A mamoca saltitante

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Na sequência do artigo da semana passada, esta semana vou tentar dar-vos uma ideia do que foi para mim a primeira semana de aulas. Pormenores a reter, para quem não me conhece: Tenho trinta e oito anos. Sou pai de um miúdo de quase três anos. Estou a tomar ansiolíticos para me manter calmo e sem vontade de fumar um cigarro inteiro de uma só passa. É a terceira vez que estou inscrito num curso superior. Sofro de fasciculações.

Apresentações feitas, começo por dizer que este não será, como o anterior, um texto negativo. A vida também tem coisas boas e apesar dos pesares e da falta de vontade de frequentar este antro a que chamam faculdade, os dias até têm sido solarengos. Literalmente. Passei a semana de calções e t-shirt (sem asas de anjo nas costas) a suar abundantemente. Passei também a semana a fazer-me transportar de bicicleta, e fiquei feliz ao perceber que tive de deixar a minha, todos os dias, presa a uma árvore, pois os bike-racks estavam todos ocupados.

Logo na primeira aula tive uma agradável surpresa: apercebi-me de que ia passar o próximo semestre com a versão feminina do Big Lebowski. Volvidos dezanove anos, a professora não mudou nada! A aula começou quinze minutos depois do que era suposto, pois a duderina (ou dudette, para os mais puritanos) não conseguia encontrar forma de pôr o projector a funcionar. E já se sabe, sem projectores não se dão aulas. É aliás senso comum que antes de serem inventadas as máquinas dos acetatos não havia escola. Mas vá, eu até gosto dela. É extremamente fofinha.

Vinte minutos depois do começo da aula (ou seja, trinta e cinco minutos), abre-se a porta de rompante e entra uma manada de bestas (assim se denominam os caloiros), trazidos pelos académicos, com o seu ar solene e imperativo (afinal, já não são bestas). Agora que a sala está meio cheia, a temperatura começa a tornar-se insuportável. O ar condicionado não funciona e começo a suar. Fico a suar ainda mais quando, desprevenido, olho para o meu lado direito e vejo, lá do outro lado da sala, uma mamoca a saltar para fora de uma peça de roupa cuja designação eu desconheço. Só sei que quase não tinha tecido. Não sei como é que aquilo aconteceu, e espero que a menina não me tenha visto, pois fiquei deveras pasmado com aquela alva e saltitante forma arredondada.

A mamoca saltitante deixou-me nervoso, mas ao mesmo tempo curioso. O que levará meninas tão novas a usar “roupa daquela” e decotes tão pronunciados? Sim, durante esta semana fartei-me de ver soutiens e blusas rasgadas. Não, não me estou a queixar! Simplesmente não compreendo.

Outra coisa que não compreendi, e ainda no campo da moda, foi a blusa da minha colega da frente. Confesso que naquele momento fiquei preocupado, pois a piquena tinha a blusa ao contrário! Viam-se as costuras todas e a etiqueta roçava-lhe levemente no pescoço. Mas rapidamente o mistério se desfez, pois ao olhar para as duas colegas à sua esquerda, reparo que também têm as etiquetas de fora. A saber, da direita para a esquerda: Stradivarius, Mango e Bershka, respectivamente. Ah, as modas!

Basicamente, na primeira aula não aprendi nada de académico. Mas estou muito mais versado em moda feminina! Gosto especialmente das pitas, com dezassete ou dezoito aninhos, com t-shirts de concertos dos AC/DC de mil novecentos e setenta e oito.

Passando agora a assuntos mais sérios, foi na segunda aula do dia que fiquei finalmente a saber por que é as aulas nunca começam a horas. Ora, existe aquilo que se chama o academic start, que é uma forma pomposa de dizer que a aula só tem de começar quinze minutos depois de começar. Parece confuso, mas não é. Tanto os professores como os alunos têm quinze minutos de academic start e, só depois de imbuídos de academismo, a aula é “obrigada” a começar. Numa aula de duas horas, em que os alunos saem vinte minutos mais cedo por causa do descanso, restam uma hora e vinte e cinco minutos efectivos de lição. Isto se o projector funcionar, claro! Parvo sou eu, que chego sempre a horas e ando mal informado.

Isto tudo só nas duas primeiras aulas.

Mas foi a terceira aula a que me deixou a pensar se simplesmente tive azar nos professores que me calharam, ou se simplesmente tiver azar… nos professores que me calharam. Então não é que a professora anuncia que, durante o próximo semestre, as suas aulas irão consistir em debates e trocas de ideias, durante os quais ela averiguará se nós, inocentes seres sedentos de saber, estamos no bom caminho no que diz respeito ao desenvolvimento do pensamento crítico. Porra, pá! Onde estavas quando eu tinha dezanove anos, hein?

Mas as surpresas não acabaram.

No segundo dia de aulas houve mais apresentações. A meio da primeira aula fiquei a saber que a professora quer que o método de Cambridge vá dar uma curva e informa os seus ávidos discentes de que durante os próximos quatro meses seremos nós, e não ela, quem mais vai falar nas aulas. Vamos ler artigos, textos, livros, poemas e até representar peças de teatro. Oh Captain, my Captain! Fiquei tão entusiasmado que quase me inscrevia no jantar de curso desta quinta-feira. Mas depois lembrei-me dos trinta e oito, e do filho, e… da vidinha.

Resta-me falar da última surpresa, que teve lugar no terceiro dia de aulas. Ao entrar na sala de aula, à hora marcada, qual não é a minha surpresa quando vejo um rapaz que conheço muito bem, e que inclusivamente por mim foi praxado há quase vinte anos. Quase que o tratava por tu, mas rapidamente me apercebi de que ele estava sentado no lugar do professor. Mentiria, se dissesse que não senti um pouco de inveja, pois sempre sonhei ensinar literatura numa universidade. Não é o caso, pois ele ministra outra cadeira. E fá-lo muito bem, diga-se de passagem. Ainda por cima é interessante (a cadeira), e vai fazer com que escreva mais e, se tudo correr bem, melhor.

 

No meio disto tudo, e nos intervalos entre aulas, ainda traduzi quinze mil palavras e fiz revisão de cerca de sessenta mil. Coisa pouca, para um tradutor experiente (e sem diploma), como eu. No meio disto tudo, e nos intervalos entre dias, adorei chegar a casa e abraçar o meu filho, beijar a minha mulher.

Afinal sou um tipo cheio de sorte. Cansado, mas cheio de sorte. E não sabia.

 

Até para a semana.

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