A procura do belo, ou porque raios me dou ao trabalho?

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No texto desta semana vou falar de algo que muito me apraz. Não é um tema, não é um assunto, nem sequer é um debate de sexta-feira à noite numa qualquer tertúlia literária. Hum, esta última até tem alguma potencialidade de, efectivamente, ser. Entre muitas e tantas outras coisas que poderia ser, vou limitar-me a abreviar a lista e a dizer que não é um avião, não é o Super-homem e não, também não é o twister!

Perguntas-me então, caro leitor: Mas de que raios estás a falar, Rui?

Eu respondo, com muito gosto: Ainda bem que perguntas! Estou a falar de um conceito que me parece perdido no tempo: o da beleza na escrita. E o motivo pelo qual este conceito se tornou assunto prende-se tão simplesmente com uma pergunta que me fizeram recentemente: Porque escreves?

Importa aqui ressalvar duas coisas. Em primeiro lugar, eu teria respondido directamente e resolvido a questão naquele momento, não tivesse a certeza de que a pergunta era uma pescadinha de rabo na boca, e daquelas matreiras. Quem me fez a pergunta, fê-lo com um aguçado sentido irónico, daqueles que muitas vezes passam pelas entrelinhas, se esgueiram pelos intervalos da chuva, sem nunca ninguém dar por eles. São também conhecidos como hipócritas, ou invejosos. Ou hipócritas e invejosos.

Em segundo lugar, e porque me faço a mim próprio a mesma pergunta todos os dias (sem a parte da ironia, claro está), pelo facto de estar decidido a fazer uma espécie de regresso às origens, a um tempo em que o escritor valia pela beleza que emprestava às palavras e não pelo número de palavras que conseguia juntar numa página no menor tempo possível.

Agora que penso nisso, e a escrita também tem isto de bom: é inesperada, terei de fazer uma terceira ressalva, e que tem a ver com esta minha luta contra a “escrita mecânica”. Eu não tenho nada contra ela. Não a leio (a não ser que tenha de) e nunca a pratiquei. Tenho plena noção de que isso me pode prejudicar enquanto escritor, mas a partir do momento em que uma palavra não me saia da alma, pararei de escrever.

Que me perdoem os Rodrigues dos Santos, os Chagas Freitas (cujo primeiro livro é, para mim, genial), os Ken Follets e os Dan Browns. Continuem a escrever para os milhões que vos leem, que eu contento-me com os (para já) dez ou onze que me dedicam o seu valioso tempo.

Para concluir as ressalvas, e para confirmar a regra, uma excepção: o Stephen King. Por favor, Stephen, mecaniza-nos à tua vontade!

Num futuro não muito distante, talvez me debruce novamente sobre este tema, que me parece bastante interessante (tão interessante que tenho atrás de mim, enquanto escrevo, uma prateleira onde constam uns dois ou três volumes sobre escrita “profissional”).

Mas por agora importa começar, finalmente, a falar daquilo que me apraz: a beleza na escrita. Não me parece que seja necessário um dicionário para entender a palavra belo. Julgo que todos temos noção de que o belo é algo que provoca – em nós – o sentimento estético. É como olhar para os Arcos da Amoreira ao pôr-do-sol, com um ou dois chaparros escondidos lá ao fundo no planalto. Isso, ou os olhos da minha mãe, são duas definições satisfatórias de algo com a qualidade de belo.

Ora, eu não tenho a arrogância de dizer que aquilo que escrevo é belo, mas tenho a humildade de afirmar que o que pretendo, o que procuro, é que seja. Longe vão os tempos em que dava prazer ler Eça (agora relegado a opção, valha-nos Pessoa!). Idos os dias em que ler um livro à beira-rio tinha tanta poesia em si como toda a obra de Florbela Espanca. Algures, perdidos no tempo, ficaram também tantos outros textos e poemas que a mim me inspiram e me fazem querer continuar a escrever. Sempre com o mesmo propósito: a procura do belo.

Na introdução do meu primeiro livro, tive a ingenuidade (que aliás se estende a todo aquele conjunto de poemas) de começar com a definição de poeta. Usei a entrada de um dicionário, e aquela (a definição) acabava com a seguinte frase: “o que traduz em verso o sentimento do belo”. O que eu pretendo com a minha prosa também é isso, entre muitas outras coisas.

Aquilo que é belo desperta em nós sentimentos. Platão ironizava ao dizer que tanto podemos falar de uma bela panela, como de uma bela rapariga. E é precisamente aí que reside a beleza do belo, perdoem-me o pleonasmo. É também por isso que numa semana escrevo sobre as cuecas do meu filho, e sete dias depois divago sobre o facto de ter partido a minha caneta preferida.

Escusado será dizer que fiquei magoado com as intenções escondidas naquela pergunta. Mas rapidamente lambi a ferida ao lembrar-me de todas as palavras de incentivo que tenho recebido desde que comecei o blogue (que aliás vai contra TODAS as regras da chamada “escrita moderna”, mas isso é tema para outro texto). Lembro-me também muitas vezes do primeiro elogio que alguém fez à minha escrita e de TODOS os que se seguiram, que felizmente foram muitos. Tenho o orgulho de dizer que já me fartei de ouvir que escrevo bem.

Mas escrever bem não chega! “Uma coisa é qualidade da escrita, outra é escrita de qualidade!”. Não podia estar mais de acordo. Às pessoas que pensam assim, a única resposta que posso dar é: o que estás aqui a fazer?

O certo é que vou continuar a escrever, e para a semana cá estarei com mais um texto sobre o qual ainda vou ter de pensar e, sobretudo, trabalhar.

Entretanto, deixo-vos com um excerto do primeiro poema do “meu” primeiro livro, que me parece assentar que nem uma luva no final deste texto:

 

… Escrevo através da tinta que discorre

pelas veias que irrigam a pena desidratada.

Digo porque quem não diz, morre.

E quem o faz nunca o faz sem dizer nada!…

 

 

E obrigado a ti, que me lês.

 

Até para a semana!

2 Replies to “A procura do belo, ou porque raios me dou ao trabalho?”

  1. Partilho a tua opinião! Quanto mais leio mais procuro essa beleza na escrita e menos aprecio escrita técnica (literária) e mecânica! Escreves porque tens esse Dom e porque o fazes Bem, porra!

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