Super-mulher

Esta semana trago-vos um texto um pouco diferente e com mais imagens. A minha ideia, para além de fazer um Elogio da Mulher (e neste caso específico, da minha), é a de tentar construir uma narrativa imagética; levar-vos… não, transportar-vos àquilo que foi, provavelmente, o melhor dia da minha vida – assumindo a premissa de que o melhor dia pode acontecer mais do que uma vez. Posto isto, e sem mais demoras, vou começar por onde todas as histórias começam: pelo início.

O dia de Carnaval começou como tantos outros quando não há jardim-escola, com a família a brincar na sala e os pontuais “fala baixo Isaac que há pessoas a dormir!”. Tudo normal até a Super-mulher vir da casa de banho com um semblante de preocupação, pois tinha sangrado um pouco. Rapidamente se decidiu que a resposta era o hospital, e aquilo que estava a ser uma divertida manhã familiar tornou-se numa apreensiva espera a dois: eu, sempre em contacto (viva a tecnologia!) e o meu filhote, sempre a perguntar “dondistá mamã?”.

Passou-se a manhã e a nossa Super-mulher continuava em testes no hospital, mas tudo apontava para a normalidade, pelo que pai e filho decidimos, por unanimidade, ir dormir a sesta, confiantes de que, quando acordássemos, a mamã já tivesse voltado para casa.

Mas como em todas as grandes histórias… é claro que não foi isso que aconteceu!

Acordei da sesta ainda com o Isaac a roncar que nem um carrinho telecomandado e, ainda um pouco assarapantado, fui ver se tinha notificações no telemóvel. Não só tinha notificações a mais, como tinha a frase “rebentaram as águas” e uma fotografia da minha mulher numa posição que minimiza a dor das contracções e potencia todo o processo que se seguiria: o de dar à luz o meu segundo filho. Tinha também um email com o assunto “Temos UM MILHÃO de euros para si”, mas decidi ignorar. As coisas importantes primeiro.

Passei de assarapantado -pois só esperávamos águas rebentadas dali a duas semanas – para extasiado-contente-quero-ir-ter-contigo numa questão de segundos, mas a partida heróica não era possível, pois os avós ainda se encontravam a caminho, para ficarem a cuidar do Isaac, enquanto eu ia fazer o meu papel: o de estar presente.

Faço agora um pequeno aparte para explicar que a minha mulher optou, desta vez, por um parto natural. Não me vou alongar sobre o assunto, para não me desviar do que interessa, mas muito resumidamente, um parto natural é isso mesmo: natural! Sem fármacos, drogas, ocitocinas e bilirrubinas feitas em laboratório. Ah, e com Doula (Cecile, se estás a ler isto: OBRIGADO!). Os benefícios de um parto natural são imensos, tanto para a mulher, como para o filho.

Antigamente, os partos eram todos naturais. Foi nos anos setenta, se não estou em erro, que a sociedade começou a instrumentalizar o parto e a mudar o seu protagonista. Os médicos passaram a mandar nos partos, em vez das mães. Isto não me faz sentido nenhum, e ainda não consegui perceber o porquê de nunca ter pensado nisso. O que importa é que, a pouco e pouco, o sistema está a mudar, e a mulher começa a ser mais respeitada, como aliás já acontece nos países desenvolvidos. Quem pare é a mulher, e não o médico. Portanto, está na hora de mudar o foco de sítio. E está na hora, também, de começar a contestar certas coisas, como os partos apressados porque o sô tôr tem de ir ver a bola com os amigos. Pronto, já mandei a boca, agora adiante.

Tenho pena de só ter tido duas sessões de pré-parto com a Cecile, pois estava curioso para saber mais. Mas o Sebastião quis vir mais cedo, e quanto a isso nada havia a fazer! De qualquer forma, a minha Super-mulher já tinha tudo preparado, e um plano de parto elaborado ao mais ínfimo pormenor. Obrigado também, já agora, à equipa do HPA, por ter sempre respeitado os desejos da minha mulher e pela forma humana, honesta e profissional com que a trataram (tendo em conta que o plano de parto ainda nem tinha sido aprovado).

