Vamos à feira!

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Esta semana fui à Feira de Santa Iria, e pela primeira vez desde o seu nascimento, o meu filho Isaac acompanhou-me a mim e à sua mãe para aquela que é a mais antiga feira do Algarve.

Apesar se não saber o significado da palavra “feira”, o meu filho já sabe – e muito bem – o significado intrínseco ao verbo “ir”. Portanto, quando eu ou a mamã lhe perguntamos se quer ir a algum sítio, ele, assim que ouve aquele verbo, começa logo a arregalar os olhos, certo de que não irá ser desiludido pelas palavras que se seguem. Desta vez, essas palavras foram “à feira”; ele, com os olhos completamente escancarados de alegria, regozijou-se ali, mesmo à nossa frente, e começou a saltitar graças à enorme alegria que os pais lhe tinham causado. Bonita fotografia familiar que aquele momento teria dado: o Isaac em êxtase total e eu e a minha mulher em pasmo total, deliciados, a mirá-lo.

Volto a dizer: ele não sabe, ou não sabia, o significado da palavra “feira”. Gosto de pensar que a alegria dele quando ouve o verbo “ir” não tem só a ver com o acto em si – com o sair de onde está para passar a estar noutro sítio -, mas também com o saber quem o irá acompanhar nessa “ida”. O lugar? O lugar é irrelevante.

Mas desta vez não. Desta vez o lugar tem toda a relevância do mundo. Diria mesmo, e com noção do risco que corro em falar novamente do Gedeão, que tem tanta relevância como a bola colorida daquele poeta português. O acontecimento deixou de ser a Feira de Santa Iria, propriamente dita, para passar a ser a ida de uma criança, pela primeira vez, a um mundo cheio de luzes, sons, cheiros e mais novidades fantásticas para o pequenino, mas fértil cérebro do meu gaiato.

Eu, enquanto escritor e trabalhador da palavra, poderia começar a falar sobre o evento propriamente dito. Dizer coisas tão interessantes como o facto de a feira existir desde mil quinhentos e noventa e seis, e perguntar-me se nesse ano alguma criança houve que se tenha divertido como o meu pequenote. Não sei ao certo se há quinhentos anos as feiras já tinham a aura de felicidade pueril a pairar à sua volta, como as feiras de hoje têm.

Apesar da longa caminhada para lá chegar, pois o carro quase que o deixava em Olhão, o Isaac nunca sucumbiu à irritação fácil que caracteriza os miúdos da sua idade. Afinal, uma criança de três anos apenas sabe dormir, brincar e mijar fora do penico (nem sempre, mas…). Logo, quando não está a fazer uma destas três coisas, é apenas natural que comece a indagar e, eventualmente, que se zangue por nunca mais voltar à rotina a que está habituada. Isto foi uma forma complicada de dizer que os putos normalmente não gostam de andar de carro, seja com ou sem motor, e com ou sem diminutivo.

Resoluto. Era a palavra que estava à procura. Ao entrarmos na feira, o olhar do meu filhote transbordava resolução. Ele sabia o que ia ali fazer, apesar de não fazer a menor ideia do que ia ali fazer. Pode parecer confuso, mas não é. Eu, como vidente que sou, consigo penetrar na cabeça das crianças e, apesar da cabecinha do meu filho ser mais dura que uma viga de aço, consegui saltar lá para dentro e ver a feira da sua perspectiva.

Assim, e de repente, o mundo como eu o conhecia mudou, e voltei a ser criança novamente. Não estranhei os caracóis em cima da cabeça e também não estranhei a presença da minha mãe. Afinal, tinha ido à feira com os meus pais! Também não estranhei a lufada de ar cinzento que me entrou pelas narinas adentro e me fez espirrar laivos de castanha assada. Não estranhei ainda o barulho – quase ensurdecedor – dos carrosséis, misturado com o dos seus animadores e misturado, por sua vez, com o grave murmurar da turba que se havia juntado naquele espaço, tão pequeno para tanta gente.

Também não estranhei a sirene dos carrinhos de choque nem a cor rosa das nuvens que algumas bancas guardavam dentro de caixas de vidro. Não estranhei a quantidade incontável de cores que me rodeavam e de sentimentos que faziam o meu ainda jovem coração palpitar de emoção. Não estranhei nada daquilo que me rodeava. Primeiro, porque me acompanhavam os meus guardiões (são dois e são dos bons, não se metam com eles!). E segundos (as crianças dizem segundos, não dizem segundo), por saber que aquele mundo era todo meu e que, enquanto ali estivesse, era dono do tempo. E da felicidade. Também era dono da felicidade.

Depois de voltas e revoltas chegámos finalmente a um Carrossel. O cê grande é propositado, e a partir de hoje aqueles quatro cavalinhos do centro comercial deixaram, oficialmente, de contar como carrossel. Aquilo sim, me pareceu próprio para uma imaginação como a minha! Tinha o Batman e a Pequena Sereia, passando por carruagens do oeste longínquo e bólides modernos e luzes que piscavam de tal forma e com tamanha abundância que, por momentos, julguei ser um hippie (mas rapidamente me apercebi que era muito novo para isso).

Nem o meu pai nem a minha mãe conseguiram disfarçar o tontos que se sentiram ao andar comigo no Carrossel. Ouvi-os comentar entredentes – e risadas também – que já não estavam habituados e que até tiveram de se encostar, não fossem as tonturas levar a melhor. A parte melhor, no meio disto tudo, é que quando acabou a primeira volta, o papá me perguntou se eu queria ir novamente! A resposta foi mais que óbvia. Mais uns minutos naquela roda-viva de cores e som, que ainda por cima causa tonturas aos meus pais? Sim, obrigado!

E para terminar, a cereja no topo do bolo, que é o mesmo que dizer: a fartura na minha mão (perdoar-me-ão os elvenses a heresia de lhe chamar fartura, sabendo eu muito bem o seu verdadeiro nome: brinhol!). Nunca uma coisa tão estaladiça me tinha passado pelos beiços. O que eu me babei enquanto aquela massa se desfazia lentamente na minha boca. Comi-a toda, sem desperdiçar um bocadinho que fosse, e sem açúcar, claro, por ordem da minha mamã.

Era domingo, os meus pais estavam cansados, e quando terminei a fartura já estávamos a caminho de Olhão. Digo… do carro. Acho que não preciso de dizer que me diverti à brava e que, nos meus já longos três anos de vida, e com a experiência que tenho em matéria de diversão, não esperava que o mundo se pudesse tornar, de um momento para o outro, num autêntico Carrossel de emoções.

Com cê grande.

 

Até para a semana!

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