Manifesto

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Esta semana vou falar-vos de um assunto que já me encheu o nariz de mostarda tantas vezes que, quando inspiro, começo a ver tudo amarelo: a universidade, ou para ser mais exacto, a Universidade do Algarve e o clássico regresso às aulas (sim, tenho trinta e oito anos e ainda não tenho um curso superior. Se soubessem de metade da história…).

Para contextualizar, vou começar por dizer que, no último ano lectivo, fui um menino bonito e passei com aproveitamento a todas as cadeiras que me propus fazer. Houve três cadeiras que decidi, passado pouco tempo, que iriam ser o berbicacho daquele ano, mas mais à frente me debruçarei sobre elas. Quando digo que passei com aproveitamento, não estou a mentir, pois tive inclusivamente o primeiro vinte da minha vida. Aos trinta e sete anos.

Resumidamente, das oito cadeiras a que me inscrevi, passei a seis, sempre com boas notas. As outras duas, por motivos diferentes, passaram à história.

E passaram à história porque eu decidi, depois de até ser gozado pelo corpo docente da faculdade, que estava na hora de dizer um rotundo BASTA e dar a volta à coisa, ou pelo menos tentar fazê-lo, de outra forma. E fui gozado porquê? Por ter escrito uma carta ao Conselho Pedagógico daquela instituição, onde com toda a humildade do mundo me prostrei perante as magnânimas individualidades e os inigualáveis intelectos de quem a dirige e pedi para me darem equivalência às duas cadeiras que eu sabia, como continuo a saber, serem (quase) impossíveis de fazer. Trocado por miúdos: baixei as calças, e deixei as meninas do Cê Pê gozarem com o meu rabo sem pêlos, mas com uma ou outra borbulha.

Escusado será dizer que, mesmo com os meus mais de dez anos de experiência a trabalhar numa área que só em Portugal pede diploma, mesmo com os mais de trezentos créditos completados no mesmo curso – em diferentes ramos, mas no mesmo curso -, sendo que uma licenciatura equivale a cerca de duzentos créditos. Mesmo depois de passar pela vergonha de me rebaixar àquele conjunto de energúmenos que há vinte anos nada mais fazem senão dar cabo de todo um departamento de línguas que tinha (e tinha mesmo!) tantas possibilidades de evoluir e fazer algo de positivo em campos tão diversos como a cultura, a literatura e a linguística. Mas não. Em vez disso, ali continuam, a definhar, convencidos de que se se mantiverem quietos por mais vinte anos, a faculdade se auto-renovará. O pedido foi recusado.

 

Aqui faço uma pausa, sob pena de partir o monitor. Volto já.

 

Mais calmo agora, volto para continuar a minha história. E para tal vou falar-vos do professor que vai para as aulas com uma t-shirt com asas de anjo (nas costas, claro!), que sabe falar fluentemente a língua de Mordor, e que desde mil novecentos e noventa e nove (ano em que dele fui discente pela primeira vez) tem vindo a destruir a capacidade crítica e a evolução intelectual de turmas atrás de turmas de jovens. Só que desta vez não. Para não me alongar muito sobre esse palerma, direi apenas que, no último exame da cadeira que ele lecciona e ao qual compareceram mais de quarenta alunos (é a única cadeira da faculdade que precisa de duas folhas para afixar resultados…) se dirigiu aos alunos antes da prova começar e disse: “Podem ligar os computadores, ir ao Google, falar uns com os outros, pois não quero saber”. Tal não é a certeza que ele tem que quase ninguém passa (aprovaram duas pessoas, em mais de quarenta). Isto é assim. Há vinte anos.

 

Faço nova pausa, pois só de me lembrar da cara dele… Volto já.

 

Já cá estou. Esta demorou um pouco mais, mas teve de ser. Tinha de me recompor para poder continuar este manifesto. Adiante.

A história não vai terminar com este texto, pois a decisão que tomei no final do ano foi a de não comparecer aos exames a que tinha direito, por saber que não ia passar a nenhum deles. Esqueci-me de referir que, nas suas disciplinas, o professor da t-shirt com asas de anjo ministra matéria de sua autoria, aglomerada numa teoria linguística que ele até ao Brasil já levou mas não há meio de lha aceitarem como válida. Apesar disso, ainda fui falar com ele, inocentemente à procura de uma luz, de uma ajuda, mas imaginem: tinha mais que fazer, não me podia ajudar. Foi-se a luz.

Mas entretanto fez-se luz!

A resolução desta verdadeira demanda começa na próxima segunda-feira, dia em que terá início o meu último ano lectivo naquela universidade (e em qualquer outra, já chega). Mudei de curso! Troquei as duas cadeiras do energúmeno por sete disciplinas de inglês, que em princípio não terei (tanta) dificuldade em fazer e que até me convêm mais em termos profissionais. Sim, leram bem: troquei duas disciplinas por sete. Esta decisão só pecou por tardia. Vou ter um ano (im)possível em termos horários, mas vou conseguir!

Em Maio de 2019 serei licenciado em Línguas Literaturas e Culturas – Inglês/Espanhol. Talvez no dia em que termina a minha aventura académica se faça justiça e, como sugeriu a directora de um curso “vizinho” e que gosta muito de mim, a faculdade dê o meu nome a um corredor, ou a um anfiteatro! Espero que o façam, para poder recusar.

Para terminar, apresento uma sugestão para alterar o slogan da Universidade do Algarve, na qual foram colocados mais de mil alunos só na primeira fase de candidaturas deste ano. O slogan diz “UAlg, Estudar onde é bom Viver”. A minha sugestão:

UAlg, tá-se bem no Algarve, pá!

 

Até para a semana.

 

 

 

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