Lá em casa éramos quatro

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                                                                         O pôr-do-sol lá de casa.

 

Lá em casa éramos quatro, e eu era feliz.

Havia a minha mãe, o meu pai e o meu irmão. Ah! E claro está, eu.

Lá em casa éramos quatro e o tempo passava devagar, aos domingos à tarde. Eu era o mais novo e fui o último membro nascido naquela família que muitos apelidariam de louca. A minha família. Os meus pais gostavam de fazer coisas fora do normal. Eu e o meu irmão não tínhamos a noção de normalidade, portanto não podíamos saber a seca que era ser normal. Os nossos pais loucos nunca deixaram.

Lá em casa éramos quatro, e éramos felizes. Sem pretensões, sem quezílias ou rancores desnecessários e apenas com doses quê bê de visões diferentes, que tanta falta fazem a qualquer amálgama de sangue (as extremamente pontuais brigas com o meu irmão mais velho não contam, pois não?).

Lá em casa éramos tantos que cada um, na sua individualidade, completava o outro. E assim, todos juntos, éramos completos, sem invadirmos o espaço do outro. Também, com personalidades tão fortes, não sei se isso seria possível, sem dar para o torto. Nunca tentámos disfarçar nada e jamais fingimos ser uma pessoa que não éramos, só para agradar a alguém. Não me recordo se foi o meu pai ou a minha mãe que me ensinaram isto. Julgo ter sido o meu pai, mas isso também pouco importa. As recordações que se avivam agora na minha memória, enquanto escrevo estas palavras, dizem-me que a minha família era imperfeitamente perfeita.

Lá em casa éramos quatro, e eu era feliz.

Quando era muito pequenino ainda, tive alguma dificuldade de adaptação às rotinas familiares. Grande parte da culpa deste facto é sem dúvida do meu irmão que, com a natural inveja inerente ao irmão mais velho, levou o seu tempo a perceber que eu não tinha vindo para lhe tirar o lugar, mas sim para lhe fazer companhia. Mas também foi sol de pouca dura, pois apesar da sua personalidade forte, o meu irmão acabou por vergar e, com passinhos de bebé, tornou-se no melhor amigo que eu alguma vez podia desejar (e no pior protector também. Coitado, ninguém tem culpa de ser baixinho).

A nossa casa tinha três andares, e era muito bonita. Tinha espaço suficiente para todos e mais algum, e os meus pais reforçavam sempre a ideia de que eu e o meu irmão éramos uns sortudos. Até piscina tínhamos. Eu, na altura, não achava aquilo nada de especial. Afinal, no nosso bairro, quase todas as casas tinham piscina e algumas pareciam mais prédios do que casas, tal não era o exagero de andares! Enfim, era bonita, dizia eu, e cabíamos todos.

Lá em casa éramos quatro, a casa era bonita, e éramos felizes.

Enquanto escrevo estas memórias, faço um esforço hercúleo para tentar não deixar nada importante de fora. Mas como é possível fazer isso, se as recordações são tantas e tão boas? Ainda nem sequer falei das reuniões familiares, cuja deliciosa confusão de feitios formava um todo disfuncional mas belo, quando observado de fora. Sim, o observador era eu. O meu irmão não podia meter-se comigo, proteger-me e ter pensamentos filosófico-artísticos ao mesmo tempo, não acham? Mas enfim. As reuniões. Eram porreiras, pá!

Eu adorava ter a casa cheia. Adorava estar com os meus avós e tios e, claro, brincar com os meus primos. De uma forma geral, a confusão era boa, e só quando a porta de casa se fechava, depois de despedir o último resistente (normalmente o meu tio) é que a realidade caía no hall de entrada e todos, creio eu, começávamos a contar o tempo até à próxima reunião.

 Lá em casa éramos quatro, e éramos felizes.

E éramos felizes porquê? Porque nunca cedemos a pressões nem a clichés, porque sempre sonhámos que sonhar era possível, porque acreditávamos com todas as nossas forças que se nos mantivéssemos juntos, conseguiríamos ultrapassar qualquer obstáculo. Dou graças a quem de direito por isso, pois hoje sinto que sou um homem melhor e, sempre que visito os meus pais, agradeço-lhes, com humildade e honestidade, a educação que me deram a mim e ao meu irmão. A minha mulher diz-me que sou demasiadamente apegado à minha família. Eu apenas lhe respondo: ainda bem.

Hoje, não sei quantos são lá naquela casa. Não sei sequer se a casa ainda lá está. É provável que sim, mas sem nós, não é a mesma coisa.

Hoje sou feliz na minha casa. Tenho a sorte de viver perto do meu irmão e de poder usufruir da sua companhia sempre que quero. Quando nos juntamos, vamos até à praia e, não fossem os telemóveis, os dias apenas acabariam quando a Lua já estivesse bem lá em cima, a reflectir a nossa felicidade no oceano.

Hoje, ao escrever estas palavras, lembro-me da forma como o meu pai sempre falava da Lua. “Com éle grande!”, costumava dizer. Eu nunca lhe perguntei porquê, e hoje arrependo-me de não o ter feito.

 Hoje, curiosamente, quando reflicto sobre qualquer coisa é sempre de noite e, também curiosamente, a Lua está lá. Talvez seja ela que norteia o meu caminho e eu não saiba. Talvez tenha sido ela a conduzir o meu pai durante a sua vida. Seja como for, olho para ela e pergunto-lhe onde estarão agora, os meus pais.

 

Eu sou o Sebastião. Nasci em Março de 2019 e, como filho mais novo do meu pai, achei que devia dar continuidade à sua escrita, que estava escondida em cadernos e pen-drives fechados a sete-chaves na sua escrivaninha, no escritório onde tantas noites o fui espreitar, sempre à procura das palavras.

__________________________

 

Um pai pode sonhar, não pode? Em Março seremos quatro!

 

Até para a semana.

4 Replies to “Lá em casa éramos quatro”

  1. Muito bonito. Obrigado por me fazer perder cinco minutos para ler esta maravilha. A sua história de infância inchou o meu coração, pois eu também tive a sorte de ter uma infância. Se o seu rebento já estiver neste louco mundo, não o deixe abdicar da infância. E sejam felizes!

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