Retro(in)spectiva

person holding white paper and typewriter
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O texto desta semana, como (quase) todos os outros que já escrevi, não foi preparado. Não tenho esse hábito, e sei que estou errado. Contudo, a espontaneidade de quem não sabe o que a linha seguinte irá dizer é, para mim, uma mais-valia na escrita. A poesia também o é. Tenho tido alguma dificuldade em afastar-me da prosa poética e começar a desbravar caminho por parágrafos mais escorreitos e histórias bem delineadas. A beleza das palavras – são todas belas, à sua maneira – tem-me traído ao longo dos anos, fazendo-me pensar que nunca serei capaz de as juntar sem pensar nelas, sem as articular. Isto de eu não gostar da escrita mecânica não é novo, e não vos vou aborrecer novamente com a mesma conversa. Este parágrafo serve tão-só para validar aquilo que disse na primeira frase.

Introdução feita e desculpas para não escrever um romance (ainda) dadas, vamos ao que interessa.

Durante toda a minha vida sempre adorei que me dissessem que não conseguia fazer isto ou aquilo, ou mesmo que algo era impossível de fazer. Lembro-me, como se fosse hoje, de os meus amigos me dizerem que aquela rapariga não era para mim, e de pouco tempo depois andar com ela de mão dada pela escola, a emanar orgulho. Lembro-me também de me dizerem que o basquetebol não era para mim, pois sempre fui baixinho. Joguei basquete, a nível federado, durante uns bons dez anos: nunca fui excelente, mas a minha pouca altura nunca me apequenou. Aliás, no caso do basquete, sempre me senti um Jordan, e ainda bem que os telefones com câmara só surgiram no novo milénio.

Lembro-me de muitas situações parecidas, mas a história da minha vida – por interessantíssima que possa ser – não cabe toda neste blogue. Penso que com estes dois exemplos já pavimentei o caminho que me levará aonde quero chegar hoje. Mas para garantir que a calçada está toda bem unida e alinhada, devo acrescentar que também me lembro das muitas pessoas que me disseram, já lá vão cinco anos, que eu estava louco. E porquê, perguntar-se-ão os meus caríssimos leitores? Por uma razão muito simples: eu tinha um trabalho no Aeroporto de Faro, no qual era efectivo e, se bem que nada se perspectivava em termos de progressão na carreira, me dava a segurança de um ordenado certinho todos os meses, dos vinte e dois dias de férias e, claro, dos belos subsídios de férias e de Natal. Estava na altura, e como se costuma dizer, dentro da minha zona de conforto, ou bolha de ar, como preferirem.

Mas a minha zona de conforto não era, de todo, confortável. E a minha bolha de ar (para os que preferiram essa analogia) estava, a pouco e pouco, a ficar vazia.

Foi então que, depois de mais uma vez me dizerem que era impossível, eu me despedi, e fiz-me (literalmente) à vida. Os meandros em que tudo isto aconteceu não são para aqui chamados, e é óbvio que só essa história daria um livro bem grosso. O mais curioso pormenor deste início de aventura, é que no dia em que recebi em casa a oficialização de que estava desempregado, a minha companheira (que sempre apoiou a minha decisão), apareceu-me à frente com o meu filho Isaac disfarçado de teste de gravidez. Sei que tive medo, muito medo, nesse dia. Julgo até que chorei, nessa noite. Mas como gosto tanto de impossíveis, e no dia seguinte o sol estava mais radiante do que nunca, engoli o medo, e comecei a lutar por mim, pela minha perspectiva de família. E fui até à praia.

Toda a gente sabe que qualquer luta que se preze começa com um bom banho de sol, e de mar.

Seis anos volvidos e muita coisa aconteceu! A família já está maior, com a chegada do Sebastião, que teima em não dormir. A onda dele é mesmo sorrir, e é o que passa o dia a fazer. Entretanto, comecei a trabalhar (a sério) como tradutor, apesar de não ter qualquer formação na área. Nos últimos dois anos que estive no aeroporto já tinha um cliente grande, que ainda hoje mantenho. Lembro-me bem do primeiro dia em que me sentei no escritório cá de casa e que até então servia para eu jogar computador e guardar livros.

Hoje, o escritório está muito diferente. É funcional e tem uma cadeira que me custou os olhos da cara, mas não me tira as dores nas costas. Foram muitas horas sentado, e ainda são. Há seis anos não sabia nada: como procurar clientes, como vender os meus serviços ou sequer que raio de serviços tinha para vender! Fui aprendendo aos poucos, e como podia. Bati em muitas portas que ainda hoje permanecem fechadas (ainda que em algumas a chave tenha mudado de lado).

