Dá-me um cigarro!

Faz hoje uma semana que fumei o meu último cigarro. Depois de vinte anos e alguns meses de dependência, decidi que não iria continuar a ser escravo de um vício que só me trouxe chatices. É curioso como levei tanto tempo a perceber que o tabaco não traz nada de bom. É mais curioso ainda verificar que, em vinte anos, os cigarros não me deram rigorosamente nada de positivo, muito pelo contrário, só me causaram problemas. Assim sendo, e considerando que me vejo como uma pessoa minimamente inteligente, o que me levou a prolongar este vício durante tanto tempo? Porque é que me mantive agarrado ao cigarro sem nunca sequer questionar por que o fazia? Porque foram necessários vinte anos para eu me aperceber que o cigarro sabe mal? Sim, eu pertencia aos tolos que se convencem que o tabaco sabe bem. Se algum de vós estiver a ler este texto, sugiro que parem e vão fumar um cigarro. Depois, sintam-se à vontade e enviem-me uma mensagem onde me expliquem qual foi a parte que vos soube melhor. Em detalhe, por favor.

Nas últimas cento e sessenta e oito horas não tenho pensado noutra coisa. Não é que esteja vidrado, mas o pensamento de fumar paira sobre a minha cabeça como uma nuvem solitária no céu, perseguindo-me sem tréguas, como que a tentar dizer-me que não tenho escapatória. Mas isso não é verdade! Este texto surge por isso mesmo. Vou munir-me das palavras e debelar o vício, acabar de vez com ele. Vou tornar-me num arauto contra o tabaco e um defensor acérrimo dos pulmões sem fumo e dos cérebros livres do “hábito”. Não sei se vou escrever muito ou pouco sobre este assunto. Sei que tenho muito para dizer e espero que as palavras não me falhem, assim como o meu resoluto e inquebrável voto de nunca mais voltar a fumar não me tem falhado, pelo menos durante a última semana. Mas sendo ele – o voto, entenda-se – resoluto e inquebrável, em princípio não falha, certo?

A primeira versão do voto de nunca mais voltar a fumar, chamemos-lhe versão 1.0, remonta ao ano de mil novecentos de noventa e sete. Foi nesse ano, e no jardim municipal de Elvas, que fumei o primeiro Marlboro da minha vida. Tinha apenas dezassete anos e era um adolescente orgulhoso do meu corpo, moldado pela natação no Verão e o basquetebol no Inverno. Não era muito de modas, e acho que se pode dizer que era bastante reservado. Gostava de estar com os meus amigos, de ler e de namorar. Um jovem normalíssimo, portanto.  Fui também, e aliás, o último do meu grupo de amigos a ceder à tentação, pois todos cederam, ainda que alguns tenham tido a noção do que estavam a fazer e… ficaram-se pelo primeiro cigarro. Apesar de não recordar com particular nitidez aqueles momentos, lembro-me perfeitamente da avalanche de tonturas que começaram assim que me levantei da relva, orgulhoso por me ter, finalmente, tornado um homem. Senti-me muito mal, lembro-me disso. Lembro-me também de ter tido a feliz e iluminadíssima ideia de ir comer um brinhól e beber uma coca-cola logo a seguir. Não tardou muito até as tonturas começarem a absorver o óleo da maldita fartura e rapidamente àquelas se juntaram vómitos abundantes. Passei o que restou dessa noite com suores frios e a lamentar-me por existir, prostrado na minha cama, na minha então alegre casinha. Foi nessa noite que jurei solenemente que nunca mais voltaria a pegar num cigarro. Não consegui compreender como é que os meus amigos gostavam tanto daquilo, ao ponto de já comprarem maços e andarem sempre de isqueiro no bolso. Que mal me soube aquilo! E que mal passei aquela noite! Estava decidido, não havia grande volta a dar-lhe: já tinha experimentado e estava certo de que não tinha gostado, convicto até de que me tinha sabido execravelmente mal, como se tivesse abocanhado o tubo de escape de um carro e chupado o ar com todas as minhas forças. Na minha cabeça, estava claro como o céu alentejano num dia de Verão: nunca, mas nunca mais, voltaria a pegar num cigarro. A noite finalmente passou e o meu calvário chegou ao fim. O dia começou bem e até consegui aguentar bem o pequeno-almoço, pelo que saí de casa extremamente bem-disposto. Já nem sequer pensava em tudo o que se tinha passado na noite anterior.

Antes de ir para a escola, passei pelo quiosque e troquei cento e setenta e cinco escudos por um maço de SG Ventil.

(continua)

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