À tua espera

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Minha querida,

Escrevo-te estas palavras antes do nosso encontro, pois receio que algo possa correr mal… Assim, e por crer que desta forma me apresentarei perante ti mais confiante, deixo aqui o desabafo por escrito, não vá alguém tecê-las.

Houve tantas coisas que não te disse, nas nossas conversas.

Bem-dito o dia em que o meu filho foi lá a casa e de lá não saiu até eu ter a Internet montada, ou ligada, ou lá como se diz. Não fosse isso, e as nossas longas parlamentações não teriam existido e, por conseguinte, neste momento não estaria aqui à tua espera, neste banco de jardim.

Se me dissessem que isto ia acontecer, não acreditaria. Vesti a minha melhor camisa, não sem antes dar cabo dela com o ferro, que em vez de a engomar a deixou mais hirta que um soldado raso em dia de vistoria à caserna. Aparei a barba e engraxei os sapatos. Mandei a solidão à fava e respirei fundo umas vinte vezes, antes de sair de casa.

Depois, quando já estava cá fora, tive de voltar para dentro, pois tinha-me esquecido das duas borrifadelas de Old Spice que, como sabes, me acompanham sempre quando saio para a rua.

 

O dia está bonito e apresenta-se perante mim com uma agradável brisa que convida à conversa. Enquanto caminho até ao jardim, observo a rua por cima das hastes dos óculos, à procura de alguma cara conhecida. Afinal, ainda falta algum tempo para o nosso encontro, e apeteceu-me sair mais cedo. Sei que tenho o conforto do meu banco de jardim à espera. Sento-me sempre naquele, pois é o que os pombos menos gostam. É também o que tem a melhor vista para o resto do jardim. É ainda onde se ouve mais o cantar dos passarinhos e menos o rufar dos motores.

Não passei por ninguém, e teria cumprimentado o Zé da Faina, mas como sabes teve de fechar a peixaria. Já ninguém vem à baixa comprar peixe. O Amândio do Café Farense também já se reformou, tal não foi o desgosto que teve, ao saber que já não tinha a quem servir uma bica com meia dose de novidades, ou um medronho para acompanhar a solidão das tardes de quem se levantou durante a noite para sustentar a modesta vida. Nos últimos anos, o café esvaziou-se de pessoas e encheu-se de correntes de ar, que trouxeram o desgosto de uma vida ao Amândio, que tanta falta fazia, à nossa rua.

Eu gostava de te fazer um relato mais alegre, mas a realidade não me deixa.

 

Não foi por acaso que começámos a falar pelo computador! A necessidade aguça o engenho e, apesar das minhas dúvidas e de acreditar que um burro velho como eu não aprende truques novos, lá fui para o curso de informática para pessoas experientes. E ainda bem, pois caso contrário nunca te teria conhecido. Curiosamente, este curso para a terceira idade foi dado no Instituto Português da Juventude. Não sei se já tinha comentado contigo esta pequena curiosidade. Logo te pergunto, quando finalmente nos encontrarmos. Afinal, tempo será coisa que não nos vai faltar.

Por falar em tempo, nem me apercebi da quantidade dele que passou e, agora que olho para o relógio, reparo que estás atrasada. Decerto terás algum motivo para ainda não teres chegado, e confesso que começo a ficar preocupado. Afinal, tínhamos combinado há duas horas, e não me pareces ser o tipo de pessoa que deixaria tanto tempo passar sem avisar.

Coloco o ramo de crisântemos que te trouxe no banco, com muito cuidado para não se desmanchar. Trouxe-te um de cada cor que havia, na incerteza de não saber a cor que mais te agrada. É o problema de haver tanta escolha. Houvesse crisântemos vermelhos apenas, e que escolha teria eu? Ao sair da florista, consegui sentir o sorriso da Clotilde a fazer-me cócegas no pescoço. Ela sabe para quem são as flores.

Enfim. O ramo já está deitado no banco do jardim e eu já deitei a mão à algibeira para de lá tirar o telemóvel que os meus filhos me deram pelo Natal. Apesar do pouco uso, achei que talvez tivesses desistido e decidi verificar. Fiquei na mesma. Nem chamada, nem mensagem, nem notificação da Internet.

Abri a aplicação que usamos para conversar. Cada vez que o faço, não consigo deixar de me espantar com as coisas que a tecnologia sabe. Ao carregar na tua fotografia, o telefone diz-me que foste vista pela última vez há coisa de três horas. Não percebo nada disto, nem quero perceber! Mas três horas já te tinha dado tempo de aqui chegares, para nos conhecermos como deve ser.

Sabes, desde que perdi a minha mulher que não tenho grandes esperanças de nada, nem mantenho ânsias infundadas. A verdade é que não gosto de estar sozinho – haverá alguém? Tento não me preocupar demasiado e, sinceramente, sinto-me grato por te ter encontrado. Afinal, fazes-me companhia, e gosto de pensar que eu a ti. A nossa amizade, apesar de construída apenas com palavras, tem vindo a revelar-se uma lufada de ar fresco na minha vida, que há alguns anos já havia perdido qualquer laivo de frescura.

Achei que devia esperar mais um pouco, não desistir.

 

Depois deste tempo todo, não me parece que fosses faltar ao nosso encontro. Afinal, há tanto tempo que falávamos disto! Será que, no meio dos meus nervos, me esqueci de que também tu poderás estar nervosa? Será que desististe à última da hora? Será que foi tudo um sonho? Já não tenho a certeza de nada.

Passaram quatro horas da hora marcada, e o telefone nada, e tu nada. Até os pássaros se calaram, com o calor da hora da sesta. Nem me dei conta de que não almocei, e parece que o meu estômago também não, pois não o ouço queixar-se. Na verdade, não ouço nada. E queria tanto ouvir alguma coisa. Nem que fosse o telefone a tocar, e que a chamada fosse tua! Ou melhor ainda: que me aparecesses à frente e pudéssemos retomar a nossa amizade.

Mas não.

 

Apesar de não ter pressa, parece-me anormal o teu silêncio. Independentemente do motivo, e como deves calcular, não vou passar aqui o resto do dia. Não é que tenha algo melhor para fazer, mas quatro horas é mesmo demasiado. Vou para casa e por lá ficarei, à espera que o telefone toque, ou que o computador faça plim.

Conforme me levanto, o telemóvel começa a tocar. Mas não reconheço o número. Quero lá saber! Carrego no botão verde.

– Estou sim? É o senhor Ninguém? – Perguntam-me do outro lado.

– Sim, fala o próprio. – Respondi com um nó na garganta.

 

 

– Houve um acidente, e este telemóvel tem-no a si como contacto de emergência.

 


Até para a semana.

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