Tenham paciência.

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Hoje não sei como o dia amanheceu, pois deixei-me dormir. Gostava de ter visto o sol a erguer-se e a abraçar o dia, qual guardião da nossa raça, detentor do nosso calor. Costumo tentar vê-lo todos os dias logo de manhã, mas nem sempre é possível. Hoje, foi a preguiça que levou a melhor.

Quando cheguei à varanda para tomar o meu café e activar o cérebro para o já adiantado dia, reparei logo nas nuvens que, timidamente, escondiam o sol, tornando o céu na clássica imagem que chamaríamos de celestial (raios que perfuram as nuvens e uma claridade feita de gradações de luz e de ouro). Penso sempre na hipótese de surgir um Serafim a voar, mas até hoje nunca aconteceu.

Não é preciso ser-se religioso para acreditar em anjos, pois não?

O café, de celestial, nada tinha. Indaguei com o fecho da minha camisola (não tem botões) sobre a possibilidade de ter de mudar o filtro da máquina, ou mesmo sobre a inevitabilidade de mudar a máquina toda. Afinal, gosto muito da minha bica, e a matinal é a que me sabe melhor. Tudo o que for menos do que celestial, é inaceitável. E agora, a partir deste momento, vou parar de usar a palavra celestial, não vás tu, meu caríssimo leitor, pensar que te estou a tentar evangelizar. Credo.

Entretanto, pensei em mandar a máquina de café pela janela. Mas como já a tinha fechado, deixei-me estar. E também, convenhamos que o dinheiro não cai do céu!

Depois da dose de cafeína começar a fazer o seu trabalho, começo eu a fazer o meu. Reconheço que me sinto um pouco cansado e sem vontade de escrever, mas nem sempre as coisas nos correm de feição. E também, quem é que hoje em dia não se sente cansado? Não vou começar para aqui a fazer-me de coitadinho que me doem os pulsos, ou a ponta dos dedos! Podia, mas não vou. O prazer que juntar palavras me dá faz esquecer as maleitas inerentes à minha profissão. Por isso, não me vou queixar.

Até porque de queixas cansadas estamos todos fartos, eu inclusive. Mas parece ser uma característica inerente a todos os portugueses, sempre a bufar por tudo e por nada. Não é de admirar que, depois de descobrirmos meio mundo, hoje sejamos uma caganita de ovelha no mapa-múndi; não fosse a nossa constante incapacidade de nos conformarmos com o que temos e o facto de estar sempre “tudo mal”, quiçá hoje os atlas fossem diferentes. Contudo, quem sou eu para fazer juízos de valor sobre este assunto, se mais de metade daquilo que escrevo no meu blogue são queixas? Pois.

Adiante, que se faz tarde e ainda não disse nada que se aproveite (esta queixa foi indecentemente aqui colocada, de propósito).

Num volte-face inesperado, ao sair de casa deparei-me com uma imprevista beleza do mundo que me rodeia. Bem sei que no texto anterior já teci algumas considerações sobre isto, mas eu apenas me limito a cumprir com aquilo que os meus dedos, pousados no teclado, me fazem escrever. E assim é que me parece estar correcto, pois se não somos donos da nossa própria capacidade para nos mantermos indiferentes a algo belo, também não devíamos sê-lo em relação ao controlo que temos sobre aquilo que dizemos ou, neste caso particular, escrevemos.

Espasmos intelectuais à parte, hoje quero falar-vos sobre algo que me tem vindo a apoquentar nos últimos tempos – a falta de Amor, de tempo e sobretudo, a falta de paciência. Todas estas faltas estão intrinsecamente ligadas entre si e dependem inexoravelmente umas das outras para sobreviver. Sim, estou a atribuir qualidades humanas a substantivos. O blogue é meu e apeteceu-me!

O Amor, dizia eu. Sempre com letra grande, que é como deve ser escrito, o Amor tem andado arredado das lides diárias de muita gente que eu conheço – e provavelmente de muitos desconhecidos também. A culpa é do tempo, que não se consegue desdobrar nem multiplicar os minutos que uma hora tem. Talvez se começássemos a pensar em unidades de tempo, como a personagem do Hugh Grant no About a Boy, a vida fosse mais fácil. Como eu não gosto de coisas fáceis, e também não tenho o hábito de me meter na vida dos outros – excepto quando por algum acaso consigo, sem saber bem como, fazer alguém sorrir ou chorar com o que escrevo -, decidi começar hoje a não me esquecer da razão pela qual comecei a escrever: o Amor (não será a razão de todos os que escrevem?).

Já me perdi outra vez.

Ah! Estava a culpar o tempo. Mas a culpa também não é dele. É da paciência! Nos dias que correm não temos pachorra para nada, quanto mais para amar. E isso é muito triste. O verbo amar encerra em si tantas possibilidades que julgo ser merecedor de mais atenção. Com certeza, e a partir de hoje (qual epifania existencial), farei um esforço para ser mais paciente e arranjar tempo para amar. Seja de que forma for.

Para já, e para começar, vou amar (ainda) mais as palavras e tentar usá-las mais vezes para falar sobre esse sentimento sublime que foi, aliás, o principal “tema” do meu primeiro livro. Hoje, quando chegar a casa, vou também tentar olhar menos para o meu dumbphone e mais para o meu smartson. Vou tentar encontrar paciência para fazer algo que não seja para mim; exercer uma das maiores qualidades do ser humano: o altruísmo. Não haver tempo não vai ser desculpa, hoje não. Hoje vou regressar ao tempo em que o Amor tinha precedência sobre tudo o resto. Nada mais importava senão o frenético pulsar do nosso coração quando alguém que amamos olha para nós e nos diz, isso mesmo que estás a pensar: Amo-te.

 

Tenham paciência!

 

E até para a semana.

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