A primeira Primavera

 

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Imagem sujeita a direitos de autor.

 

Tudo começou com um inocente juntar de mãos.

Apesar de não conseguir controlar o suor das mãos, que mais parecem uma torneira aberta quando fico nervoso, optei pela coragem e juntei, o mais suavemente que consegui, a minha mão à tua. Não disseste que não. Também não comentaste o suor, que duvido não teres sentido. Talvez tenhas achado piada, ou talvez te tenha feito impressão. Algum dia saberei o que sentiste.

Ainda me lembro daquele dia, lá na escola. Aquele em que passaste por mim pela primeira vez, com os teus caracóis a prometerem-me noites sem dormir. Nesse dia não tive a coragem de hoje, e quando os nossos olhos se cruzaram, levei uma tal chapada de vergonha que tive de virar a cara imediatamente. Quando finalmente decidi voltar a olhar, pois não podia acreditar em tamanha beleza, já tinhas passado. Fiquei com pena, pois a distância nem me deixou inspirar um pouco do teu cheiro, que hoje confirmo ser de uma flor que desconheço, mas que de certeza é a que melhor cheira, naquele jardim onde os tolos se apaixonam.

Os dias foram passando e, durante uns tempos, nunca mais te vi. Não sei o que aconteceu, e não tinha como saber. As aulas já tinham começado e a minha turma estava completa. Fiquei descoroçoado, mas a minha teimosia sai sempre triunfal, e de qualquer forma não ia desistir de uma coisa que nem sequer havia começado. Ainda assim, o que me restava fazer, senão esperar? Em situações em que não há nada a fazer vejo-me obrigado a não fazer nada.

E isso irrita-me!

Assim fiquei a contar os dias, à espera de algo que não sabia bem o que era. Passei horas a olhar para o tecto do meu quarto, a tentar perceber por que raios não conseguia livrar-me daquela imagem, tão fugaz como duradoura. Até os meus pais perceberam que eu estava diferente, que havia algo a incomodar-me, que já nem na consola pegava. Passei tardes inteiras e noites sem fim deitado na cama, ora a ler livros de aventuras ora a tentar encontrar um caminho a olhar para cima. Que tonto fui, agora que penso nisso. A minha janela é bem grande, e até consigo ouvir o cantar dos pássaros lá fora. Talvez bastasse debruçar-me sobre o parapeito e, quem sabe, veria os teus caracóis a acariciar o vento, lá em baixo, em toda a rua.

Até que perdi a noção do tempo, e perdi também a vontade de esperar. Deixei-me derrotar pela esperança de voltar a ver-te. Sucumbi ao desespero de já nem sequer saber se realmente existias, e se aquele momento tinha mesmo acontecido. Cheguei ao ponto a que nunca chego, pois a minha teimosia ganha sempre. Ou ganhava.

Vais ver, quando menos esperares, ela passa por ti novamente. Quando acontecer, não vires a cara e, sobretudo, não te esqueças do mais importante: vai falar com ela!

A minha Mãe tem sempre solução para tudo, menos para as minhas mãos suadas.

E aconteceu mesmo.

Naquele dia, estava eu meio acordado na aula de história, quando tu entraste de rompante pela sala, qual furacão de vida, qual força da natureza, qual menina de caracóis castanhos e olhos da cor do Amor. O facto de estares um semestre atrasada não parecia incomodar-te, tal não foi a leveza com que deslizaste para a tua carteira, sem sequer reparares em mim. Parvo fui eu, quando pensei que a filha da Primavera olharia para mim assim, só porque sim.

Há coisas na vida que têm de ser conquistadas. Não fiques à espera que a Primavera chegue. Sai para a rua e abraça aquilo que tens, aproveita a tua juventude. A Primavera, se assim o entender, dar-te-á as cores para pintares a tela da tua felicidade.

A minha Mãe, outra vez. E eu que não paro de suar.

A aula acabou e o momento da verdade tinha chegado. Parar para pensar estava fora de questão. Depois de tudo o que passei só havia uma coisa a fazer: seguir o conselho da minha Mãe e ir falar com ela. Com os escassos dez minutos do intervalo, não tinha tempo a perder. Estava resolvido. Abri a algibeira da coragem e de lá saquei a quantidade necessária para a missão que tinha em mãos. Escusado será dizer que fiquei com os bolsos vazios. Mas enfim, arrepiei caminho, com a certeza de que aqueles caracóis não me iriam deixar à sua frente sem saber o que dizer.

Claro está, pasme-se! Foi isso mesmo que aconteceu. Chegado que me vi à frente da Primavera, dei por mim a fazer uma força hercúlea para tentar falar, mas não havia pio que me saísse pela boca. Ela era toda flores e campos verdejantes, amendoeiras em flor e jardins com lagos de nenúfares, bosques escondidos e pássaros a cantar melodias de vida. Ela era toda bela, e eu todo pasmo. Ela sorriu, e eu engasguei-me. Finalmente, foi ela que começou a falar comigo, cheia de confiança, e sempre de sorriso matreiro, como quem me julga sem me julgar, como quem percebe que, no meio da minha tropelia, estava um rapaz perdido, à procura da Primavera.

Hoje, por fim, demos as mãos. Ou melhor, juntámos as mãos.

Agora, já a Primavera passou e chegámos ao Verão. Ela continua igualmente bonita, mas emana sombras de luz mais quentes. Fomos dar um passeio ribeirinho, talvez olhar para o horizonte e pensar em nada.

Sentados a conversar – sempre de mãos juntas -, ela transmitia-me confiança, e eu, apesar da minha coragem descartável, apercebi-me de que não tinha nada a temer. Estava de mãos juntas com a Primavera, a olhar a ria numa tarde de Verão. Todavia, e mais uma vez, não consegui fazer nada senão admirá-la em todo o seu esplendor, com o sol a fazer-lhe carícias de luz nos caracóis impossíveis.

Ela beijou-me. As minhas mãos pararam de suar.

 

Até para a semana!

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