Sem título

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Noite. A janela está entreaberta, ou semicerrada, consoante olhemos para ela. A ligeira brisa que corre não deixa entrever novidade, não se insinua, não me provoca com promessas de um Amor que teima em não chegar. Estou farto de relações passageiras, de recordações, da solidão, de viver sozinho, de olhar para as paredes e nelas não ver histórias, cor, vida, nada. Não vejo nada nas paredes da minha casa.

A luz amarela da cidade que entra pela minha sala adentro também não traz nada de novo. Vejo as mesmas sombras que ondulam no movimento constante e lânguido da passagem dos carros. E digo as mesmas porque ontem já lá estavam, e antes de ontem também. Debruço-me na janela à procura de qualquer coisa que não sei o que é. A lua não se vê, deve estar escondida. Mas pela cor do céu consigo perceber que está lá, talvez à espreita. A rua não tem ninguém, não se vê vivalma, excepto o esporádico cão de rua à procura do jantar ou da próxima jante onde deixar umas gotas marcadoras de território. A cidade dorme enquanto eu, acordado, a observo. Já deve ser tarde. Talvez deva tentar dormir.

A noite passa como tantas outras, mal dormida. O dia começa sem alterações na rotina. O mesmo som do despertador, o mesmo café, a mesma casa de banho onde lavo a cara de insatisfações passadas e presentes. O mesmo programa na rádio, onde os locutores parecem estar felizes e animam a manhã dos soldadinhos de chumbo que todos os dias saem da caserna para lutar uma guerra que pensam ser sua. A rotina faz bem a algumas pessoas. A mim, não sei bem. Se por um lado a procuro para conseguir prever alguns passos, por outro faz-me lembrar que um dia sonhei uma rotina, mas diferente, melhor, superior a esta? Uma rotina de sorrisos e afagos, de gargalhadas e gritos de fúria ou de prazer, de carícias quentes em noites frias e de beijos molhados em manhãs de Verão. Uma rotina onde o pensar fosse acessório e o sentir fosse protagonista. Uma rotina do Amor.

A dificuldade com que me levanto da cama diz-me que devia fazer mais exercício, tentar extravasar os sentimentos de alguma forma, deitar cá para fora o cansaço do corpo e o excesso de sentimento no coração. Saio para correr. O problema é que por muito exercício que faça, o coração parece nunca estar satisfeito. Corro até à exaustão, até quase deixar de respirar, mas o excesso de ar e o astronómico batimento cardíaco parecem não conseguir saciar o coração. Por algum motivo que escapa ao meu entendimento, o coração precisa de ar sentido, de batimentos extasiados, de sentir o suor do corpo e o enjoo da mente, aquela sensação desenfreada que é precisamente o oposto daquilo que sinto neste momento. Tonturas. Falta-me qualquer coisa que não consigo discernir. Como se o meu sangue não fosse suficiente, qual vampiro sedento do vinho do Amor. Talvez não devesse pensar tanto nas coisas.

Em confidências de amizade, os amigos dizem-me que devia aprender a relaxar, que não devia escrutinar tudo, que não posso estar constantemente a pensar na razão ou no porquê de tudo. Dizem-me que tenho de desabafar, que não posso fechar-me num casulo e alhear-me de tudo e de todos. Que tenho de sair mais, ver pessoas, conversar com elas. Que tenho de tentar esquecer que um dia senti o Amor e que a única razão pela qual me levanto da cama todos os dias é para procurá-lo outra vez. Que tenho de me animar, de me levantar, de viver. Eu vou dizendo que sim, para os descansar, pois sei que gostam de mim. Mas a verdade é que não consigo. Amigos, esses seres que definem o que quer dizer altruísmo, sempre prontos a levarem com a desesperança alheia. Se apenas eu conseguisse ser assim. Mas não, parece que só penso em mim e nos meus problemas. Enquanto estou só, tudo o que importa sou eu. A fome de sentir que tenho torna-me egoísta, não me deixa pensar noutra coisa.

Estou preso, e não vejo nenhuma luz que me oriente, não vejo nada. Procuro uma mão que se me estenda e me puxe para fora deste buraco, mas nada. Não desespero, pois a desesperança é o sangue que flui nas veias dos acabados, e eu ainda tenho muita coisa para fazer. De repente, vejo que, sem me aperceber, estou empoleirado no muro do terraço do meu prédio. Não sei como aqui cheguei, mas rapidamente sinto os níveis de adrenalina a disparar, o coração começa a bater freneticamente e parece que consigo sentir o sangue a correr-me pelas veias. Chego à conclusão de que nunca estive tão vivo, mas não me alheei da tentação de dar um passo em frente e descobrir o que acontece depois do salto. O que há para lá do não estar cá.

Preciso urgentemente de qualquer coisa. Não sei o quê, mas algo tem de acontecer. Um desgosto amoroso não pode durar tanto tempo. Quanto tempo já passou? Chega! Acabou.

Ainda é cedo. Acho que vou até ao bar beber um copo e tentar aclarar as ideias. Talvez devesse telefonar ao meu irmão, ele saberia, sem dúvida, o que fazer. As mulheres sempre foram o seu forte, sempre teve um jeito natural para lidar com elas e não se preocupar demasiado. É disso mesmo que eu preciso, não me preocupar demasiado. Amanhã ligo-lhe, mas por agora: o bar…

 


 

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4 Replies to “Sem título”

  1. Tenho tentado aclarar ideias, mas não está fácil.. Gostava de telefonar ao meu irmão, ele saberia, sem dúvida, o que me dizer. Infelizmente não posso, sabem porquê. “Telefonem-se” sempre que tenham vontade, ou não. Entretanto leiam e voltem a ler, e reler. Adoro ler este Rui Vivas, sempre. Abraço.

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