Aranha-do-mar

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Sentei-me à beira-mar e uma aranha-do-mar pavoneou-se pela minha perna como se eu não estivesse ali. E se calhar não estava.

 

Coisa que não fazia há muito tempo, decidi aproveitar a sesta da minha mulher e filho para me escapulir da posição de pai de família (quem não souber em que consiste, estou disponível para esclarecimentos) e dirigir-me até à beirinha da água, ali, naquele sítio em que quase molhamos os pés, mas não.

Não sei o que me deu, pois não tenho andado especialmente meditabundo, ou pensativo ou pensabundo? O que é um facto é que o fiz sem sequer pensar no que estava a fazer. Isso, ou fi-lo porque estava um calor do caraças. O que importa é que me levantei e fui. Sentei-me em posição de chinês, ou de pernas cruzadas, e até podia aparentar estar a meditar, não fosse a enorme curva que as minhas costas fazem quando me sento naquela posição (como lamento não te ter dado ouvidos, Mãe).

 

Sentei-me à beira-mar e uma aranha-do-mar pavoneou-se pela minha perna como se eu não estivesse ali. E se calhar não estava.

 

Digo que não estava ali, não por me encontrar a meditar, ou coisa que o valha. As minudências da mente são coisa que não domino e, apesar de parlamentar muito com ela – a mente – não creio ter a capacidade intelectual necessária para dissertar sobre o assunto. Ora Eça!

Talvez não me encontrasse ali por estar distraído com qualquer coisa. Quiçá um biquíni mais atrevido a passar, uma criança a brincar na areia, um barco à vela ou uma traineira. Não, uma traineira não, pois era fim-de-semana. Porventura um casal a jogar às raquetes, um bife a fazer jogging ou a moto quatro do Instituto de Socorros a Náufragos a passar com dois Mitch Buchanan bem agarradinhos e a olharem para a areia, que é a parte perigosa. Isso, ou simplesmente por uma coisa que há muito tempo não fazia, e que é admirar a poesia do movimento lânguido do mar que, assim como acontece com o fogo, nunca se cansa de me hipnotizar.

E deve ter-me mesmo hipnotizado, pois saí da praia com um valente escaldão nas costas. Não sei quanto tempo ali estive. Sei que mudei algumas vezes de posição, alternando entre a pose de Buda e a de campeão da praia (deitado, barriga que nem uma barra de ferro, calções ligeiramente puxados para cima, cotovelos bem assentes na areia e o olhar sempre bem fixo no horizonte). Independentemente da posição, o que me apraz destacar desta situação é o tempo. Não o vi passar.

 

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Sentei-me à beira-mar e uma aranha-do-mar pavoneou-se pela minha perna como se eu não estivesse ali. E se calhar não estava.

 

Já escrevi tantas vezes sobre o mar e o seu poder de nos deixar fora de nós, num estado muito próximo do transe ou da meditação (aqui, novamente admito, estou a explorar campos desconhecidos). Já estive sentado à sua beira e, deslumbrado pela sua magnificência, escrevinhei uns quantos versos no meu bloco de notas, sempre com a sensação de que as minhas palavras não lhe faziam justiça. Afinal, como se representa algo magnífico? Alguém sabe?

Outra coisa que nunca consegui fazer foi compreender a perda da noção do tempo. O olhar para o mar, e permitam-me aqui a pluralidade, faz-nos ficar mais velhos mais depressa. Não sei se gosto disso! Então afinal, que direito tem ele de me retirar tempo de vida? Quem lhe encomendou o sermão? Talvez seja por isso que não o fazia há tanto tempo. Estou a ficar velho.

 

Sentei-me à beira-mar e uma aranha-do-mar pavoneou-se pela minha perna como se eu não estivesse ali. E se calhar não estava.

 

Não estava mesmo. Viajei para qualquer lado, e só acordei quando senti as quase imperceptíveis patinhas da aranha-do-mar a fazerem-me cócegas na barriga da perna. Curiosa, a forma como olhei para ela e a deixei estar ali, a desfrutar da minha farta e musculada pernoca, tal não era o marasmo em que me encontrava submerso.

E foi assim, prostrado à beira-mar a ser coçegado por uma aranhita que nem teve a decência de se apresentar, que se fez luz e finalmente percebi o que estava ali a fazer. Não sei se terei descoberto o sentido da vida, mas acho que fiquei lá perto. De qualquer forma, a descoberta que fiz foi deveras interessante.

 

Agora, é mais do que óbvio que não vos vou contar, não é?

 

Bom fim-de-semana!

 

 

 

 

 

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