Como tinha algum tempo livre, decidi voltar a estudar, e terminar a minha licenciatura, que havia deixado com três cadeiras por fazer. Não me surpreendeu saber que essas três disciplinas tinham passado a ser dezassete! Se fosse fácil, não seria para mim. O primeiro ano correu bem, mas com o nascimento do Isaac e a constante procura de (mais) trabalho, tive de fazer uma pausa na escola, para me concentrar no mais importante. Completei o ano com as notas possíveis e tentei não pensar muito no assunto. Entretanto, fui ganhando experiência – afinal, todas as portas que se fecharam acabaram por abrir uma que outra janela.

Foi em dois mil e dezassete que decidi reinscrever-me na universidade para terminar, de uma vez por todas, o malfadado curso. O primeiro ano correu de feição e fiz uma mão cheia de cadeiras, sempre com boas notas. Mas é claro que tinha de haver mais uma parede, que neste caso tem nome. Mas eu não vou divulgar. Digamos que a pessoa em questão me disse, com todas as letras, que eu à sua cadeira não ia passar. Não sei, é provável que não gostasse de mim. Mas coitado, não sabia do meu gosto por impossíveis.

Para apimentar a coisa, fui falar com a diretora da faculdade. Saquei do meu charme e boa-educação, da minha voz grave e, claro, da minha humildade. Mas não chegou. Foi então que decidi trocar uma cadeira “impossível” por nove cadeiras “possíveis”, e mudei para inglês. Na altura, tendo em conta todos os factores, até fiquei a ganhar. Faria mais dez ou vinte cadeiras, desde que não tivesse de ouvir aquele tipo novamente.

Como uma surpresa nunca vem só, e bem antes de começar o meu último ano lectivo, aparece-me outra vez a minha mulher com um filho em forma de teste de gravidez. Complicado? Nada disso! Com organização, força de vontade e doses industriais de atitude positiva, tudo se faz! E eu fiz, apesar de só contar com a primeira qualidade desta lista.

Os últimos doze meses foram dos melhores da minha vida: Acabei o curso, deixei de fumar, dei as boas-vindas ao meu segundo filho, comecei a fazer legendagem para a empresa que todos querem fazer legendagem, fiz vídeos de jardinagem para o YouTube, traduzi o audioguia para o Museu Picasso de Málaga, trabalhei para uma empresa de venda de motosserras (claramente a minha especialidade), comecei a treinar para perder os dezasseis quilos que ganhei por não fumar (já lá vão dez), tive três vezes vinte valores a três disciplinas diferentes e!

(pausa para respirar)

ainda arranjei tempo para conseguir mais dois grandes clientes que, nos últimos doze meses, não pararam de me enviar trabalho, tirei o livro para crianças que há vinte anos estava na gaveta e agora é um projecto, fiz amizades na escola, dormi no sofá demasiadas vezes, fui elogiado pelo meu trabalho por pessoas que nunca me conheceram, comecei a andar mais de bicicleta, comecei a andar mais a pé, interessei-me por fotografia e já estou a tirar um curso e!

(nova pausa para respirar)

neste momento, como não consigo estar parado, já estou a aprender a mexer em software de tradução (sim, traduzi um documento com duzentas mil palavras em WORD: foram três meses de dor), já fui à minha primeira conferência sobre tradução, onde conheci os podres desta profissão, mas também onde me apercebi que as minhas duas colegas se iriam transformar em amigas (e para a vida, parece-me), participei num encontro de bloggers sem saber bem porquê, mas com a promessa de que, para o ano, lá estarei com mais propriedade, tornei-me (estou seguro disso) num pai melhor e mais presente, e a única coisa que não consegui fazer foi dar a volta ao meu mau-feitio mas, lembrem-se! Não há impossíveis.

A nível profissional, ainda tenho muito por fazer, mas a coisa parece estável e a minha reputação a crescer. Bons indicadores para um futuro a trabalhar com palavras, que sempre foi o meu sonho.

Para terminar, seria hipócrita da minha parte tentar justificar mil e quinhentas palavras a falar de mim. Afinal, isto é um blogue pessoal, e eu sempre fui arrogante. Permitam-me a arrogância de acreditar que mereço o mimo de escrever sobre a minha pessoa, de partilhar convosco a minha aventura. No meio desta recta final, esqueci-me de outra coisa que fiz, e que tenciono nutrir com mais frequência, agora que já não tenho aulas: este sítio, onde vocês me leem.

Caso não tenham percebido, e porque todas as histórias têm uma moral, a desta é muito simples:

Não há impossíveis.

Até para a semana!

4 Replies to “Retro(in)spectiva”

  1. Mais uma vez, só te posso dar os parabéns!
    A forma espontânea como escreves e descreves é deliciosa! Aprecio cada vez mais essa escrita genuína.
    É uma honra e um orgulho ser teu amigo! E sim a paternidade transformou-te num ser humano ainda melhor!
    Quanto ao mau feitio, já dizia o outro, que passou 27 anos preso “tudo é considerado impossível até acontecer”
    Até pra semana

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