Voltando agora à nossa história, chegou a altura da primeira fotografia, na qual vos apresento a personagem principal desta aventura, até agora denominada de Super-mulher, e que eu tenho a sorte de dizer que é “minha”!

Super-mulher em fase de transformação.

Nesta fase de transformação, foste tão forte quanto podias ter sido. E mais ainda. Durante as horas, que foram tantas, em que te agarraste à almofada, a mim, à cama e a tudo o que podias para conseguires aguentar as dores, foste Mulher. E eu, embasbacado, sem saber como te amainar o sofrimento, e a perguntar-me por que raios é o homem o sexo forte? Entretanto, a Cecile fazia as suas massagens maravilhosas, o quarto cheirava bem, a essências naturais, e ouvia-se música. E eu a tentar, o melhor que podia, amainar-te a dor com um pano húmido. O cenário estava pronto para receber o Sebastião.

Foi durante estas horas que a magia começou a acontecer, e que o momento começou a tornar-se especial. Perdoar-me-ás, meu amor, o falar dos teus gritos, mas tenho de fazê-lo, pois caso contrário a história não ficaria completa. Falo de magia porque os teus gritos, apesar de guturais, soavam a luz, prenunciavam a vida que aí vinha, e apesar da dificuldade em ver-te naquele estado e de não saber o que fazer, algo me dizia que estavas bem, que ias aguentar.

E aguentaste mesmo! Foram tantas horas, mas aguentaste! E apenas quando já era visível (até para mim, que nada percebo) que não dava para mais, cedeste. Mas só o fizeste porque tinha de ser. O nosso filho não queria descer, e depois de duas horas com dilatação completa, a única opção foi partir para a tua segunda cesariana. Confesso que senti algum alívio, pois apesar de acreditar em ti, já me estava a custar muito ver-te naquele estado.

Foi então que nos separámos pela primeira vez nesse dia. Tu, a caminho do bloco operatório, e eu também, mas por outro caminho. O tempo que passei a vestir aquela roupa que parece de papel trouxe-me à memória boas recordações. Já ali tinha estado, há coisa de três anos, a vestir a mesma roupa, a preparar-me para algo que não é passível de preparação. A única diferença é que, desta feita, fiz figas para que os médicos cumprissem a sua palavra, como até ali haviam feito. Depois de tudo o que passaste, como mínimo, merecias o melhor.

E foi precisamente o que tiveste. Apesar de não ser no ambiente ideal (quando é que uma sala de operações é ideal?), desta vez tiveste direito a uma tela panorâmica – melhor que as do cinema -, para veres o teu segundo filho nascer. Todas as pessoas presentes foram fantásticas, e a sensação com que fiquei é que queriam mesmo que tu fosses bem tratada, e os teus desejos respeitados. Assim foi, de facto, que aconteceu!

Passados alguns momentos de estar sentado atrás de ti, a segurar-te na cabeça, qual não foi a minha surpresa quando um dos enfermeiros me perguntou se queríamos pôr música. Eu olhei para ti, e não foi preciso responderes. Saquei rapidamente o telemóvel do bolso e pus a tocar a única música possível para aquele momento: o Stairway to Heaven, dos Led Zeppelin. Reconheço que o título não será o ideal, mas a música é. E foi! As lágrimas não tardaram a aparecer, e o nosso filho nasceu ao som da guitarra do Jimmy Page. Há pouco falava em momentos mágicos, lembras-te?

Sebastião, no momento áureo do seu nascimento.

O que dizer desta imagem? Na verdade, não muito. Há coisas indizíveis e há memórias que ficam gravadas na nossa vida, para sempre. Este momento é uma dessas memórias! Penso que foi aqui que um dos enfermeiros (não sei se o mesmo que sugeriu a música), perguntou se queríamos que ele tirasse umas fotografias…

Ainda bem que respondemos que sim!

Falava eu de memórias gravadas. Que tal esta para imprimir duzentas vezes, hein? Falava de também de coisas indizíveis. Acrescento que os ditados existem por um motivo. E sim, uma imagem vale mais…

… que mil palavras. Mas não há palavras, nem imagens, que ilustrem ou que sequer se aproximem de descrever este momento. O teu sorriso, a minha cara de parvo. O nosso filho.

