Eu aprendo, tu aprendes, eles…

abc-alphabet-blackboard-265076.jpg

Durante os últimos seis meses, desde que voltei a estudar, aprendi muita coisa. A primeira coisa que aprendi, e devemos sempre começar pelo começo, é que um semestre afinal são quatro meses, e não seis, como aquele substantivo nos levaria a crer. Digo isto porque o semestre começou em Setembro e acabou em Dezembro, o que perfaz, na verdade, qualquer coisa mais próxima do tri do que do se. Poderão argumentar e dizer-me que a época de exames também conta; aceito essa prerrogativa, mas terei de retorquir que, na minha altura, também contava, mas eram apenas duas semanas, e não (quase) dois meses!

Mas não foi só isso que aprendi…

Aprendi que a educação não tem preço e que, mesmo que tivesse, muitos colegas meus não a conseguiriam comprar. As faltas de respeito constantes a que assisti neste primeiro semestre, tanto para com professores, como para com colegas, foram tantas que teria de escrever um livro; um blogue não ia chegar. A que mais confusão me fez foi a de uma colega que, pelas minhas contas, andará no ponto-rebuçado dos seus dezoito aninhos. A professora (uma das boas, já agora) estava a manifestar o seu desagrado com a disposição da sala, pois a mesma não permite o grupo coeso que a professora crê ser a melhor forma de leccionar (eu concordo = tudo ao molho e fé em Deus).

Ora, assim como que inesperadamente, a miúda larga o telemóvel – facto que eu achei inacreditável – e vira-se para a professora, com duzentas e vinte sete pedras na mão, e berra: “A CULPA NÃO É NOSSA, TÁ?”! Eu, que nunca tinha ouvido a minha colega falar, fiquei estupefacto com aquela saída, que não se ficou por ali! A professora ainda teve a delicadeza de se justificar (ai, se fosse comigo…), mas nem assim a miúda se deu por satisfeita e continuou a refilar em voz alta, como se alguém tivesse acabado de lhe dizer que não (alguns de vós entenderão esta, outros nem por isso…).

Passei o resto da aula a mirá-la disfarçadamente e a tentar perceber a razão de tanta indignação, de tanta fúria acumulada (entretanto, a minha colega ia bufando em voz baixinha: “dá mas é a matéria, cabra!”). Ao observá-la com atenção, qual David Vaitemborough disfarçado no meio das silvas, não tardei em perceber os sinais que facilmente me levaram à conclusão de que perante mim estava uma espécie que eu julgava rara, pelo menos a partir de uma certa idade. Trata-se, como já devem ter concluído, de uma minina mimadas. Em bom português: uma pirralha.

Notei, entre outras coisas, que já vai no nível mil quatrocentos e vinte e dois do Candy Crush; ainda no telemóvel, devo reconhecer que nunca tinha visto tamanha destreza de dedos a abrir/fechar/navegar por TODAS as redes sociais que eu conheço (e julgo até algumas que desconhecia). Mal geral, este dos telemóveis nas salas de aula. A maioria dos professores já desistiram, e decidiram ignorar.

Mas adiante. Esta minha querida colega, pela qual passei a nutrir um especial tipo de apreço, anda com uma Pandora tão carregada no pulso que não sei como ainda não apanhou uma tendinite. Mais tarde, e noutro dia, vi-a também passar por mim no Série 5 do papá. Só se via o carro e uma cabecinha pequenina ao nível do volante. Lembro-me de pensar para comigo: “Isto explica tanta coisa”. E não, o facto de conduzir um carro caro ou de ter TODAS as contas numa Pandora aos dezoito anos não significa, nem implica, que alguém seja mal-educado. Mas que é um forte indicador de excesso de mimo e de falta de uns bons pares de bofetadas, lá isso é. Estava para escrever nalgadas, mas quer-me parecer que de nalgadas ela gosta.

