A que horas vamos ao café?

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Esta semana, e curiosamente no mesmo dia, houve duas situações que me deram que pensar. A primeira, numa troca de mensagens com uma professora, que dá a entender não se sentir confortável com o envio de parabéns “digitais” e que as ways of the past se estão, lentamente, a perder. A segunda passou-se no último filme que vi, em que o Johnny Depp faz de um professor universitário (de Letras, obviamente!) que descobre ter cancro e, na melhor das hipóteses, um ano de vida. Não me vou alongar sobre o filme, até porque não quero cair nalgum spoiler involuntário, mas houve uma parte que me tocou especialmente, e que me fez pensar não só na sua mensagem, como na relação directa com a conversa que havia tido horas antes, com a minha professora.

Num discurso dirigido aos alunos, e numa espécie de remate final, a personagem de Depp diz o seguinte:

 

In each and every moment we’re composing stories of our lives, let’s aim to make it a meaningful read… or at least an interesting one.

 

Decidi trazer-vos a citação original, pois a tradução tem muito que se lhe diga. No entanto, arrisco aqui a minha, pois o blogue é meu, e eu faço o que me apetece! A saber:

 

A cada momento que passa compomos as histórias das nossas vidas. Que estas sejam uma leitura com significado ou, no mínimo, interessante.

 

Posto isto, tenho ainda de falar de outra troca de mensagens que tive. Desta feita, com um amigo de longa data, e uns dias antes dos eventos que já descrevi. O tema da conversa pouco importa, mas a forma como acabou assenta que nem uma luva no argumento que pretendo construir. No final do nosso chat, ficámos de marcar novo encontro. Eu, como costumo fazer – tal não é o hábito – perguntei-lhe se podia ser por mensagem (WhatsApp). Ele respondeu afirmativamente, mas fazendo jus à sua mordaz e acutilante ironia, ainda acrescentou que podíamos perder a cabeça e usar “um instrumento arcaico e esquecido pelos comuns mortais… o telefone”.

Agora que já escrevi a maior introdução de um texto meu até à data, resta saber o porquê de toda esta maçada pseudo-filosófica. Não vou cair no cliché de falar mal (nem bem) das redes sociais. Também não vou falar das evoluções tecnológicas dos últimos vinte anos. E também não vou falar dos meus filhos (apesar de me apetecer muito).

Vou falar de café e de telefones. Por essa ordem.

Há vinte anos era normal ir ao café. Lembro-me bem de começar a ter esse hábito, corria o ano de mil novecentos e troca o passo. Eu era jovem e tinha a mania que era adulto. E é isso que os jovens que têm a mania fazem: comportam-se como se fossem algo que não são. Eu não era diferente dos outros, e portanto a ida ao café tornou-se uma rotina natural.

Curiosamente, a ida ao café era algo que não carecia de combinações prévias. Não é que, de vez em quando, eu não ligasse para casa de um amigo (sim, houve tempos em que os telemóveis não existiam), para saber se ele ou ela queriam ir tomar um café; isso acontecia principalmente quando queria falar com alguém em específico e, por conseguinte, ter a certeza de que essa pessoa iria cumprir a rotina de ir ao café nesse dia. Contudo, o normal era simplesmente “ir”. Alguém haveria de lá estar. E nos raros casos em que não estava ninguém, não havia qualquer problema, pois não me faltavam coisas para fazer.

Podia falar com o dono do bar, jogar Street Fighter na arcada, ler o jornal, olhar para a parede ou, se estivesse especialmente aborrecido, olhar pela janela, para ver quem passava. Na altura, as pessoas sabiam estar sem fazer nada. Na altura não ter bateria não era um problema. Na altura… acho que já perceberam a ideia.

Eu era de uma cidade pequena, no Alentejo, e a realidade era mais ou menos esta. Não sei como seria na capital, ou em cidades maiores, mas na minha pequena Elvas era assim. As pessoas juntavam-se no café, enchiam as esplanadas ou os balcões e… conversavam! É comum dizer-se que só sentimos falta das coisas quando deixamos de as ter. Os clichés não existem por acaso, e este é mais um bom exemplo disso. Que saudades tenho de falar com pessoas! De estar sentado numa mesa onde só havia copos e cinzeiros, nada de aparelhos electrónicos. Uma mesa onde havia sempre assunto e as únicas idas ao bolso eram para sacar mais um cigarro, ou um rebuçado, ou uma pastilha elástica. Uma mesa que se alargava sempre para acolher aquele amigo que não passava sem a sua sesta e chegava mais tarde. Uma mesa que simbolizava amizade, compadrio, partilha, respeito e tantas outras coisas que na altura tomávamos como adquiridas: porque o eram.

Hoje, as mesas dos cafés estão vazias. Na minha cidade natal, e na cidade onde construí a minha família. É claro que há cafés que fogem à regra, mas mesmo esses conseguem cair na imagem ridícula que é ver uma mesa com quatro pessoas, todas a falarem com os seus telefones. Ainda no outro dia fui a uma sala de jogos, a meio da tarde. As mesas de bilhar estavam todas fechadas. As mesas que não eram de bilhar estavam todas ocupadas. Vi um casal numa conversa animada (com os telefones em cima da mesa). De resto, estava toda a gente a olhar para baixo e a mexer o polegar naquele movimento repetitivo que todos conhecemos tão bem – e não, não eram só putos.

Hoje, é muito raro encontrar alguém que saiba conversar. Mais raro ainda é ter uma boa conversa! É também impossível estar numa mesa com quatro ou mais pessoas em que pelo menos uma não larga o telefone, ou tem de o ligar de cinco em cinco minutos, não vá perder a última selfie de uma pessoa que não vê há não sei quantos anos.

Hoje, e também como me dizia a minha professora, passamos mais tempo com os nossos aparelhos digitais do que com pessoas de carne e osso. No meu caso, pois seria incapaz de ter a arrogância de não me incluir nesta realidade, há pessoas com quem “falo” todas as semanas, mas que há anos que não vejo. Isto, para além de triste, é inacreditável.

Quando foi que substituímos o prazer de ouvir alguém em carne e osso pelo teclado de um telemóvel, ou por uma video-chamada (que ainda bem que existem, pois são uma excelente forma de aproximar famílias que vivem em cidades diferentes). Quando foi que nos começámos a esquecer de ir ao café? Quando foi que trocámos o falar ao telefone pelo WhatsApp? Quando e como é tiveram início as constantes “indignações” nas redes sociais? Quando foi que nos perdemos no meio de nós e deixámos de dar valor ao pensamento, à opinião alheia? Quando foi que nos esquecemos do número de telefone fixo do nosso melhor amigo (eu ainda o sei de cor).

Para terminar, e como mais uma citação só irá trazer valor à minha parca inspiração desta semana, deixo-vos com um excerto de um livro de José Tolentino Mendonça, “O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas”, que diz assim:

 

Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chegamos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso, veemente e efémero. Na verdade, a velocidade com que vivemos impede-nos de viver.

 

No meu caso, sou culpado de tudo o que é dito nesta frase! E a verdade é que não sei quando foi que deixei de ir ao café. Não sei. No entanto, a minha história é escrita todos os dias, e eu quero que o livro da minha vida seja, no mínimo, interessante.

Assim sendo, só me resta perguntar:

 

A que horas vamos ao café?

 

 

Até para a semana!

2 Replies to “A que horas vamos ao café?”

  1. Parabéns!
    Sempre Acutilante!
    Todas as semanas aguardo com expectativa e consegues sempre surpreender!
    Se o café tiver direito a jantar, a cartada e a conversa, perfeito!

    Gostar

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