Dá-me um cigarro! (2ª parte)

Caríssimo leitor, o meu muito obrigado por voltar!

É já de seguida que continuo a minha purga do tabaco. Já passaram duas semanas, o que perfaz um total de trezentas e trinta e seis horas sem tocar num paivante. Conto, obviamente, com o seu interesse, apesar de não ter recebido qualquer mensagem relativa ao desafio que lancei no texto anterior. Nada que me surpreenda, sinceramente. Se calhar o tabaco sabe mesmo bem e eu não sei do que falo, ou talvez tenha um paladar mais aguçado, como uma espécie de decantador de sabores execráveis e nauseabundos, ou ainda, e muito possivelmente, tenha andado vinte anos convencido de que os cerca de vinte cigarros diários me sabiam bem. Vinte cigarros. Diários. Durante vinte anos. Vinte… Diários… Durante… Mas permita-me agora voltar à minha história, pois fiz promessa de continuação, e as promessas são para cumprir.

Vou continuar com uma pergunta: por que raios parei eu naquele quiosque? Há qualquer coisa que não bate certo, se tivermos em conta tudo o que antecedeu a referida compra, as tonturas, as sensações de mal-estar, as promessas de nunca voltar a… Não sendo eu versado em comportamento humano, e longe de ter algum conhecimento de como funciona o nosso cérebro, arrisco dizer que terei sido alvo de uma lavagem cerebral. Ora, ser alvo de alguma coisa implica que haja um perpetrador. Quem foi, neste caso? É mais um desafio que deixo no ar: encontrar o responsável pela lavagem cerebral a que fui sujeito, sem qualquer tipo de conhecimento da parte interessada: eu! Se souberem, por favor, não hesitem em contactar-me. Eu cá tenho umas suspeitas, sendo que todas apontam para uma entidade que muitas vezes passa pelo nome de Sistema, mas longe de mim querer entrar, pelo menos por agora, em orwellices (mas quem sabe, um texto sobre o 1984 talvez tivesse o seu interesse). No entanto, e apesar de ainda ser menor de idade na altura, era dono e senhor daquilo em que pensava e acreditava, ou será que não era? Então o normal não teria sido deixar de vez o tabaco e jamais voltar a pensar nisso? Começo a notar um padrão no que se refere à pontuação desta segunda parte. Muitas frases interrogativas, que me sugerem que a dúvida é real, e a questão assaz séria. Agora que sou um (feliz) não fumador, expressão que roubo sem qualquer tipo de vergonha a Allen Carr, cujo livro me ajudou (e muito!) na decisão de parar com o vício, tenho o discernimento necessário para ver o mal que me estava a infligir a mim mesmo. A parte que não faz sentido é eu saber e ter plena noção de que sempre fui detentor desse discernimento! Só pode ter sido uma nuvem de fumo que passou e me toldou o raciocínio durante todo este tempo. Isso e a lavagem cerebral, claro. Na altura em que fui adolescente, esta lavagem cerebral de que falo já não era tão evidente como aquando do seu apogeu na América dos anos cinquenta, década em que havia mais fumadores do que pessoas saudáveis e num tempo em que se acreditava que o tabaco não fazia mal. Ou melhor, quando nem sequer se pensava nisso. Pensar naquela época nos dias de hoje consegue causar asco e repúdio, inclusivamente, a muitos fumadores. A sociedade progrediu, ainda que lentamente, no bom sentido, e a tendência no presente é a de não se poder fumar. Há-de chegar o dia em que será proibido fumar em todo o lado, dia que quanto a mim só pecará por tardio.

Poderá o meu caríssimo leitor pensar, neste momento, que estou a ser um pouco hipócrita. Tenha calma e não comece já a fazer-me juras… Eu, enquanto (infeliz) fumador, sempre defendi que não devia ser permitido fumar em espaços fechados. Apesar de viciado, nunca me senti bem em bares, cafés, cinemas, elevadores (!) ou tantos outros locais públicos onde se podia fumar. É certo que também o fazia, mas como diz o ditado: se não os podes vencer…

Voltando ao Allen Carr, devo dizer que a ideia da lavagem cerebral não é minha, mas dele. Apesar de ser bastante óbvia, nunca tinha pensado nela, pois era um fumador consciente e despreocupado. Um dos exemplos que mais me marcaram e que ilustra bem a facilidade com que o nosso subconsciente pode ser trabalhado tem a ver com o cinema, essa arte de que eu tanto gosto. Nos filmes de guerra, ou em filmes que tenham cenas de guerra, sempre que um soldado está para bater a bota, qual é coisa qual é ela que os irmãos de armas providenciam, rigorosamente e sem excepção, como forma a aliviar a dor e facilitar a passagem para a outra margem? Ler uma passagem de um livro favorito? Mostrar uma fotografia de um ente querido? Ir a correr buscar uma menina para fazer um strip de última hora? Abrir a marmita e aquecer no fogão de campismo um pouco da feijoada da mamã?

– Inserir desejo de moribundo aqui –

Não! É um cigarro nos beiços e toda a gente morre descansada.

(continua)

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