e chegou mesmo a roçar, por vezes, o Bruckheimer (não tenho nada contra os filmes de tiros e pancadria da grossa, atenção).

O cinema é, acima de tudo, entretenimento. Os filmes de acção existem para isso mesmo, tal como as comédias. E quem não gostou do Top Gun, ou do Beverly Hills Cop, que atire a primeira pipoca!

O que o Quentin consegue fazer é juntar os géneros todos e misturá-los numa liquidificadora cinematográfica, sempre para deleite das nossas papilas gustativas. Sai um smoothie de Tarantino, oh faz favor!

 

Hoje, e pela primeira vez, vi-me sozinho numa sala de cinema. É triste, mas não muito, dada a hora que era e o mês em que estamos. De qualquer forma, e para voltar ao que quero dizer, a sala podia estar cheia, que eu não teria notado. Precisamente pelo que já disse: durante todos os cento e sessenta minutos que dura o filme, eu estive lá: dentro da tela.

Andei em carros clássicos por Hollywood Boulevard, assisti a gravações de westerns in loco, caminhei de passo estugado atrás da Margot Robbie sempre a tentar olhar para cima, fartei-me de rir com as saídas do Di Caprio, dancei e saracoteei-me todo ao som da banda sonora, fiquei com vontade de me esforçar ainda mais no ginásio depois de ver o Brad tirar a t-shirt…

Delirei, pasmei, gargalhei e deixei-me levar, qual hippie fora de tempo, nesta homenagem que o Quentin fez ao cinema todo. Hollywood não é o cinema todo, mas Era Uma Vez em Hollywood, é.

E o resto da sua obra também! O Quentin já é um realizador de culto há muitos anos. Conseguiu chegar a esse estatuto com poucos filmes. Este ano, em Cannes, confirmou outro estatuto que eu já lhe atribuía: o de lenda do cinema, com a maior ovação de sempre daquele festival. Se não sabiam, aqui fica a curiosidade: aquando do final deste filme, o Quentin (e restante elenco, claro) foram aplaudidos, de pé, durante SETE minutos.

Faça um exercício, caro leitor, e ponha um relógio a contar esse tempo.

Já está?

Quanto tempo passou até lhe começarem a doer as palmas das mãos?

 

 

Até para a semana.

_______________________

P.S. – Se gostam de cinema, vão ver! Este é daqueles que vão ficar para a história. Agora, só falta o Brad ganhar o Óscar, porque se o Quentin não o ganhar, não sei não!

P.P.S. – É muito complicado escrever sobre um filme e evitar spoilers, por isso não me pude alongar como teria gostado de.

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