Já estou a escrever parágrafos grandes demais e isso não me agrada, mas queria realmente dar-vos conta desta “peça” que, felizmente, não terei de ver mais até acabar o curso. Para terminar a análise psicossomática da minha colega, escusado será dizer que entra nas aulas quando quer, sem bater à porta. Ah, e não esquecer também as concubinas que, sem pulseiras Pandora e sem Série 5, a perseguem para todo o lado. Ah, e claro! Quase que me esquecia. Todas e cada uma das vezes que a quiduxa foi interpelada pela professora com uma pergunta, NUNCA soube responder (adianto, desde já, que nem sequer eram perguntas difíceis).

Aprendi – e voltando agora à sequência que inicialmente tinha pensado para este texto – que para ter um diploma não é preciso ser-se inteligente, nem ter capacidade de raciocínio ou de resolução de problemas. Para se ter um diploma, basta ter boa memória. A grande maioria dos professores permanece agarrada ao mais que obsoleto método de Cambridge. Quem perde com isso somos todos: os professores, porque não evoluem (será que querem?); e os alunos, porque são diplomados sem sequer saberem onde colocar uma vírgula, ou soletrar correctamente duas palavras seguidas, ou escrever um texto com cabeça, tronco e membros. Sim, estou a falar dos nossos futuros professores, investigadores em áreas tão diversas como a comunicação social, a cultura e as humanidades em geral. Enfim.

Aprendi que afinal também há bons alunos! E que belo punhado deles tenho na minha turma este ano. Curiosamente, apenas um é português. Os outros são brasileiros, franceses e polacos. Todos, sem excepção, passam as aulas a prestar atenção ao que o professor diz. Pasme-se! Dois deles trabalham para pagar os estudos. Cada um deles vive a pelo menos três mil quilómetros de casa. Sempre que olho para eles lembro-me da minha amiga da pulseira e começo a sentir ânsias de assassino em série.

Acredito que deve haver por aí exemplos de alunos aplicados de nacionalidade portuguesa; eu, infelizmente, tenho privado com muito poucos.

Aprendi ainda a engolir sapos, técnica que já tinha aprimorado no mundo profissional, mas que no mundo académico requer uma dose extra de requintes de malvadez. Engoli uns quantos e, se bem que um pouco salgados, a maioria até se digeriram bem. E agora, que se chegou o final da digestão (pelo menos a do primeiro semestre), já posso tratar de evacuá-los em sítio próprio!

Aprendi também a ser mais participativo. Em certas aulas participei tanto que houve até colegas a levantar o braço para me perguntarem se podiam ir ao WC (sim, quem não teve aquele colega eternamente inocente, que atire o primeiro pau de giz). Rapidamente esclareci que o professor não era eu, e a confusão dissipou-se sem problemas de maior.

Aprendi que é muito complicado estudar e ser freelancer. Eu já sabia que estudar e trabalhar era complicado, mas isto é outro nível. Desde que começaram as aulas, o número de clientes com os quais trabalho não parou de aumentar. Isso é bom, dirão. Claro que sim! Mas é muito complicado gerir o tempo, e começo a precisar de dias com mais horas. Não estranhem, portanto, se houver mais umas faltas de texto nos próximos meses.

Aprendi que me dá um gozo do caraças abstrair-me de tudo e, quando tenho um tempinho, sentar-me aqui, bem no meio da biblioteca e de toda a sua luz natural. E escrever-vos. Pois é isso que faço, escrever-vos.

Aprendi, da pior forma, que preciso de usar fones na biblioteca, pois o silêncio deixou de ser uma obrigatoriedade e passou a ser opcional. Há zonas da biblioteca que só lhes falta uma mesa de bilhar, ou um alvo para jogar dardos.

 

Aprendi tudo isto, e muito, muito mais.

 

De académico… Não aprendi nada.

 

P.S. – Não aprendi (ainda) a estruturar um texto convenientemente. Hei-de aprender!

 

Até para a semana!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s