Correu tudo bem, de resto. O Sebastião chorou logo assim que saiu do quentinho, e não tardou até ao pele-com-pele que tinhas pedido. Mas antes, ainda fez chorar o pai. Eu que pensava que depois do Isaac era o homem mais duro do mundo, que não voltaria a não conseguir reter a chuva dos olhos. Que enganado estava. Cortei-lhe o cordão, pus-lhe uma fralda e respondi que não queria ser eu a fazer o esfregaço. A enfermeira olhou para mim com ar de raspanete, mas eu decidi deixar a experiência fazer o seu trabalho. E foi logo a seguir, quando aquele pequeníssimo pedaço de vida já estava bem quentinho e acondicionado numas mantas, que mo passaram para as mãos. Valha-me alguém, que os meus olhos pareciam uma torneira estragada!

Reparei que as enfermeiras fingiram estar ocupadas por uns momentos. Foi, com certeza, um compasso de espera, um sinal de respeito pela minha emoção. Quando me notaram mais recomposto, encaminharam-me na tua direcção. E lá fui eu pelo mesmo caminho que já tinha feito, com as mesmas emoções à flor da pele, entregar-te o nosso segundo filho. Muito obrigado, enfermeiro-que-nem-tive-a-decência-de-perguntar-o-nome, por ter registado este lindo fotograma.

Assim foi que terminou o nascimento do Sebastião. Depois da guerreira que foste, acredito piamente que tiveste o melhor tratamento possível, e que não houve sequer mácula nesta nossa aventura. Tinha chegado a hora de nos separarmos novamente, ainda que por breves momentos. Lembro-me de estar com uma enfermeira numa sala ao lado, com o nosso filhote nos braços, a “fazer tempo”. Curiosamente, não me recordo de nada dos minutos que antecederam o nosso triunfal regresso ao quarto, a não ser o anormal que entrou de rompante por uma porta, olhou para mim em tronco nu e me disse “Oh amigo, não pode aqui estar sem a roupa de papel!”. Eu virei-lhe as costas, a enfermeira piscou-me o olho e disse-me “Não se preocupe, temos de levar com ele todos os dias”. Eu sorri (sorriso que a enfermeira não viu, pois ainda tinha a máscara posta), e deixei-me estar ali, no conforto da pele do meu filho.

Passados os momentos turvos em que a memória me falhou, saíste da sala de operações, com um sorriso do tamanho do mundo, e lá fomos nós para o quarto, começar novamente as nossas vidas.

Entretanto, muitos momentos bonitos já tiveram lugar, entre toda a panóplia de novidades que significa um segundo filho ao nosso cuidado. Mas de longe, e de todos os que ficaram registados, este é o meu favorito:

Se eu não sou um gajo com sorte, não sei quem será.

Se há definição para uma fotografia familiar perfeita, esta não será, pois falto lá eu! Mas que está muito perto de o ser, lá isso está. Esta também é para imprimir duzentas vezes, ou mais.

Entretanto, lembro-me de um poema que escrevi há uns anos, e que não vou colocar aqui para não estragar o ramalhete. De qualquer forma, o verso que me vem à memória foi escrito em jeito de pergunta, e a dúvida que me assolava quando o escrevi, era: “O que me resta sentir?“. Tanta coisa! E muito possivelmente, ainda mais, pois a nossa história ainda agora começou.

Para terminar, e num texto repleto de lembranças, resta-me dizer que espero ter estado à altura daquele dia de Carnaval, em que ninguém nos pregou nenhuma partida. Espero que as minhas palavras (e fotografias, já agora) tenham conseguido descrever o nosso segundo melhor dia das nossas vidas.

Estou certo agora, como julgo nunca ter estado, que o meu caminho, de ora em diante, será feito de sorrisos. Estou seguro, também, de que posso deixar de caminhar sozinho. E mesmo quando tiver de o fazer, será esta imagem o meu horizonte, serão vocês, o meu destino.

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