Dá-me um cigarro (3ª parte)

Caríssimo leitor, a sua fidelidade é de louvar!

Já passaram três semanas, ou quinhentas e quatro horas, desde que fumei o último pitillo. Admito que não sinto grandes melhoras no que aos sintomas diz respeito. É sabedoria popular que as primeiras três semanas são um horror apenas comparável à sensação de estarmos a ser perseguidos pelo Freddy Krueger (quem nunca teve esse pesadelo que se acuse), e que depois, como que por artes mágicas, passamos a viver num paraíso idílico, onde o único fumo que se vislumbra é o da neblina matinal que paira sobre lagos de nenúfares, povoados de fadas que passam o dia a tratar da floresta e a tocar baladas místicas em harpas feitas de crinas de unicórnio…
Não, não é assim.
Os sintomas de abstinência ainda cá estão, ainda que mais dóceis, como que amansados, mas não se foram embora. A parte curiosa é que não tenho vontade de fumar, mas a paranoia não acalma nem um bocadinho. É como se tivesse milhares de monstrinhos a trabalhar dentro da minha cabeça e a dizer ao meu cérebro que quero fumar um cigarro. Mas, ai de mim! A persistência é uma qualidade que sempre afirmei possuir, e não posso dar parte de fraco. Ainda por cima, logo agora que o pior supostamente já passou, ainda que haja partes do dia em que pareço o Christian Bale no American Psycho. Tirando isso, e com a ajuda do desporto que tenho praticado, até tem sido bastante suportável. Diria que se trata de uma questão de mentalidade, e sobretudo de vontade, o que me faz voltar à conversa da lavagem cerebral que comecei no último texto.

Partindo do pressuposto que o cigarro sabe mal, o que será que nos faz continuar com aquele vício nojento? Sim, para mim é agora um vício nojento. Desde que recuperei o meu olfacto que uma simples lufada de fumo ou o cheiro que um fumador emana logo depois de fumar me causam repúdio. Com tanta campanha anti-tabágica e tantos apelos institucionais para estilos de vida mais saudáveis, como se compreende que as pessoas continuem com o vício? Isto para não falar do preço de um maço de tabaco e das lindíssimas imagens que agora trazem os ditos. Perdi a conta à quantidade de vezes que tapei essas fotografias com o isqueiro ou com outra coisa qualquer (por exemplo, pôr a carteira em cima do maço, em vez de al revés, como seria normal). Comecei inclusivamente a notar, quando ia comprar tabaco, que de um dia para o outro as tabacarias tinham em local de destaque umas caixinhas coloridas para maços de tabaco. Mais um negócio da China, pensei. Mas como não gosto de caixas e nem estava para me dar ao trabalho de meter o maço noutro sítio que não fosse no bolso, continuei a disfarçar da melhor forma que podia aquelas imagens horrendas. E tudo isto porquê? Qual é a razão da inconsciência, da indiferença, do nem sequer pensar nisso? Estas perguntas não têm resposta fácil, mas talvez possa afirmar com alguma certeza que se trata de medo. O medo dos sintomas de abstinência leva-nos a nem sequer pensarmos em deixar o vício. Isto é tão verdade para o tabaco como para qualquer outra droga ou vício que cause adição. E o problema está precisamente no primeiro cigarro, pois assim que o fumamos, ficamos agarrados ao tabaco como um toxicodependente se agarra à heroína ou como um jogador se prende à mesa do casino, muitas vezes indelevelmente ignorante da sua situação de drogadito. O Allen Carr afirma no seu livro que não existe “só um cigarro”, e é verdade. É tão verdade que, depois de fumar o primeiro, passaram vinte anos até fumar o último. E eu não sou o único! Normalmente só arrisco quando tenho cem por cento de certeza de acertar, mas desta feita vou perder a cabeça e apostar que o primeiro cigarro soube mal a toda a gente!
Com esta lengalenga toda acabei por me desviar um pouco do que queria dizer, que tinha a ver com a lavagem cerebral. Ainda que hoje não seja tanto assim, durante muitos anos fumar era visto como algo cool. Para se ser cool era preciso ser-se fumador, e era muito raro haver alguém cool que não fumasse. Nos rapazes, fumar significava (e provavelmente ainda significa) uma espécie de ascensão prematura à maioridade, um salto repentino que transforma rapazes de bigode em homens de barba rija. Não posso falar das raparigas, mas decerto que os estigmas sociais também a elas se aplicam. Além disso, o facto de ser proibido antes dos dezoitos anos, e de ser também uma sentença de sova de cinto para muito rabinho sem pelo, faz com que se torne mais apetecível, não fosse essa a principal qualidade do fruto proibido. De resto, e tal como acontece nos filmes de guerra que mencionei no texto anterior, passamos a vida a ser bombardeados com imagens de fumadores ou alusões indirectas ao tabaco, diariamente, na televisão, no cinema e até – quando ainda era permitido -, no teatro. O cigarro está associado à desinibição, ao conforto, ao sexo, ao café, às bebidas alcoólicas, ao pós-refeição (ah! Que bem sabe aquele cigarrinho depois de uma boa mariscada, não é?), às situações que antecedem ou se sucedem a momentos de stress, às noitadas, às madrugadas, aos intervalos e a tantas outras coisas. Houve mesmo quem associasse o cigarro ao acto de pensar e o adjetivasse, inclusivamente, de pensativo.

O que é um cigarro pensativo?

(continua)

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