Um dia normal

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                                 Pormenor da melhor Faculdade da UAlg: a de Turismo.

O dia de hoje começou como tantos outros e sem nada de importante a assinalar.

Portanto, decidi que o texto desta semana falaria, precisamente, sobre o dia de hoje. E isto porque a literatura nem sempre tem de falar de algo importante, ou de algo que nos apele aos sentimentos, ou de algo que nos suscite emergências lacrimais, ou ainda de algo que nos cause asco, e nos provoque outro tipo de emergências, mais odoríferas e menos agradáveis. Nunca se sentiram indispostos ao ler um texto? Ai não? Então é porque não lêem o suficiente. Leiam mais e, já agora, para completar o raciocínio dos odores, experimentem “O Perfume”, de Patrick Süskind. Logo me dirão se não vos despoletou um que outro ligeiro bolsar, de quando em vez.

Mas falava eu do dia de hoje, que começou de forma absolutamente normal.

Acordei os já habituais vinte minutos depois de o despertador tocar. A primeira coisa que ouvi foi a voz do meu filho. Tempos houve em que me sabia tão bem ouvir outra coisa qualquer logo de manhã, como o chilrear de um pássaro, o clássico som da chuva ou o vizinho do andar de baixo a cantar enquanto toma banho. Está bem, esta última não.

Hoje, os pássaros podem chilrear à vontade e a chuva pode chover e bater furiosa contra a janela. O vizinho de baixo pode até começar a cantar bem, que eu não ouço mais nada. Nada é mais importante, no momento do meu acordar, do que ouvir o som do meu filho (nem que sejam as fofinhas flatulências – verdadeiros ataques de gás-mostarda- que ele sempre deixa sair de forma tão inocente e distraída).

Levantei-me a custo da cama, hoje mais que ontem e menos que amanhã, ou pelo menos assim o espero. O custar a acordar custa-me a sério. Gostava que não me custasse tanto e que houvesse forma de fazer um acordo com o acordar, para não custar tanto. Mas hoje custou-me. Amanhã veremos, o que me custará.

Depois de tomar o café da manhã – literalmente e sem brasileirismos -, pois antes do meu café da manhã não consigo fazer nada, parti para a minha rotina matinal. Entre oscular a minha mulher, afagar-lhe a já protuberante barriga e ver fotografias no computador com o meu filho ao colo, a minha rotina matinal não se apresenta especialmente sedutora, em termos literários. Assim sendo, julgo que concordarão comigo se a deixar de fora deste texto.

Todo despachado para sair de casa, pedi o beijo de despedida ao meu filhote, como faço sempre. Rapidamente me veio à cabeça a palhaçada que anda nas redes sociais por causa de beijos, ainda que estes sejam de outro tipo. Pensei em escrever sobre o assunto, mas logo a seguir mudei de ideias; a Internet já está suficientemente inflamada, não faz o meu estilo deitar achas para a fogueira.

Desta vez tive sorte, e o meu piqueno não colocou qualquer objecção em beijar-me a face e em dizer-me o “até logo” do costume. Não só me beijou, como ainda me abraçou e me deu a já clássica palmadinha nas costas. O facto de não fazer a barba há uma semana também não me pareceu tê-lo incomodado.

Saí de casa satisfeito e feliz. Por essa ordem.

Ao entrar para o carro (estivesse o dia diferente e esta frase começaria com: “Ao montar-me na bicicleta”), o modo pensativo liga-se automaticamente, como se a minha cabeça fosse uma máquina que alterna entre diferentes estádios ao longo do dia. No carro, ou enquanto me locomovo, normalmente é o modo pensativo que engrena. Dirigi-me para a Universidade, não sem antes passar pelo café da senhora (sim, continua com o seu ar de sempre), e também pelos correios, para levantar uma encomenda. O dia iria ser longo, mas passado um mês da mesma labuta, o cansaço já se me habituou. Tratamo-nos por tu e tentamos dar-nos o melhor possível, pois ambos chegámos à conclusão de que assim saímos todos – os dois – a ganhar.

Depois da volta do costume a todo o campus à procura de lugar para o carro, lá tive de ir deixar o chaço em cascos-de-rolha. Escusado será dizer que enquanto estive dentro do carro não choveu. Ao abrir a porta para sair, não fiquei surpreendido quando levei com a primeira gota. Ah, Murphy, sua magana. Nunca gostei de ti! Abri o guarda-chuva, que se tem vindo a tornar um acessório cada vez mais útil por terras algarvias, e arrepiei caminho, pois a hora da aula aproximava-se sem qualquer misericórdia.

