No tempo em que…

 

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No tempo em que eu ia à praia com os meus pais, cabiam dois adultos e três crianças num carro normal, mais a bagagem e menos o ar condicionado. Cabiam também as malas todas no porta-bagagens e cabia ainda, com um pouquinho de boa vontade, aquele brinquedo que tinha mesmo de ir, sob pena de as férias se estragarem completamente. Escusado será dizer que o brinquedo raramente era usado, mas não interessa, tinha de ir.

Escusado também será dizer que o destino era o Algarve (pelo meio da serra, à homem).

Hoje, fazer uns dias de praia com a minha mulher e filho pode parecer, para muitos, uma verdadeira loucura, a começar pelas “coisas da praia”, que mal cabem na mala do carro. É a mochila de campismo, preparada com zelo de mãe (nunca tentei chegar ao fundo da mochila para ver o que há lá dentro que a faz pesar tanto, nem nunca vou tentar). É o guarda-sol normal e o guarda-sol xis-pê-tê-ó, que protege do vento e do sol, e que depois do meio-dia também protege da vista do mar, não vá uma pessoa ficar cega a olhar para ele. Segue ainda a geleira com vários tipos de fruta, água e as coisas normais de hoje em dia, para quem faz praia com um puto de dois anos e troca o passo.

Importa aqui fazer uma pausa e paragrafar, pois a lista será longa.

Para além disto tudo, ainda têm de caber as duas malas da mãe e o saco do pai (a desculpa que leva a roupa do miúdo já não cola). Finalmente, seguem dois sacos gigantes, um do Lidl e outro do Pingo Doce (se a memória não me falha), com todo o tipo de bafamedes de praia e artigos de primeira necessidade. Tipo toalhitas. Não esquecer – como poderia! – o carrinho que o puto nunca usa e, cereja no topo do bolo, a bicicleta que, nesta última viagem, serviu para o gaiato se espetar de frente contra um poste e fazer um belo dum dói-dói na boca: daqueles que precisam de colo de mamã.

No tempo em que eu ia à praia com os meus pais, ficávamos na zona concessionada. Havia também a zona dos guarda-sóis, e ponto. Não havia mais nada. A única coisa para além destas era o mítico homem das bolinhas, que ainda hoje passa, sendo que há os que declamam quadras, há os que gritam como se a hemorróida estivesse prestes a explodir, e há os romenos que apenas dizem “bola” (com ó fechado).

Hoje, chegar a uma praia como a Praia da Rocha é, no mínimo, um espectáculo para os olhos. A tapar a praia toda (não vá uma pessoa ver o mar antes de chegar à dita e, pasme-se!, desistir), há um café-bar-restaurante-discoteca-piscina que ainda por cima tem zonas de chill-out, e verdadeiras camas de casal viradas para o Oceano Atlântico. Aquilo sim, seria fazer praia em estilo: passar um dia inteirinho sem meter os pés na areia!

Por detrás desse café-bar-restaurante-discoteca-piscina, julgava eu na minha inocência, que devia haver a famosa Praia da Rocha. Mas não! Há palhotas que vão quase até ao molhe e, na pequeníssima zona que sobra, há um corredor delimitado com cordas, que serve para levar aglomerados de veraneantes para as actividades “náuticas”. Já explico as aspas.

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Eu estacionei o meu estaminé, e a minha família, na sobra de areia que resta no meio daquilo que tudo e que, obviamente, não deu para montar o guarda-sol xis-pê-tê-ó, só o normal (inserir aqui emoji de semblante triste). Escusado será dizer que às dez horas da manhã já tinha o cotovelo de uma romena a raspar-me no cocuruto e um casal de putos aos melos a cinco centímetros de onde o meu piqueno brincava com o clássico balde na areia. Para completar o ramalhete, e depois de ter mergulhado em pé pela primeira vez na minha vida (tal não era a falta de espaço), volto para a toalha e sento-me para admirar o mar. Mas a única coisa que consigo admirar é o gigantesco insuflável que ocupa todo o meu campo de visão e me regala os olhos com os tais grupos de veraneantes à procura de emoções fortes no mar.

Mas às dez e meia em ponto é que começou a festa, quando o café-bar-restaurante-discoteca-piscina abriu ao público (atrasado, pois é suposto abrir às dez) e, sem pedir opinião a ninguém, toca de bombar Bob Marley remixado e com os graves tão altos que, dez minutos depois, a minha família estava a voltar para casa.

No tempo em que eu ia à praia com os meus pais não reparava nas coisas como agora. Mas ah!, se a praia não era mais bonita! E sossegada! Era isso que nós, os alentejanos, vínhamos fazer para o Algarve: sossegar depois de um ano de labuta. Hoje a praia é avecs de manhã e sunsets às cinco da tarde. Hoje ainda há muitas praias que escapam a esta descrição, mas são cada vez menos.

 

Hoje, que sou já mais algarvio do que alentejano, a regressão do espaço balnear deixa-me triste (e não falei do lixo, dos roubos, das constantes faltas de respeito para com o próximo e para com o meio ambiente). Também não falei do difícil que foi encontrar um sítio com uma bica decente!

No tempo em que eu ia à praia com os meus pais o que destoava, num dia normal, era um surfista espontâneo, ou um iate a passar lá ao fundo. Hoje, destoa tudo. Até o mar.

No tempo em que eu ia à praia com os meus pais, sonhava com ir à praia com os meus filhos. Hoje, já sei que à Praia da Rocha não volto (e a mais um par delas). Espero que as que ainda sobram (há tantas) se consigam manter o que, a meu ver, são: paraísos de relaxamento e de contemplação. Se puder ser em família, tanto melhor.

 

E agora? Como faço para voltar ao tempo em que ia à praia com os meus pais?

 

Até para a semana.

 

 

 

 

 

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