Desabafo número dois

person holding white paper and typewriter
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Sempre que me proponho escrever um texto sigo à risca, e sem excepção, uma série de regras para que o mesmo ganhe corpo e forma. Essas regras são: escrevo-o.

Pode parecer tarefa simples e corriqueira, escrever um texto. Pode também parecer arrogante o meu chico-espertismo ao afirmar que simplesmente escrevo, sem fazer mais nada. Mas é a verdade. O processo da escrita deve ser isso mesmo, um processo. Eu sempre tive um problema com processos, e apenas hoje me dei conta disso. Pelo menos em relação à escrita. Como dizem os bifes que vivem no Algarve, mas também os que habitam em terras da sua Majestade, bear with me, que havemos de chegar a alguma conclusão.

Neste momento já tenho um livro publicado e duas ou três mãos cheias de textos que vou partilhando aqui no blogue. Todos e cada um deles foram feitos “em cima do joelho”, sem qualquer tipo de preparação, ou trabalho, se assim lhe quisermos chamar. E fiz mal. E só hoje me apercebi disso. Tenho também uma gaveta que é só minha, e o que lá está dentro só eu é que sei.

E por isso aqui estou, mais uma vez, a partilhar a minha surpresa diária com o processo criativo com vocês, os meus estimados leitores (quem me lê já não são apenas pessoas cujo nome acaba em Carmo, ou em Vivas. Já tenho, pelo menos, dois ou três leitores que nada têm a ver com a minha família, e que até comentam e partilham o que escrevo. Cada vez que isso acontece, fico com aquela sensação de dever cumprido. Agora, vou parar por aqui, pois esqueci-me que tinha aberto parênteses.).

Dizia eu que fico com uma sensação de dever cumprido. Ora, estes shots mais ou menos filosóficos que aqui vou deixando mais não são do que uma forma de eu dizer que escrevo, sem realmente o fazer. Confuso? Eu explico.

Na minha inocência de adolescente, altura em que comecei a dar os primeiros passos na escrita, deitado na minha cama e a olhar constantemente para o tecto à procura de qualquer coisa, acreditava que a escrita provinha da inspiração. Entretanto cresci, tornei-me adulto e muitas coisas na minha vida deixaram de ter aquela cor que tinham no tempo da adolescência: um arco-íris de sensações incompreendidas que criavam no meu jovem cérebro dúvidas existenciais que hoje me parecem ridículas, pois já mandei por água abaixo uma grande parte dessas dúvidas. As que sobraram nem me dignei a olhar para elas. Por outras palavras: marimbei-me para o meu “eu” adolescente.

Há alguns anos (talvez uns quinze, não sei bem precisar), quando comecei a dar os primeiros passos em prosa, fui para o único sítio que, ainda hoje, acredito ser detentor de todo o conhecimento: a biblioteca. Sinceramente, não sei se está lá todo, mas a grande maioria está. E entre toda a sabedoria que por lá pernoita, encontrei uma frase que passou a definir o escritor que ainda não sou: “se os escritores dependessem de inspiração, as prateleiras das bibliotecas estariam vazias.” Não me recordo de quem disse isto, nem tão pouco de onde li a frase. Mas lembro-me muito bem de ficar a matutar na mesma e, mais uma vez fiel a mim mesmo, de tentar contrariá-la.

E isto de contrariar só por contrariar não vale nada. Como costumo dizer ao meu filho, debaixo do olhar pasmado da minha mulher (que não compreende o código masculino que existe entre mim e ele), “há que fazer as coisas com propriedade.”

Enquanto adulto que sou, ou que me julgo, páro um pouco e olho para trás. Tento recordar o jovem que era e os sonhos que tinha. Para além do Amor, a única coisa que alguma vez me fez suar o intelecto foram, realmente, as palavras. Mas esta anarquia tem de acabar! Tenho plena noção de que, ao afirmar algumas destas coisas, estou a ir contra quase tudo o que sempre defendi. Mas acredito que a isso também se chama crescer. E se significar crescer enquanto escritor, tanto melhor.

Desengane-se o leitor que estiver neste momento a pensar que vou começar a escrever como um mecânico que conserta o carro sem ter de olhar para o que está a fazer. Continuo a não acreditar na escrita mecânica e tudo farei para que todas as palavras que nascerem desta dança constante entre o pensamento e o acto da escrita propriamente dito tenham algum resquício de alma, ou de sentimento.

Caso não o faça, corro o risco de deixar de ser eu e passar a ser um desconhecido. E isso não quero fazer, pois eu gosto muito de mim. A sério!

Mas que algo tem de mudar, tem. Não é preciso mudar tudo de uma vez. Pode ser aos poucos. Poder ser através (novamente) de um processo. Vou começar a ser menos anarquista e mais democrático, pois acredito que posso ganhar alguma coisa com isso (nem que seja as próximas mil palavras). Vou aproveitar a fase académica que estou a passar e o tempo que passo na magnífica biblioteca da Universidade do Algarve (não estou a ser irónico) para tentar arranjar uma forma de ser eu mesmo e de conseguir escrever sem estar inspirado. Por outras palavras: tentar mecanizar o meu pensamento, sabendo de antemão que o coração é imecanizável (sugestão de palavra para a próxima revisão do Dicionário de Língua Portuguesa).

Afinal, estou em crer que o outro tipo tinha razão. E se bem que não pretendo tornar-me num Rodrigues dos Santos, não me importava nada de chegar aos calcanhares do Peixoto, ou mesmo de roçar o dedo mindinho do pé do Pessoa.

Se com este trabalho conseguir algum destes objectivos, pode ser que mais cedo do que tarde comece a acreditar na parte que diz “escritor” na minha assinatura de e-mail, ao lado de “tradutor” e de “blogger”. Se não o conseguir, pelo menos não me poderão acusar de não ter tentado.

 

Entretanto, e para os mais distraídos: Não, não era este o texto que tinha previsto para esta semana! Quando for a altura certa, saberão o porquê.

 

Até para a semana.

3 Replies to “Desabafo número dois”

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