Dia dos Amigos

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Parece que ontem foi celebrado o dia dos amigos. Não sei há quanto tempo existe este dia, nem o porquê da sua existência, mas achei que seria interessante juntar umas palavras sobre o assunto. E o motivo que me fez querer fazê-lo é bastante simples: depois de ver inúmeras publicações sobre o dia dos amigos – sim, na rede social que estão a pensar – lembrei-me de um texto que recebi há uns anos por email, e que é atribuído a Fernando Pessoa. Adianto, desde já, que duvido que tenha sido Pessoa a escrever o texto, mas que o mesmo está muito giro (e pode até fazer soltar uma lagriminha), não há qualquer dúvida.

A frase que mais me marcou do supracitado diz o seguinte:

“Um dia, os nossos filhos verão as nossas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? E nós diremos que eram nossos amigos… e isso vai doer tanto!”.

Eu não concordo nem discordo desta frase, mas admito que é precisamente neste ponto do texto que o nervoso miudinho começa a crescer; talvez seja até verdade! Não sei. Não tenho a arrogância de pretender que sei discursar sobre o sentimento mais nobre do ser humano. Posso, no entanto, dizer que por enquanto estou tranquilo, pois não tenciono abrir a minha caixa de recordações, na qual estão guardadas as tais fotografias: aquelas que certamente todos temos, mas que sempre hesitaremos em tirá-las do sítio onde estão guardadas, pois há memórias que fazem doer, e é exactamente no “vai doer tanto” que reside o motivo do nosso esquecimento. A vida vai-se vivendo, e conquanto nos alheemos do que realmente importa, seremos verdadeiramente (in)felizes.

No final do texto, que é mesmo quando os mais sensíveis já deixaram cair a primeira lágrima, o autor diz-nos que:

“Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”.

Tentando ignorar o prosaico exagero, e salvaguardando o meu direito à hipérbole, devo dizer que com esta afirmação estou de acordo. Fosse eu mais novo e com menos juízo, até pensaria em fazer uma tatuagem com estas palavras (provavelmente em caracteres chineses). No fundo, o que estas duas frases tentam fazer, juntamente com o resto do texto, é crucificar a falta de tempo que, actualmente, temos para os amigos (o email em questão data do ano dois mil e seis, portanto estamos perante um “actualmente” bastante lato). Quero com isto dizer que o que era verdade há treze anos, continua a ser verdade hoje. Quantos de nós guardamos (realmente) tempo para os nossos amigos nos dias hoje? E não, aquele jantar mensal, nos meses em que todos vão, não conta. E não, o encontro anual dos amigos da Escola Secundária da Saudade também não, lamento.

Atentemos agora, antes de continuar, na definição da palavra Amizade no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (sim, gosto muito de dicionários, e então?):

Sentimento de afeição e simpatia recíprocas entre dois ou mais entes.

Arrisco-me a afirmar que esta definição não tem nada de complicado e resume bastante bem o que o nobre sentimento significa. Ao longo da nossa vida, afeiçoamo-nos a pessoas pelos mais variados motivos. Essa afeição, ao perdurar, transforma-se vagarosamente numa relação de mútuo apreço, de empatia, de irmandade, de amizade. Contudo, tudo isto representa um problema, pois uma amizade pode levar anos a construir (daí o vagarosamente – os sentimentos não têm pressa) e ser destruída em segundos, seja por que motivo for: morte, distância, zanga, rapto por alienígenas.

Como também diz no texto, podemos falar ao telefone (quem o faz, ainda?), trocar mensagens no Facebook ou noutra plataforma qualquer. Podemos criar grupos de chat e grupos de turmas da primária. Podemos calejar os dedos e massacrar teclados até à exaustão. Podemos até fazer video-chamadas em quatro capa! Podemos fazer isso tudo, mas em todas essas situações falta o factor mais importante, que é o da presença física. Sim, somos seres naturalmente piegas, e temos tendência a dramatizar tudo (como se mantinham amizades durante décadas no século dezoito, por exemplo?), mas o que é certo é que a verdadeira confraternização implica estarmos uns com os outros. E não há nada que substitua isso, pelo menos de forma plena.

Gostava também de deambular um pouco pelos vários tipos de amizade que existem, mas temo não ter espaço para isso (isto é um blogue, não é um livro de psicologia). Portanto, limitar-me-ei a recordar as sábias palavras da minha querida Mãe, que, antes de eu partir para a universidade – furioso com a vida e com o mundo, por me afastar dos meus amigos – me disse o seguinte:

Filho, não te preocupes. Os teus melhores amigos vais conhecê-los na universidade. E os que cá ficam, ou os que foram para outras cidades, continuarão a ser teus amigos, se assim o quiserem.

Para não variar, tinha razão, a minha Mãe. Foi na universidade que conheci o meu actual grupo de amigos, com quem me encontro menos vezes do que gostaria. É esse grupo (muito restrito, diga-se de passagem) que eu tenho como os meus verdadeiros irmãos. São eles que me dão a certeza da sua presença quando eu mais precisar. São eles que me irão fazer chorar quando chegar o dia da separação. Quanto aos que “lá ficaram”, são muito poucos, mas também contam! Posso afirmar que me orgulho dos (poucos) amigos que tenho, enquanto lamento a minha preguiça em tentar passar mais tempo com eles. Quem sabe, talvez este texto mude alguma coisa. Ou talvez não. A vida parece sempre arranjar forma de se meter no caminho.

Mas não é precisamente aí que os amigos nos fazem mais falta? Ah! Que miscelânea complicada de resolver! Não sei se tenho o intelecto para o fazer. Não sei! E irrita-me não saber!

E pronto, agora que estou irritado, vou parar de escrever aqui e abrir o Facebook. Não para publicar qualquer coisa sobre o dia dos amigos, mas sim para combinar a próxima cartada, ou sessão de amizade, como preferirem chamar-lhe. A ver vamos se a vida se vai ou não meter no caminho desta vez. Se for o caso, azar! Eu sei que eles lá estarão, quando ela decidir sair da frente.

E vocês, têm saudades dos vossos amigos? Estão à espera de quê?

Até para a semana.

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