O que foi não volta a ser.

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Tenho saudades.
Saudades de quando ficava a olhar para o nada e o tempo passava.
De não precisar de um ecrã quatro capa no bolso das calças.
De pensar que dizer SMS era cool.

Tenho saudades.
Saudades de quando jogava ao berlinde e brincava na rua.
De não ver apenas carros na estrada, de não ser perigoso.
De pensar que iria brincar para sempre.

Tenho saudades.
Saudades de jogar à bola com as mãos e sonhar que era o Jordan.
De pular a vedação da escola que convidava à malandrice.
De pensar que podia ser como o Tom Sawyer.

Tenho saudades.
Saudades de quando falava e as pessoas ouviam, e vice-versa.
De não haver constantemente distracções à frente da nossa atenção.
De pensar que o dom de saber conversar, e ouvir, era normal.

Tenho saudades.
Saudades dos meus amigos de outrora.
De não saber que choraria um dia, por ter saudades deles.
De pensar que a BMX e o skate eram para sempre.

Tenho saudades.
Saudades de ouvir a minha Mãe chamar-me da varanda, já chegava de brincadeira.
De não estar cansado depois de passar um dia inteiro a correr.
De poder correr o dia inteiro, se me apetecesse.

Tenho saudades.
Saudades do pôr-do-sol na vila da minha avó.
De ir ao leite com o meu primo e da raquete de pingue-pongue que o meu avô me fez.
De ficar sentado no muro a ver os carros passar, com o meu melhor amigo.

Tenho saudades.
Saudades do carro desportivo do meu Pai.
De ficar contente por me sentir seguro, apesar de ele cortar sempre as curvas.
De o abraçar, quando me deu a minha primeira consola a cores.

Tenho saudades.
Saudades de a consola ser um entretém passageiro, e não um vício.
De preferir, sempre, conversar ou ler um livro.
De acreditar que o saber não ocupa lugar.

Tenho saudades.
Saudades de ter vagar, de não olhar pró relógio, de não querer saber.
De deixar a vida andar e estar tudo bem.
De pensar que queria mais formas de comunicar.

Tenho saudades.
Saudades da inocência de acreditar que, se lesse muito, um dia saberia tudo.
De deixar de ler durante anos, convencido de que já era suficiente.
De ler, reler e reflectir sobre o que lia, sempre à procura do significado.

Tenho saudades.
Saudades de quando as pessoas falavam mais e discutiam menos.
De não poder ignorar alguém com um polegar para cima.
De pensar que a Internet só traria coisas boas.

Tenho saudades.
De dançarmos todos na sala, sem querermos saber de mais nada.
De aproveitar verdadeiramente um momento, sem ter de o registar.
De pensar que o registo mais importante era aproveitar a vida.

Tenho saudades.
Saudades das noites à volta da televisão a ver o Herman e o Sassaricando.
De sentir o quentinho do braseiro e saber que era feliz.
De não pensar em felicidade. De ser felicidade.

Tenho saudades.
Saudades de me fechar no quarto e ouvir Seattle em altos berros.
De ter mania que era rebelde, e que não fazia mal gravar por cima dos Zeppelin.
De não saber o quão estúpido era.

Tenho saudades.
Saudades da minha própria estupidez.
De não saber nada do que seria, de ser (quase) tudo o que não pensei.
De fazer sentido quando escrevia.

Tenho saudades.
Saudades da poesia da vida a preto e branco.
Da cor que a imaginação dava aos dias mais sombrios.
De tentar ser sempre melhor, e colorir a vida dos outros.

Tenho saudades da minha Mãe.
Saudades da sua presença, de poder ser sempre eu, quando estava com ela.
De não poder sequer tentar ser outra coisa.
Do seu sorriso, e dos impossíveis olhos verde-amêndoa.

Tenho saudades.
Saudades de um tempo que vivi mas do qual não me recordo.
De não saber o que me espera, e não querer saber.
De ser inocente à inevitabilidade da vida, ao seu desfecho.

Tenho saudades.
Saudades de palavras-sentimento, numa quadra qualquer.
De emprestar aquilo que sinto sem me sentir roubado.
De tentar ler sentimentos: mas não perceber nada.

Tenho saudades.
Saudades de pensar que a vida seria diferente.
De acreditar que hoje seria filósofo, ou professor de literatura.
De achar que sem trabalho lá chegaria.

Tenho saudades.
Saudades de um tempo que nunca foi, de um eu que não existe.
De saber esperar, de não ter pressa.
De não viver na interminável roda-viva da tecnologia.

Tenho saudades.
Saudades dos telefones com fios, das amizades à distância.
De namorar debaixo da árvore, de admirar o céu deitado no chão.
Da simplicidade do campo, de ter capacidade de observar.

Tenho saudades demasiadas, sinto falta de coisas tantas.
E no entanto, sou feliz! Quando vejo o que construí.
A família que não troco por nenhum sonho inalcançado.
Tenho saudades deles.
Vou-me embora para casa.

6 Replies to “O que foi não volta a ser.”

  1. Parabéns!
    Com a sensibilidade que é integrante em Si,a vida lhe dará saudades de muito mais!
    O malefício não é ter saudades mas sim não esquecer as memórias das palavras e actos que não deixam saudades!
    Abraço

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  2. Uau!! Lindíssimo… prenche-me ler estes teu bocadinhos de reflexão, partilha e ternura
    Muito obrigada por esta partilha que me sabe tão bem.
    Parabéns, a tua escritra e visão são contagiantes!

    Liked by 1 person

  3. Quem não tem?
    Muito bom, como sempre é um prazer ler o que escreves, como se estivesses a ouvir os nossos pensamentos enquanto registas com sensibilidade apurada! Continua sempre a escrever com o coração.
    Beijinhos

    Liked by 1 person

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