Dá-me um cigarro! (a derradeira)

Já chega!

Nove semanas e mais de cinco mil palavras depois, cheguei à conclusão que, para ser bem-sucedido na minha cruzada, tenho de parar de falar em fumo durante uns tempos. O motivo, caso não seja evidente, é que quanto menos falar e pensar nos paivantes, melhor!

Por isso, chegou a hora de fazer um breve balanço e tentar, por assim dizer, arrumar a casa.

Apesar de ainda não me sentir melhor no que à cabeça diz respeito, em tudo o resto já me consegui aperceber da estupidez que fumar representa: é gigantesca. Fumar é uma estupidez GIGANTESCA. Tu, que fumas, já pensaste nisso? Não? Então vá, acende lá um cigarrinho e pensa bem no que estás a fazer.

Além disso, é um desperdício de saúde. Todos os cigarros que fumei afectaram de alguma forma a minha saúde e, agora que tenho a mania que sou a Rosa Mota dos cinco quilómetros, que jeito que essa saúde me dava!

Sim, poderíamos argumentar que eventualmente vou recuperar a forma física e voltar a ter, no auge dos meus quase quarenta anos, o corpinho de Adónis que tinha há uns anos e que causava furor cada vez que chegava à praia e tirava a t-shirt (há partes desta última frase que poderão não se coadunar totalmente com a realidade), mas isso seria apenas defender o acto de fumar e, portanto, seria estúpido.

Para além de ser estúpido e um desperdício de saúde, é um autêntico assalto à carteira. Sim, caí no cliché de falar do dinheiro que o vício do tabaco custa. Os clichés existem por um motivo, e este é daqueles que fazem todo o sentido, pelo menos na perspectiva em que agora vejo as coisas. Não me dei ao trabalho de fazer contas, mas se tivesse guardado o dinheiro que gastei com os cigarros, hoje já teria concretizado vários sonhos que até agora estão encalhados.

Para além de ser estúpido, um desperdício de saúde e um autêntico assalto à carteira, é motivo de querelas e discussões desnecessárias com quem não fuma. Sim, tive muitas, e raras foram as vezes em que dei a mão à palmatória e admiti que o meu fumo incomodava, de facto, os outros. Inventei muitas vezes argumentos sobre liberdade de fazer o que quero e tretas do género, sem nunca ter parado para pensar como penso agora quando levo com o fumo dos outros (não, não gosto, é horrível). Mais vale tarde que nunca.

Para além de ser estúpido, um desperdício de saúde, um autêntico assalto à carteira e um motivo de querelas e discussões desnecessárias com quem não fuma, é uma forma de, lentamente, nos matarmos. Sim, toda a gente – eu incluído – tem aquele tio ou avô que viveu até aos noventa anos de cigarro na boca. O problema está nos que nem aos cinquenta anos chegaram, ou os que passaram do meio século mas morreram uma morte lenta e dolorosa, despoletada pelo tabaco. Entre essas pessoas encontram-se as que se dispuseram a mostrar os seus cancros para as fotografias que aparecem nos maços de tabaco, sobre as quais também já falei.

Para além de ser estúpido, um desperdício de saúde, um autêntico assalto à carteira, um motivo de querelas e discussões desnecessárias com quem não fuma e uma forma de, lentamente, nos matarmos, é, como já referi num texto anterior, um vício nojento que não nos dá nada de bom. Pelo contrário, só nos causa problemas, e problemas sérios! Podia repetir isto cem vezes que não seria suficiente. Problemas vezes cem, vantagens vezes zero.

Para além de… pronto está bem, eu páro!

Impressionante, o que o vício do tabaco nos faz, o estado em que nos deixa, o estado em que me deixou. Apesar de frequentar um ginásio há sete meses e de fazer, pelo menos, quatro sessões de exercício por semana, nos últimos dois meses só tenho engordado. Pudera, passo o dia a comer porcarias! Desde gomas a batatas fritas, passando por gelados e pistachos, rematando com a esporádica pizza a escorrer óleo, tudo bem regado com uma coca cola zero, para não me esticar no açúcar, claro. É o sintoma do bicho-carpinteiro (invenção minha?!): não consigo estar quieto! Mas não faz mal. Agora passo uns meses sem fazer análises, que estes ímpetos devoradores hão-de passar.

Apercebo-me, à medida que os parágrafos vão surgindo à minha frente, que não me apetece parar. Quero continuar a contar esta história, mas, para já, não posso fazê-lo. Tenho mesmo de parar. Talvez um dia, mais tarde, volte a pegar nestas páginas e a acrescentar-lhes mais algumas das experiências (tantas!) que tenho vivido nas últimas semanas.

Para já, e em jeito de conclusão, quero apenas dizer que me orgulho muito de saber que já houve, pelo menos, duas pessoas que deixaram de fumar por terem lido os meus textos. Fenomenal! Fico genuinamente feliz com isso!

Quero agradecer à minha mulher, pelo apoio e por aguentar (quase) sem resfolegar a minha irascibilidade nos últimos tempos. E quero agradecer especialmente ao Luís cujo-apelido-não-interessa, por me ter emprestado o livro que começou tudo isto, e por me ter feito a pergunta que despoletou a minha vontade inquebrável de nunca mais tocar num cigarro:

Lembras-te da pessoa que eras antes de fumar?

Respondi-lhe que sim, mas menti com quantos dentes tinha na boca. Não me lembrava, e continuo sem me lembrar. Mas a pessoa que sou agora está a fazer valer a pena.

Engraçado, como uma coisa tão simples deu a volta a um problema tão complicado.

Post Scriptum – Caríssimo leitor, não me esqueci de ti! Depois desta longa conversa que tivemos, o mínimo que se pede é que nos tratemos por tu e deixemos de parte as formalidades. Tomei a liberdade de começar eu, e confio que não te importas.

O tema dos cigarros acabou, por agora, mas não vão faltar outros e, como tenho feito até aqui, conto com a tua fiel atenção. Tu, ao contrário dos cigarros, fazes-me falta. E muita!

Obrigado por aqui estares.

Até já.

2 Replies to “Dá-me um cigarro! (a derradeira)”

  1. Caro escritor e grande amigo Rui, aqui estarei para ler os teus textos. Gosto do que escreves e vou-te dar um conselho, utiliza essa tua capacidade argumentaria para escreveres um livro em prosa, mas em que não fales acerca do tabaco.

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