Noventa e Nove

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Querida Avó,

 

No próximo domingo fazes noventa e nove anos.

Acho que aquela primeira frase está perfeita como está, pelo que retomo a minha missiva num novo parágrafo. Na verdade, a escrita desta carta vem com um ano de adianto, pois só tencionava escrevê-la aquando do teu centenário. Todavia, eu gosto mesmo é de números ímpares; para além disso, noventa e nove soa bastante melhor do que cem, não achas? Mas não te preocupes, que para o ano havemos de assinalar a centena com toda a pompa e circunstância que a efeméride merece, e que tu mereces também. Este ano, nos teus noventa e nove, permite-me a ousadia de assumir que não te importas de passar estas linhas comigo.

Como sabes, comecei a publicar artigos na Internet no ano passado. Julgo que já leste pelo menos um. Como também sabes, sempre gostei de pavonear a doçura de pessoa que és por esse mundo digital afora. O facto de o fazer torna-me numa pessoa muito mais interessante, numa pessoa melhor. Não porque o faça à procura de alguma coisa, mas precisamente pelo contrário. Partilhar-te com o (meu) mundo sempre me deu um grande prazer, e orgulho também!

 Contudo, e como estou certo já deves ter reparado, as nossas conversas têm vindo a desaparecer nos últimos três anos. Com isso, o partilhar-te tem-se tornado mais difícil. Mas convenhamos que o motivo não é, de todo, mau: Agora, sempre que te visito, levo o “besnico” comigo. Escusado será dizer que se torna impossível manter uma conversa com o teu bisneto na sala. No entanto, atrevo-me a afirmar que não te importas. E sim, estou a falar do rio de baba que te corre pelos queixos abaixo quando olhas para ele a brincar, ou quando o ouves chamar-te “Bisa”.

Já passaram uns quantos anos desde que publiquei a nossa primeira fotografia na Internet. Sempre que o quis fazer, nunca te opuseste, e nunca percebi se era por te estares a borrifar, se era por quereres que o teu charme extravasasse as fronteiras do terceiro andar, letra F, da Avenida da Piedade. Como deves calcular, não revelo mais da morada. Imagina bem a debandada, a investida, a avalanche de admiradores que iriam tocar à tua porta!

Agora era a parte, se estivéssemos juntos, em que me dizias para deixar de ser tolo! Vou aproveitar a distância para me atrever a dizer-te que, no lançamento do meu primeiro livro, tiveste mais sucesso do que eu! Houve, inclusivamente, pessoas que se esqueceram de comprar o livro, mas não se esqueceram de te cumprimentar. Já lá vai o tempo, como sabes, em que falava de ti às minhas colegas de trabalho. Agora não tenho colegas, mas o trabalho permite-me escrever-te. Por isso, nem tudo é mau.

Mas falava eu do teu bisneto, e dos rios de baba.

Há outra coisa que me deixa muito feliz: o teu sorriso. A tua alegria quando levo o miúdo lá a casa é algo que não tem preço. Assim como o teu sorriso.

O teu sorrir!

Há uma coisa que as pessoas que te admiram na Internet não sabem, sobre o teu sorriso. E não sabem porque há coisas que não se contam, há histórias com restrição de ouvintes, e há sentimentos que não vale a pena tentar explicar.

Mas o teu sorriso vale!

Durante muitos anos não sorriste. Eu, quando era criança, nunca percebi o porquê de estares sempre tão séria. Desconfiava que terias sofrido muito, pois tinha a certeza que não se devia ao facto de seres má. Na minha inocência, acho que cheguei a pensá-lo, que eras má. Mas também, eu trago-te uma colher de pau de recuerdo de uma visita de estudo e tu, sem meias medidas, partes-ma num braço! Eu sei que me portei mal, mas era escusado! Hoje rimo-nos juntos, quando nos lembramos da história (excepto o meu braço, esse abstém-se de rir).

Os anos foram passando e, de um dia para o outro, sorriste! Lembro-me de que estávamos em tua casa. Estavas tu, a minha mãe, eu e mais alguém, que agora não me recordo quem (que inveja tenho, da tua memória). Mas lembro-me bem que houve galhofa, e que tu, daquela vez, não conseguiste ficar de fora! Começaste com um sorriso tímido, que rapidamente cresceu para uma forte gargalhada. E eu fiquei boquiaberto, com a tua felicidade. Desde esse dia, passaste a sorrir muito mais. E eu passei a gostar muito mais de ti. Foi aí, penso eu, que nasceu a nossa amizade.

Uns anos mais tarde, numa conversa com a mãe, fiquei a perceber o porquê de não sorrires, o motivo do teu semblante sempre carregado. Tinhas perdido o teu melhor amigo! O meu avô. Como havias de sorrir? Não consigo sequer imaginar o que deves ter sentido, mas pelo menos, na altura, foi uma explicação para algo que me causava estranheza. Perdoar-me-ás a minha inocência. Afinal, era novo, julgava que toda a gente era feliz.

Os anos foram passando e a nossa amizade foi crescendo. Sempre gostei muito de te visitar, das nossas conversas, das idas ao Modelo, da paragem para a bica – curta, em chávena escaldada, se faz favor! Sempre adorei as tuas bochechas frias e rosadas, as cócegas que tens no pescoço, o envio de beijos repenicados, as solipas, o som que fazias ao entrar para o meu carro (não, não estou a falar dos puns, que isto não é um texto de comédia). Sempre gostei das tuas histórias, incluindo as repetidas, que contavas, e continuas a contar, com um brilho de saudade nos olhos; um brilho de quem viveu momentos inesquecíveis. Sempre adorei o facto de saber que o meu telefone ia tocar, inevitavelmente, menos de um minuto depois de terminar um desafio de futebol ganho pelo Benfica. Quando perdia, também ligavas! Mas só contra o Porto e o Sporting, e apenas para saber se eu tinha ficado triste. Sempre gostei, no fundo, de estar contigo. Sempre gostei, afinal, de ti.

Hoje, falamos mais ao telefone do que em pessoa. Confesso que tenho andando distraído, mas sei que não preciso de te pedir desculpa. Os amigos não pedem desculpa.

Este ano, o teu aniversário será um pouco diferente. Andaste outra vez metida no “bagaço”, e desta vez internaram-te! Eu bem te avisei, mas o vício foi mais forte do que tu… perdoa-me a dose extra de frontalidade, mas não julgues que por teres quase um século de vida que te livras de levar um puxão de orelhas. Tens de largar a pinga, e tens também de deixar de limpar a casa todos os dias!

E pronto, já entornei o caldo. A ideia era escrever-te algo bonito, e acabei a dar-te um raspanete.

Para terminar, pois tudo o que é bom tem de chegar ao fim (e normalmente acaba depressa), dizer-te que espero que tenhas gostado da surpresa. Afinal, este ano não estás em casa, mas nós vamos levar-te um pouco de casa. Passas o teu nonagésimo nono aniversário com a tua filha, os teus netos e os teus dois bisnetos (o terceiro está em pulgas, na barriga da mãe, à espera de participar do teu centésimo aniversário). Na próxima sessão de conversa que tiveres com as amigas que estou certo já fizeste no salão de chá do hotel onde te encontras, pergunta-lhes quantas delas se podem gabar da quantidade de vida que te rodeia. Da quantidade de vida que partilhas quando falas. Da quantidade de pessoas que gostam de ti.

Tive muito medo de começar a escrever esta carta, por pensar não estar à altura. Cheguei ao fim, e continuo sem saber.

O teu sorriso mo dirá.

Feliz aniversário, Avó.

2 Replies to “Noventa e Nove”

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