Pois vou, mas agora nem por isso…

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Caríssimo leitor,

Passado tanto tempo, acho que um pedido de desculpas já se tornou, no mínimo, obsoleto. Digamos que passou de prazo. A falta de tempo é sempre uma desculpa, e não é por acaso. Que enganado estava eu, quando pensei que teria mais tempo, no interregno entre semestres académicos. Passou-se precisamente o contrário e estou, neste momento, a precisar de dias maiores, com mais horas, com mais tempo! E pronto, consegui cair no cliché da falta de tempo por duas vezes no mesmo parágrafo.

Também já perdi a oportunidade de fazer os habituais votos de Ano Novo, com desejos de realizações pessoais e profissionais, e tudo o que tu, que ganhas tempo a ler este blogue, mereces. Podia também, já agora, falar dos planos que tenho para este ano – a nível literário – mas não o farei. O motivo é muito simples: não tenho! Nestas lides da literatura cada vez estou mais convencido de que a espontaneidade está na ordem do dia. E visto que a poesia está reservada para as altas horas da noite, ou In Multam Noctem, para os que não foram pesquisar, assim fico: sem planos, sem objectivos, sem revelações.

Entretanto, apraz-me começar a falar daquilo que me traz hoje, novamente, para junto de ti, que me lês. O tempo deu-me umas tréguas e foi dar uma volta. Eu não o perdi – ao tempo – e vim que nem uma seta tratar de cumprir com este compromisso cada vez menos semanal. Enfim, já chega! O que será, será. Ano Novo, a mesma escrita!

Filhos!

O tema que me traz hoje à alvura desta página são os filhos. E que melhor forma teria de começar o ano, pergunto-me eu, a mim próprio:

– Rui, qual será a melhor forma de começar o ano?

– Epá, ainda bem que perguntas!

– E então, o que me dizes?

– Filhos! Escreve sobre filhos!

 

Está bem.

 

O meu pequenote, que neste momento já conta com três anos, cumpridos com distinção, está numa fase que os entendidos no assunto designam de threenager. Expressão engraçada, esta da língua de Sua Majestade que, ao contrário da língua de Camões, é tão flexível que permite trocadilhos tão interessantes como este. Quem diria, ingleses flexíveis e portugueses rígidos!

Uma pesquisa rápida no Tio Google e não demorei a encontrar artigos vários sobre o assunto. Há inclusivamente autênticas dissertações, e até livros a dissecar este tema. Eu achei deliciosa uma descrição do termo, que passo agora a traduzir, porque é gira e porque me apetece. Deixo também o original, para aqueles de vós versados em inguelandês (adianto desde já que o artigo é muito giro):

The threenager is that age when your 3-year-old continually acts like they are going on 13. They have attitude for miles, a stubborn streak, and want what they want… when they want. Hell hath no fury like a threenager who refuses to nap.

Threenager é aquela idade em que o teu filho de três anos age continuamente como se tivesse treze. Tem mau-génio que nunca mais acaba, teimosia quê bê, e quer o que quer… quando o quer. O inferno é um lago de nenúfares quando comparado com um threenager em fase de pré-sesta.

Aceito sugestões de revisão, mas aviso já que não terei tempo de as rever!

Voltando ao nosso assunto, é curioso verificar que a fase Threenager vem logo a seguir à fase dos “horríveis dois”. Sim, já há algum tempo que cheguei à conclusão que, até ter barba rija, vão ser fases atrás de fases. E eu cá estou, para lhes achar piada aos nomes e para fazer pesquisas na Internet, a tentar compreender melhor cada uma. Confesso que esta fase específica me está a custar um pouco. Tenho alguma dificuldade em perceber a razão do regozijo que o meu filho sente em dizer que NÃO a (quase) tudo o que nós, os pais, lhe pedimos. Aliás, ele não só grita que NÃO, como faz exactamente o contrário. Já se passaram umas quantas cenas engraçadas, em que eu e a minha mulher lhe pedimos para ele não fazer uma coisa (que nós queremos que ele faça) e ele, convencido de que está a levar a sua avante, faz! Ah! Isto é algo fantástico! O meu puto tira prazer em dizer que não e nós, que já devíamos ter juízo, gozamos com o pirralho e ele nem se dá conta! Afinal, também não pode ser tudo gritos, paus da rua a voar e dinossauros desmembrados depois de verdadeiros ataques de fúria de palmo e meio. Escusado será dizer que o meu gaiato, quando começa a gritar, faz o Hulk parecer um menino (e faz o vizinho sair de casa, também).

Toda esta lengalenga para chegar à parte do texto em que vos dou conta do episódio desta manhã, que se repete TODOS os dias, sendo que em dias de escola é só de manhã e à tarde/noite, e ao fim-de-semana é o dia todo (tendo o seu pico nos momentos que antecedem a sesta).

Ora, estava eu a tomar o meu café matinal, a apreciar o seu aroma e a pensar no afortunado homem de família que sou – barriga incluída – quando o Isaac começa uma sequência ininterrupta de chamamento de atenção da mamã, a saber:

– Mamã, mamã, mamã, mamã, mamaaaaã, mamaaaaaã, mamaaaaaaaaaaã. Mamã? Mamaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaã!

– O QUE É ISAAC? – Responde a minha mulher, ainda com um olho aberto e outro por abrir.

Eu, tranquilo com o meu estilo, viro-me para a minha mulher e afirmo:

– Um dia vais ter saudades disto.

Ao que ela me replica, com requintes de malvadez na sua expressão:

– Pois vou, mas agora nem por isso…

Em conclusão: Não sei se tenho mais medo das trinta e duas semanas de gravidez da minha cara-metade, se de pedir ao meu filho que faça seja o que for. De uma maneira ou de outra, uma coisa é certa:

 

Haverá berreiro.

 

Até para a semana!

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