Desabafo.

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Esta semana gostava de desmistificar a ideia que muitas pessoas têm de indivíduos que, como eu, trabalham em casa. Ou pelo menos tentar. E digo tentar porque há coisas nesta vida muito difíceis de explicar, e há também ideias extremamente complicadas de desconstruir.

Mas vamos por passos, que havemos de lá chegar (não sei bem onde, mas não faz mal).

Para o comum mortal, ou trabalhador por conta de outrem, que sai todos os dias de casa à mesma hora e se faz locomover, geralmente de carro, para uma empresa qualquer, cujo ramo ou área não interessam nada para o que estamos a discutir, o facto de eu trabalhar de chinelos, ou de pijama, ou todo nu, se me apetecer, faz-lhe uma comichão atrás da orelha que é um caso sério. E se eu publico nas redes sociais uma fotografia do meu portátil ligado em cima de um colchão de água com o Atlântico de pano de fundo, aí então é que a coisa começa a ferver!

Esse comum mortal, confortável na sua vidinha sempre igual, está convencido de que o verdadeiro trabalhador tem de sair e deslocar-se todos os dias de casa para o trabalho, numa rotina que parece nunca mais acabar e que é a causa de uma boa percentagem das depressões em Portugal (veja-se o caso muito falado, na actualidade, dos professores, só para dar um exemplo).

Outra característica do comum mortal é que tem contrato de trabalho, recebe subsídios de férias e de Natal, tem direito a baixas médicas E psicológicas e, em alguns casos, tem inclusivamente seguro de saúde, bem como uma verdadeira parafernália de regalias. Tem também, a não ser que seja um verdadeiro anormal, direito a subsídio de desemprego, caso seja despedido ou caso a sua empresa seja, por exemplo, levada por uma nave espacial.

O incomum mortal, ou trabalhador independente, ou freelancer, ou eu, tem acesso, no momento em que escrevo este texto, a ZERO dessas regalias. Num futuro breve parece que algumas coisas vão mudar, e ainda bem, pois o facto de eu trabalhar de chinelos não pode, nem deve prejudicar-me. Porque haveria de?

Cada um tem a sua vida e eu não me meto na dos outros. Mas posso falar da minha. Há quase cinco anos que deixei um trabalho que pagava um ordenado razoável e no qual tinha contrato e algumas regalias que já mencionei. Tinha também uns valentes anos de casa. Para não me desviar muito do assunto, digamos simplesmente que me fui embora por escolha minha, os motivos agora não interessam. Aquando da minha saída dessa empresa, já era freelancer há uns anos (cinco, se a memória não me falha). Quer isto portanto dizer que sou freelancer há dez anos e que trabalho de chanatas há cinco.

Os últimos cinco anos ensinaram-me muita coisa, sendo que a primeira e principal é que quem trabalha numa empresa ou noutro lado qualquer não faz a menor ideia do que significa trabalhar de chinelos… É TÃO BOM!

Piadas à parte, nos últimos cinco anos aprendi a desenrascar-me sozinho. E quando digo sozinho é mesmo literal. Os meus dias de trabalho são passados SOZINHO no meu escritório, tendo como única companhia a gata que mora cá em casa e a senhora do café (nos dias em que decido lá ir tomar a bica).

Nos últimos cinco anos aprendi a fazer muita coisa. Aprendi que com um computador e dois monitores (mínimo), o céu é o limite. Houve muitos dias de desilusão, pois já devo ter enviado, à vontade, duzentos curricula vitae digitais desde que comecei a sobreviver como freelancer. Sim, o verbo não está errado. Houve meses que mal sobrevivi e que cheguei a duvidar que conseguiria pagar as contas.

Nos últimos cinco anos não tive mais do que quatro dias seguidos de férias.

 

Mas nunca desisti.

 

Entre uns trabalhos melhores e outros piores, entre contactos constantes com empresas e pedidos de ajuda a amigos, lá me fui desenrascando, mas sempre sozinho, no meu escritório, de chinelos.

E foi sozinho que conseguir chegar onde estou hoje, que julgo ser algures a meio do caminho de onde quero chegar. Neste momento, já trabalhei e continuo a trabalhar com grandes clientes, já traduzi séries que tu, que me estás a ler, é provável que a seguir vás ver (se tiver erros nas legendas, não fui eu que traduzi). Já fui e sou elogiado constantemente pelo meu trabalho, por pessoas que não me conhecem de lado nenhum (nos mais de dez anos que trabalhei na “outra” empresa tive direito a exactamente zero elogios).

Foi também sozinho que construí o meu site, sempre com o Google como o meu melhor amigo. É através desse site que hoje tenho cada vez mais visibilidade no mundo online e será através desse site que os meus futuros clientes poderão conhecer o meu trabalho. O blogue é a parte lúdica do site, onde venho desabafar, ou falar sobre o meu filho, ou divagar sobre o que me apetecer.

E sim, de quando em vez ponho o computador na sacola e vou de bicicleta até ao café, ou até à praia, e passo lá umas horas a TRABALHAR, enquanto apanho vitamina D, à qual também tenho direito.

Hoje o texto já vai longo, e ainda tenho tanto por dizer. Já estava, e continuo, um pouco farto das bocas constantes e dos olhares de certas pessoas (algumas delas minhas amigas!). Já chega! Será que não percebem? O futuro de grande parte do mundo laboral passa por trabalhar em casa! Eu já cá estou. E tu, vais continuar a pensar que passo os dias de perna estendida em cima da secretária e que, no fim do mês, me cai um cheque chorudo na conta bancária?

 

Por favor.

 

 

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