Durante a minha caminhada, que durou mais de cinco minutos e menos de dez, agucei o olhar, como sempre faço, para tentar absorver tudo o que me rodeia. Desta feita, tinha um propósito: ver até que ponto e com quanto detalhe consigo recordar o meio que me rodeia, para depois o tentar descrever, claro.

Ao entrar na universidade, o primeiro edifício que deixo para trás é a Faculdade de Economia. Não há um dia que por lá passe que não esteja o clássico beto cá fora, a falar ao telefone enquanto gesticula como se o Parlamento acabasse já amanhã. Pelos vistos, os sapatos de vela, a calça creme, a camisa azul-bebé e o blazer azul-escuro nunca vão passar de moda. Mas apercebo-me de que não é ele que destoa, no quadro que se vai movimentando à minha frente. Algo de estranho se passa, pois está a chover e não vejo ninguém de guarda-chuva. Passam por mim putos de capuz, meninas com o caderno a tapar a cabeça e até erasmus de bicicleta. Protecção contra a chuva nem vê-la, a não ser quando finalmente me aproximo do complexo pedagógico e começam a aparecer alguns adultos. Esses sim, apresentam-se perante a chuva com indumentária apropriada, como eu. Tento lembrar-me de como era no meu tempo, mas rapidamente me apercebo que, no meu tempo, chovia três dias por ano (e normalmente eu não estava em Faro).

Com a chuva debelada, a primeira aula correu-me de feição. Desta vez não houve mamocas saltitantes, mas houve leitura e comentários a textos literários, duas coisas que me apraz muito fazer. Como se isso não chegasse, descobri que afinal há estudantes de literatura que sabem escrever! E bem! E em inglês! Ainda não tínhamos chegado a meio do dia e todo eu estrebuchava por dentro de satisfação. Afinal, há esperança na nossa juventude e, afinal, tenho alguém com quem falar durante este ano lectivo! A aula passou num abrir e fechar de olhos e, quando dei por mim, já estava no café do costume à espera do almoço.

Eram treze horas e já me encontrava na biblioteca, para aproveitar o hiato académico para trabalhar, pois as propinas não se pagam sozinhas. Até às quatro e meia da tarde, hora da última aula, consegui despachar trabalho suficiente para que no dia seguinte, sexta-feira, me possa dedicar a fazer outras coisas, pois às sextas não há aulas. Às dezassete e trinta, e depois de uma pequena desilusão por não ter ficado com o monólogo do Oscar Wilde para ler, acabou a minha semana académica e voltei novamente à conversa com o cansaço.

Àquela hora nada mais restava senão ir para casa, de regresso para o seio familiar. A quinta-feira é o único dia da semana em que chego a casa depois dos meus. E que gozo me dá abrir a porta e começar a ouvir a verdadeira debandada do meu filho a correr ao meu encontro (esta parte é mentira, ele quase nunca se mexe. E quase sempre tenho de suborná-lo com alguma coisa para poder sentir a doçura da sua beijoca na aspereza da minha cara suja de barba). Posto isto, os eventos seguintes primam pela normalidade, sendo que a melhor parte do dia é a galhofa logo a seguir ao jantar e mesmo antes do banho. As vinte e uma horas estão quase a chegar e está na hora de publicar o texto da semana, antes de ir lavar o rabinho mais fofo do Algarve, e arredores.

Às vinte e uma e trinta, mais minuto menos minuto, já estou em modo de pausa para o mundo. Ler, escrever, jogar WoW ou Magic, ou simplesmente definhar no sofá enquanto papo mais uma série da Netflix, que cada vez faço menos, pois a qualidade tem vindo a descer, e muito. Veria um filme, mas à quinta-feira deixar-me-ia dormir antes de chegar a meio e depois teria de dizer que o filme não prestava, como a minha mãe costumava fazer.

Não sei se a isto se pode chamar rotina, mas julgo que sim. A quinta-feira é mesmo o dia mais complicado, mas é também aquele em mais noto o sentimento de dever cumprido. E assim se passou o meu dia, igual a tantos outros, e sem nada de importante a assinalar.

 

E o vosso, como foi?

 

Até para a semana.

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