Dá-me um cigarro! (5ª parte)

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Caríssimo leitor, muito obrigado por aqui estar!

Passaram mais de mil horas desde que fumei o último cigarro, pelo que vou deixar de escrever aqui os enfadonhos números por extenso e limitar-me a arredondar. São mais de mil horas, mas podiam ser muito menos, pois os sintomas não há meio de melhorarem. Começo a ter algumas dúvidas sobre se esta paranóia toda será mesmo apenas do tabaco, ou se a ansiedade de que falei no último texto estará a ganhar terreno.

Ah, e por falar no último texto…

Eu queria algo forte, e queria-o já.

E queria-o já, não por ser um agarrado que de repente se apercebe que ficou sem chucha, mas sim por ser um agarrado ansioso. Sim, isso mesmo. O que me acontece, esquecendo o facto de ser dificílimo de explicar, não é nada agradável. Os sintomas têm mudado ao longo dos anos, mas há um que se mantém sempre, que é o da pressão na cabeça (que por vezes se estende ao pescoço). Este conceito de pressão na cabeça é um pouco estranho, mas é a forma mais aproximada que tenho de desenhar aquilo que sinto.

Quando me perguntam, costumo dizer a médicos, familiares ou amigos que a sensação que tenho, pouco depois de me levantar da cama, é que o meu cérebro funciona umas centenas de vezes mais rápido do que era suposto. É automático. Assim que ponho o pé fora da cama, a minha cabeça começa a assapar e só pára quando volto para a almofada no final do dia (nos dias mais difíceis o regresso à almofada é à hora de almoço, nem que seja por uns escassos trinta minutos).

A estes ingredientes todos basta juntar uma dose quê bê de sintomas de abstinência, e o resultado final é um belo de um cozido à por-favor-alguém-que-me-desligue-o-cérebro. Sim,  a sensação é mesmo a de que, eventualmente, a cabeça vai rebentar. Continuando nas analogias culinárias, digamos que a minha cabeça é uma espécie de panela de pressão da loja dos trezentos. Estes são os dois sintomas mais prementes e que mais confusão me fazem, mas há muitos mais, desde tonturas a ataques de pânico, passando por sessões de agorafobia e até mesmo fasciculações musculares (este, devo reconhecer, até tem um nome bastante giro).

No meio de todo este turbilhão, estou eu, uma pessoa extremamente calma e temperada, ou pelo menos é o que as pessoas que me “conhecem” dizem. Quando numa qualquer conversa o tema vem à baila, as pessoas reagem com surpresa e espanto ao perceberem que, afinal, aquele poço de calma é na verdade uma barragem prestes a transbordar. E a ansiedade é isso mesmo. Sorrateira e dissimulada, é exímia em manter-se nos bastidores, sem nunca dar a cara. Vai dominando, a pouco e pouco, as emoções e o sistema nervoso do seu anfitrião que pouco ou (quase) nada pode fazer.

Este quase entre parenteses serve-me para voltar ao tema do cigarro, para dizer algo que é bastante óbvio, mas que eu nunca me tinha apercebido (talvez por nunca ter tido necessidade de pensar nisso): o tabaco tem um efeito ansiolítico.

 

Calma!

 

Antes de começar já a deitar fumo da cabeça e a pensar em deixar de seguir este blogue (sim, eu sei que é seguidor assíduo e que inclusivamente fala a toda gente do que lê aqui!), a verdade é mesmo essa. Apesar de na realidade o cigarro nos deixar mais nervosos, facto desconhecido de uma grande parte dos fumadores que conheço, temos a sensação de que ficamos mais calmos. Parece estranho, mas é mesmo assim. Os sintomas de abstinência – que começam pouco depois de apagarmos um cigarro – são tão fortes que o nosso cérebro julga que estamos a ficar mais calmos à medida que fumamos um cigarro, quando na verdade o que acontece é precisamente o contrário. Todo este processo tem uma designação muito simples: adição. Sim, os fumadores são tão drogados como os consumidores de cocaína, heroína, cafeína, etc. A única diferença é o tipo de droga.

Por falar em droga, neste momento estou livre da nicotina, mas para colmatar a sua falta encontro-me numa espécie de terapia de choque. Na última semana fiz duas sessões de acupunctura, comecei a tomar doses de cavalo de valeriana, passiflora e An Shen Wan. Para compor o ramalhete, quando acordo, e antes de me deitar, deito duas gotas de extracto essencial de alfazema e esfrego-as no pulso, para depois fazer exactamente sete inalações. A isto tudo há que acrescentar as quatro sessões de exercício físico que faço por semana, sem falta.

O caríssimo leitor estará neste momento mais descansado, confiante em que eu estarei, com toda a certeza, mais calmo e no bom caminho para uma vida mais tranquila, livre de tabaco e de paranóias, certo?

 

Errado.

 

(continua)

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