Dá-me um cigarro (4ª parte)

Caríssimo leitor, já estive mais longe de começar a tratá-lo por tu.

Já lá vão quase sete semanas, o que perfaz, sensivelmente, umas mil cento e setenta e seis horas sem tocar num cigarro, e tenho de admitir que a coisa não está fácil. Os sintomas de abstinência estão ao rubro, mas eu mantenho-me firme e hirto e não faço tenções de vergar. Dos fracos não reza a história e o resto da minha será escrito com muita ansiedade, mas sem fumo. Adiante.

Caso a memória não seja o seu forte, terminei o último texto com uma pergunta:

O que é um cigarro pensativo?

A hipálage original do nosso querido Eça de Queirós, “Fumar um pensativo cigarro”, além de uma figura de estilo com nome de tropa grega, é uma das expressões mais conhecidas e replicadas da nossa língua. Eça usava e abusava deste recurso estilístico, mas o que mais ficou impregnado na nossa memória foi esta frase do cigarro pensante. Lembram-se da conversa da lavagem cerebral? Pois.

Nos vinte anos em que fui fumador, lembro-me de ter fumado muitos cigarros deste tipo, os pensativos, ou como eu gostava de lhes chamar, as muletas do intelecto. Por alguma razão que me ultrapassa, foram inúmeras as ocasiões em que recorri ao fumo do cigarro para pensar melhor, renovar níveis de concentração ou simplesmente descontrair um pouco. Não me recordo de sentir nenhum efeito ou alteração, nem nenhum aumento de concentração ou inspiração, pelo simples acto de fumar. Talvez o facto de fazer uma pausa no processo criativo fosse suficiente e o cigarro não tivesse nada a ver com isso. É o mais provável. Mesmo assim, e só para ter a certeza, vou só ali à varanda fazer umas inalações pensativas de ar puro, para verificar se o efeito é o mesmo. Volto já.

 

                                                            

 

Já voltei. Devo dizer que não noto qualquer diferença. Não me sinto nem mais nem menos inspirado e o pensamento flui – ou encrava, consoante o caso – da mesma forma. Pena não poder fumar um cigarro e estabelecer as diferenças (apenas e só a bem da ciência, entenda-se). Agora, deixemo-nos de tonterías, que o assunto é sério.

É tão sério quanto a importância que lhe damos, e eu dou-lhe muita. Há muitos anos que sofro de uma ansiedade mansinha, dócil, cujos sintomas, apesar de chatos, nunca me impediram de fazer seja o que for, nem nunca foram mais fortes do que a minha vontade de fazer coisas, de produzir, de trabalhar ou simplesmente de descontrair e não fazer nada (sim, a ansiedade também se manifesta quando estamos deitados à beira-mar numa ilha deserta, apenas com o som do mar e do leve rebentar das ondas).

Desde que deixei de fumar que isso mudou.

Nos primeiros cinco dias correu tudo muito bem. Mas depois começou o calvário. De um dia para o outro, a paranóia apoderou-se de mim e eu deixei de ter qualquer controlo sobre o meu estado nervoso. Deixei de ser capaz de manter o meu cool, ou melhor dizendo, de me manter cool. De um dia para o outro, os sintomas que apenas me tinham feito cócegas no sistema nervoso revelaram-se verdadeiras máquinas de tortura cerebral, até que um dia verguei, e fui-me abaixo.

Mas não voltei a fumar!

Depois de uma pesquisa na Internet e de fazer umas quantas perguntas ao tio Google, decidi que estava na hora de mandar o Allen Carr à bardamerda e começar a tomar os substitutos que aquele autor tanto abominava no seu livro. Sim, meus amigos. A hora das gomas e dos chocolates havia chegado ao fim. Estava na hora de começar a tomar qualquer coisa para amenizar os implacáveis sintomas de abstinência.

Digamos que me senti como um drogado à procura de uma farmácia, depois de ter esgotado a última quinhentola. Já não queria saber de força de vontade nem do raio que o parta. Queria algo forte. E queria-o já.

 

(continua)

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