Feliz aniversário, Mãe.

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Eu queria que o texto desta semana, como aliás quero sempre, não reflectisse o lado mais soturno e sensível da minha personalidade. Não porque tenha vergonha dessas duas características que me definem, mas porque por vezes não me apetece extravasá-las. Mas isso nem sempre é possível, e desta feita diria mesmo que é impossível. A razão é muito simples, e o motivo também: hoje escrevo para ti, Mãe, no dia em que celebras setenta e dois anos.

Já passou algum tempo desde a última vez, e a tarefa não se tornou mais fácil. Diria mesmo que é cada vez mais difícil escrever-te. Já o fiz em verso por mais do que uma vez, já o fiz em prosa (daquela que fica guardada na gaveta) e já o fiz em jeito de cartas que nunca seguem, pois segundo me disse o senhor dos correios na primeira vez que tentei, os CTT ainda não chegam ao céu. Quem sabe, talvez um dia isso seja possível. Caso aconteça, ficas já sabendo que as embrulho todas numa corda e que seguem logo em correio verde, caso seja essa a cor do correio mais rápido de então. Caso não aconteça, paciência, guardá-las-ei na mesma gaveta até que o momento se revele oportuno, se é que jamais.

Nos últimos onze anos tiveram lugar muitas coisas significativas, mas nada alguma vez poderá significar mais do que a tua distância. Apesar da dificuldade, acabei por aceitar o cliché que afirma que “a vida continua”, e assim fiz, continuei com ela. Mas depois…

Depois, chegam estas alturas em que me lembro de ti com mais suspiros. E digo com mais suspiros porque todos os dias sopro brandamente a tua falta, mas há dias em que aqueles lamentos do ânimo não chegam e tenho de tornar a coisa mais séria. Por outras palavras, são os dias em que te recordo.

Depois, o teu neto mais velho pega na tua moldura (aquela em que tens uma guitarra ao colo) e pergunta “quem é?”. Eu engasgo-me, mas a minha mulher ajuda-me sempre e diz, com uma vontade e expressividade invejáveis, “é a Vó Zé”. E ele fica encantado, claro. É mais uma avó. Haverá crianças no mundo que não gostem dos avós? Haverá sentimento mais ternurento? Ele, coitadito, ainda não tem noção do tempo, e ainda bem. Assim não precisa de saber, pelo menos para já, que não te irá ver fora da moldura. Que a tua fotografia a preto e branco não vai ganhar cor. Vês? Mesmo não estando cá, consegues fazer pessoas felizes.

Depois, sou eu que pego na tua moldura. Mas esta é a cores e tenho-a na mesa de cabeceira. Como é uma fotografia de outra fotografia, a qualidade não é a melhor, pelo que de vez em quando volto a imprimir e pronto, os teus olhos voltam a ser da cor do mar e eu, tonto como sempre, perco-me a olhar para eles. Nesta fotografia estás contente e com aquele sorriso que fazia derreter os corações mais duros. Que bonita eras, Mãe.

Depois, despeço-me de um trabalho garantido no meio de um país em crise e sinto-me desamparado. Lembrei-me, nesse dia, enquanto falava com o Pai ao telefone, que foi precisamente aquele trabalho que ditou o nosso afastamento, já perto do final. Quando não estava a trabalhar, fingia que estudava e os telefonemas eram cada vez mais curtos. Tu nunca disseste nada, pois atendias o telefone sempre com a mesma alegria na voz, sem nunca deixar transparecer o que quer que fosse cá para fora. Como me arrependo de não te ter telefonado mais, Mãe.

Depois, volto a sentir-me desamparado por outro motivo qualquer e sinto a falta do teu amparo. Desculpa-me a redundância, mas haverá forma de alguém me amparar como tu o fazias? Não me parece. Tenho saudades de quando nos amparávamos, Mãe.

Depois, apaixono-me pela mulher da minha vida e não consigo ser plenamente feliz, apenas por não te poder dar conta do afortunado que sou. Ah, se tu a visses, Mãe! Tem uns olhos que nunca mais acabam e uma expressão que sempre me causou tremeliques nos joelhos (imagina tu, eu a tentar disfarçar os joelhos a tremer…). É uma grande Mãe. Tão grande que faria de ti uma sogra orgulhosa. E sortuda também, por teres os teus netos tão bem entregues.

Depois fico triste porque se avizinham duas grandes alegrias que, ainda que incomparáveis, te deixariam orgulhosa. Em Março nasce o teu segundo neto. Se for tão bonito e desenrascado como o irmão, vou ter de andar constantemente com uma marmita debaixo do queixo, para acumular a baba. Mais tarde, em Maio, serei finalmente licenciado, o que em termos profissionais não vai significar nada, mas pronto; o canudo já ninguém mo tira.

Falar-te-ia dos meus irmãos, mas estou certo de que eles, cada um à sua maneira, também falam contigo todos os dias.

Eu, por muito que queira e me esforce, nunca vou conseguir debelar o sentimento de injustiça da tua partida. Também nunca vou conseguir deixar de me sentir uma criança, quando penso em ti (é assim que me sinto agora, enquanto escrevo). Resta-me pedir-te desculpa por esta carta de aniversário mais triste, mas a verdade é que já tinha mesmo passado algum tempo, e eu não estava preparado.

 

Agora, vou para casa ouvir o Postal dos Correios, dos Rio Grande, a tua música favorita.

 

Feliz aniversário, Mãe.

8 Replies to “Feliz aniversário, Mãe.”

  1. Ao fim de tantos anos, que já são mais de 11 (tantos, tão poucos, uma eternidade), amanhã será um dia duplamente feliz. Será o dia dela e também o dia do teu irmão. Hoje falo-te por aqui, porque se há dias que se passam menos mal, outros há que nos dão mais que fazer, e é de olhos mais que turvos que tento digitar palavras correctas. Obrigada. Pelo girassol também

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  2. Pois é, Rui!…11 anos de ausência, mas aqueles olhos verdes profundos e brilhantes, a crítica mordaz mas sempre assertiva, os cheiros dos perfumes, a mão amiga continuam presentes num cantinho especial do meu coração.
    Partiu e levou com ela um pouquinho de mim, mas deixou-me as marcas de uma amizade que perdura até ao infinito. Tu entre nós eras apelidado de “batatinha doce”, por isso não me estranha a sensibilidade e doçura dos teus textos! Sigo a tua escrita e tenho a tua obra de poemas, que me foi oferecida pela outra nossa grande amiga. Sou a tia São, que muitas vezes afagou os teus caracóis louros….

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    1. Tia São! Que saudades que eu tenho desses tempos (dos afagos nos caracóis nem tanto…). Gostava muito de voltar a vê-la passados estes anos todos. Um grande beijinho

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