Ergo Sum?

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O dia amanheceu com um denso nevoeiro a chorar lágrimas de neblina sobre a praia deserta. O mar está calmo. Tão calmo que pareceria uma enorme lagoa, não fosse a ténue linha de espuma branca que se move num ininterrupto vaivém. O cheiro húmido a orvalho entra pela janela do meu quarto e eu não lhe pergunto por que não pediu autorização. Afinal, há certas ousadias que devemos permitir, sob pena de nos tornarmos demasiadamente rígidos. E também, afinal, aquele aroma matinal até se apresenta bastante agradável.

Abro a janela do meu quarto de par em par e, lá ao fundo, lá bem ao fundo, consigo ouvir o som das gaivotas, que observam placidamente a mesma imagem que eu, mas lá em baixo e mais perto do mar, onde a vista é bem melhor. Pergunto-me se elas, as gaivotas, pensam no mesmo que eu quando olham para o mar, ou se só querem saber de peixe. Pergunto-me se é que pensam, de todo. Não me admiro, mais uma vez, de não encontrar resposta nos sons que o vento me traz. Mas também não me importo. A natureza faz o seu jogo e eu não interfiro, pois gosto dele assim, precisamente como ela o joga.

As interrogações que me perseguem sem misericórdia desde que me lembro de pensar continuam o seu árduo trabalho de não dar descanso ao meu ego. O meu cérebro, sempre numa corrida infernal contra algo desconhecido, não pára. Nunca pára. Já desisti de tentar perceber o porquê e agora limito-me a (tentar) não lhe ligar muita importância. Também não sei o que me levou a fazer isso, a mudar a minha forma de estar. A paisagem que tenho perante mim não pode ter sido, pois não tenho o privilégio de a contemplar todos os dias. O que é certo é que algo em mim mudou. O que permanece incerto, é exactamente o quê. Tu, que me lês, se por acaso souberes ou tiveres algum indício do que poderá ser, por favor, não hesites em dizer-mo. E não me recuses nenhum pormenor.

 

O exercício do intelecto não é fácil. A sinceridade da natureza empresta-lhe alguma naturalidade.

Naturalmente.

 

À medida que a manhã avança, que o tempo passa, a minha curiosidade sobre o que me espera amanhã é aguçada. O facto de não prever o futuro – para além das rotinas, entenda-se – não me assusta. Mas admito que me deixa inquieto. Então nesta fase da vida em que há alguém que de mim depende, mais irrequieto fico. O meu olhar sempre se fez de contrastes e, ao que parece, isso não mudou. Uma dose quanto baste de confusão também nunca está demais, pois não se pretende deixar o leitor demasiadamente confortável, sob pena de soçobrar numa eventual luta com o João Pestana e, consequentemente, perder o fio à meada.

Nesta rede que compõe o meu pensamento muitas são as minudências entrançadas; tão intrinsecamente presas umas às outras que se afigura tarefa impossível destrinçá-las a todas. No meio do emaranhado, o fel é rejeitado imediatamente e nem sequer tem espaço para respirar, nos já exíguos corredores da minha mente. Tempos houve em que me deixei dominar, mas idos vão. E idos permanecerão. Parece-me não haver forma simples de dizer isto, de expor o meu problema. Confesso que eu próprio já me sinto meio perdido no meio disto tudo. Afinal, qual é o meu problema?

 

Mais uma pergunta. Mas uma resposta que vagueia ao sabor do vento, sem me ligar importância.

 

Volto à contemplação do mar, mas agora com o olhar aguçado pela perseverança. Tenho de… Não. Preciso de chegar à conclusão, de perceber afinal o que mudou. Por que raios me sinto tão bem-disposto, tão alegre, tão inebriado de optimismo. Cheguei a um ponto em que até nas flores reparo! A beleza do mundo brota e floresce perante mim e eu deixo-a entrar sem reservas. Tento esquecer as atrocidades, a fealdade que por aí anda. Tento fingir que não vejo que o nosso mundo caminha na direcção do abismo e não há travões que o segurem. Basta ligar a televisão.

E não sei se estou a tomar a decisão certa. Mas também, quem sabe? Quem pode dizer, com propriedade, que uma qualquer atitude tomada é a atitude certa? Quem é o juiz do nosso comportamento? A verdade é que não sei. Mas prefiro acobardar-me e olhar para o lado. Prefiro acreditar que os meus dois descendentes vão ter gaivotas para contemplar e lágrimas de orvalho para sentir. Quero crer que o mundo para eles será de cores e de sentimentos.

E não me importo de chegar ao final de mais um texto sem conseguir não falar dos meus filhos. O que já salta e corre desenfreadamente e que, quando lhe dou a escolher entre o marcador preto e o amarelo/laranja/azul/vermelho, escolhe sempre um dos últimos. E o que ainda cresce no ventre da sua mãe, confortavelmente alheado das coisas boas e más da vida. A ele, o que lhe interessa é que a comida não acabe e que não o chateiem muito com fotografias a quatro dimensões. Ainda não saiu da barriga da mãe, e já tem a mania que é um “clássico”.

Entretanto, comecei este texto à procura de mim e não me encontrei. Mas não faz mal. Comecei armado em filósofo e acabo desarmado pela paternidade. É provável que seja essa a razão do meu inesperado sorrir. É provável, também, que nunca me venha a encontrar. É certo que isso já não me importa.

 

Por agora, não sei (ainda) quem sou. Também não sei para onde vou.

 

Mas sou feliz.

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