Que fazer, quando tudo arde?

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Hoje é noite de me sentar à frente do ecrã e de cumprir o compromisso semanal que tenho comigo próprio e com aqueles que me leem. Até tinha pensado num texto “bonito” e em continuar a minha cruzada da procura do belo. Mas não consigo.

Já aqui há tempos escrevi sobre não me apetecer escrever, e se bem que hoje não é o caso, passa-se algo de bastante parecido, mas por motivos diferentes.

Passa-se que com tanta aberração a acontecer lá fora, no mundo do qual apenas vejo um pedacinho aqui, da minha janela, pergunto-me para que importa aquilo que eventualmente escreva? Para que servem as palavras que aqui junto? Qual é o objectivo, afinal, da procura do belo de há duas semanas ou do Amor da semana passada?

De que servem os textos sobre deixar de fumar ou sobre as cuecas do meu filho? Para que servem a procura dos laiques, os pedidos de partilhas, as mensagens para família e amigos a insistir que vão ler, sempre à procura de um reconhecimento tão fugaz como a beleza da serra algarvia? Para que serve tudo isto, quando tudo, lá fora, arde?

“Que farei, quando tudo arde?”, perguntava Lobo Antunes.

Pois não sei, António, o que tu farias.

Sei que ao ver tudo arder sou, eu também, consumido pelas chamas. Parece que fico sem a habilidade de pedir às palavras que me guiem as mãos na direcção do final do texto. A cada palavra que escrevo, quantos metros mais já arderam? Quantas pessoas ficaram sem casa? Quantos animais sufocaram, presos a um mundo que os relegou às correntes dos quintais, que os chama de “melhores amigos” e que se serve deles para se alimentar, para se fazer transportar e para tudo que mais. Depois, quando tudo arde, ficam para trás. Sozinhos. Abandonados.

Ao ver tudo arder sinto-me triste. Por não conseguir encontrar um motivo, por suspeitar do fogo-posto e de quem o pôs. Por perceber que a hipocrisia derrota todos os dias a perseverança, que a astúcia leva a melhor sobre a inocência, e que a maldade dá uma carga de porrada a todos os seres que transportam dentro de si alguma faúlha de bem. Por perceber que não há nada a fazer contra os criminosos que continuam a pintar o nosso país de cinzento.

Ao ver tudo arder sinto que também eu sou, de alguma forma, responsável, e irrita-me tanto não saber porquê!

E tudo arde, mas não apenas no sentido literal.

O noticiário que vi hoje falou durante quase uma hora sobre o incêndio que fustiga a serra de Monchique desde sexta-feira. Depois, passada essa hora, a notícia que se seguiu foi sobre um casal de alemães que vendeu o seu filho para pornografia infantil, sendo que passaram vários anos a abusar sexualmente da criança. Depois fartaram-se, e decidiram vendê-la. Ah, e gravaram tudo.

Depois, mais incêndios, mais pessoas a morrer, mais casas a arder, mais animais indefesos e um céu que nenhum efeito especial do cinema conseguiria tornar mais vermelho, mais infernal. Falo do abominável incêndio que já lavrou uma área equivalente à cidade de Los Angeles, lá na terra dos livres, no lar dos corajosos.

Depois, desliguei a televisão.

Há muito tempo que resolvi deixar de ver notícias, mas de quando em vez lá me deito no sofá e ali fico a observar o Admirável Mundo em que vivo. Sim, eu também faço parte dele. A resolução que fiz prendeu-se tão simplesmente com o facto de não querer, constantemente, estar a ver desgraças! Afinal, se prestarmos atenção (e não, não é só no canal do Correio da Manhã), são só desgraças!

Lembro-me como se fosse hoje de quando tomei essa decisão. Não me recordo do ano, mas foi durante o início da crise dos refugiados e em que, durante uma notícia, e apesar dos avisos do Guedes de Carvalho, não fui a tempo de desviar os olhos, para não ficar com aquela imagem impregnada na minha cabeça para nunca mais de lá sair: a de um menino, não muito mais velho que o meu filho, morto à beira-mar. Tinha um kispo vermelho.

Nunca me vou esquecer daquele menino, assim como nunca me irei esquecer do olhar deste bambi, que não podia ter sido capturado em “melhor” altura.

Bambi

Para terminar, faço minhas as palavras do jornalista, Bruno Filipe Pires (a quem agradeço a simpatia e a cedência da fotografia), que para além de ter capturado um momento que tem tanto de brutal como de belo, ainda teve a sensibilidade de rematar com uma frase que me tocou profundamente, e com a qual termino o texto desta semana:

“Oxalá sobrevivas, amigo! E que Monchique se torne de novo uma visão bela.”

Até para a semana.

 

 

 

 

 

 

 

 

5 Replies to “Que fazer, quando tudo arde?”

  1. Mais recentemente também tomei a decisão de deixar de ver notícias. Há muito mais no mundo do que o formato a que elas nos confinam: o das desgraças! Se bem que, todas elas (as ditas desgraças), como é o caso dos incêndios, são um convite à mudança de comportamentos. Torço para que a humanidade se vá tornando mais capaz de o aceitar.
    Creio que o estamos a fazer! 🙂

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  2. gostei de ler: que fazer quando tudo arde? Uma tristeza cá dentro, uma dôr de saber que a humanidade está condenada! Fogos postos? Loucura colectiva. ? É melhor não ver noticias e sonhar que nada aconteceu!Um beijinho!

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