Dá-me um cigarro! (6ª parte)

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Caríssimo leitor, espero que esteja sentado. Não porque vá acontecer algo de especial, mas porque ler em pé é um pouco desconfortável.

Já está? Muito bem, prossigamos.

Estou cada vez mais perto das duas mil horas sem tocar num náite. O final desta saga encontra-se muito próximo e até ao final do texto a razão tornar-se-á evidente.

Enquanto escrevo estas palavras, estou a ouvir uma playlist de jazz no Spotify. Descobri recentemente duas coisas: a primeira é que consigo, afinal, ouvir música enquanto trabalho, desde que seja apenas instrumental. Depois de três semanas a ouvir música clássica, decidi mudar de ares, e ainda bem, pois a segunda coisa que descobri é que o jazz tem um efeito calmante sobre o meu cérebro (aquele que parece que está sempre prestes a rebentar, como certamente o caríssimo leitor estará recordado).

Por falar em efeito calmante, esta última semana foi bastante melhor. Não sei se terá sido das doses industriais de cenas naturais que estou a tomar, mas o facto é que me parece que a panela de pressão já consegue aguentar mais um pouco antes de começar a chiar desenfreadamente. Ainda assim, e agora que penso nisso, o último dia que me lembro de estar calmo e sem qualquer tipo de pressão ou sintoma de ansiedade (ou seja, de ser uma pessoa normal), foi enquanto fumador. Mas vá, não posso desanimar agora que já cheguei tão longe. Sinceramente, nunca pensei chegar aos dois meses, mas aqui estou!

Há um ditado que fala da calma antes da tempestade. Estes últimos dois meses têm sido ao contrário para mim. Estou no meio da tempestade à espera, ansiosamente, que chegue a tão famigerada calma.

Tenho de reconhecer que já estou um pouco farto de toda esta situação. Afinal, oito semanas já é um período considerável. É tão considerável que quase não penso em tabaco.

 

Acabei de me aperceber que só comecei a pensar em cigarros e fumo quando me lembrei que tinha de vir escrever o texto da semana.

 

Continuo com alguns tiques na mão e com certas reacções engraçadas, por serem involuntárias, como quando tento acabar o jantar depressa porque tenho de ir fumar, ou depois de dois ou três goles numa bebida alcoólica levar a mão ao bolso das calças, ou sair mais apressadamente de um espectáculo porque me apetece fumar (e reclamar por não haver intervalo). Sim, estar noventa minutos sem fumar é um verdadeiro drama! Ou era.

Apesar dos pesares, neste momento estou livre disso tudo e muito mais. E sinto-me bem. A ansiedade há-de passar e, tendo em conta que estou mais bem-disposto, respiro melhor, consigo pedalar e correr e levar o meu corpo a limites inimagináveis há dois meses, consigo fazer uma coisa sem pensar que eventualmente tenho de fazer uma pausa para contaminar os pulmões, consigo aguentar dois berros do meu filho em vez de só aguentar um, consigo…

Pois, a lista é extensa e aborrecida, porque afinal apenas consigo coisas que um não fumador consegue naturalmente. Ou seja, voltei a ser uma pessoa normal, e neste caso específico, ser normal não me incomoda nada.

Havia uma coisa que me faltava muito enquanto fumador: a paciência. Sempre fui uma pessoa de combustão fácil e sempre me irritei com alguma facilidade. E digo sempre porque mal recordo a pessoa que era antes de fumar, e porque ainda estou em fase de descoberta da pessoa que sou enquanto não fumador. Para já, estou a gostar.

Estou a gostar tanto que tenho de parar de escrever sobre os cigarros. É muito provável que o texto da próxima semana seja o último da saga.

 

Logo decido, quando o escrever.

 

(continua)

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